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Que impacto poderão ter os confinados no resultado das eleições?

07 jan, 2022 - 15:56 • João Carlos Malta

O número de pessoas em isolamento em Portugal não para de crescer, sendo que aos casos ativos se somam aos que estão em isolamento. Haverá consequências para a votação de dia 30 de janeiro, mas ainda há muitas dúvidas. Algumas ficarão, à partida, por desvendar.

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Neste momento, Portugal tem mais de 400 mil confinados por estarem infetados com Covid-19 ou em isolamento e a projeção dos especialistas é a de que sejam mais no dia das eleições legislativas, marcadas para 30 de janeiro.

O número terá impacto na votação, mas será difícil, segundo os especialistas, perceber ao certo quais serão esses efeitos. Mas há um que, à partida, parece ser certo: uma subida da abstenção.

“O efeito é o de aumentar a abstenção e isso não há grande volta a dar. O problema é que em relação à abstenção não há grandes soluções, porque se se decidir que [os confinados] vão votar, outras pessoas ficariam com medo e deixariam de ir”, diz à Renascença o economista e professor universitário, Luís Aguiar-Conraria.

Na quinta-feira, o primeiro-ministro, António Costa, alegou que a questão do voto dos cidadãos em isolamento foi agora levantada por causa do aumento acentuado dos casos da Covid-19 e salientou a exigência de atuar com base num quadro jurídico sólido.

António Costa foi questionado sobre as razões que levaram o Governo a colocar a questão do voto dos cidadãos em isolamento só agora, quando isso não aconteceu nos anteriores atos eleitorais das presidenciais e das autárquicas.

"O parecer foi solicitado ao Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República (PGR) porque estas eleições acontecem num momento em que estamos confrontados com uma variante que sabemos ser altamente transmissível. Sendo altamente transmissível, haverá mais pessoas afetadas”, começou por justificar o líder do executivo.

Mas se tentarmos escrutinar sobre que partidos serão mais afetados por um número elevado de confinados, o exercício já é muito mais difícil.

Os problemas começam no facto de a Direção-Geral da Saúde (DGS) não segmentar por faixas etárias os casos ativos de Covid que, na quinta-feira, passaram os 250 mil, e os que estão em isolamento que já são mais de 200 mil. Ao pedido da Renascença, fonte oficial daquela entidade disse não ter “essa informação disponível dessa forma para ser partilhada”.

Luís Aguiar-Conraria, que colaborou com a Renascença na elaboração do projeto “Sondagem das Sondagens”, acredita que os confinados poderão ter um impacto diferenciado nos partidos.

“Aí é que acho que pode haver alguma coisa. Estando as pessoas em isolamento, continua a ser um direito votarem, o que imagino é que os negacionistas serão as pessoas que terão tendência em furar o isolamento”, diz.

“E essas pessoas costumam aparecer na comunicação social mais associadas ao Chega e algumas à Iniciativa Liberal”, concretiza.

Por isso, conclui, “pode haver um impacto diferenciado que prejudique os outros partidos em relação aos outros dois”.

Mas apesar disso, ressalva, “o problema do que estou a dizer é que vai ser impossível algum dia saber se a minha especulação é correta ou errada”.

400 mil votantes a menos? Não necessariamente

Pedro Magalhães, especialista em sondagens e investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, lamenta que nada saibamos “sobre a composição social das pessoas que estão confinadas”.

“Se soubéssemos e se presumíssemos que os padrões de votação se repetiriam, poderíamos especular um bocadinho dentro dessa presunção. Não sei se existe, não sei quem são estas pessoas, nada, nada”, diz.

Em 2019, o investigador foi responsável por um estudo à boca das urnas em que se identificou que as pessoas com mais de 65 anos votam mais em PS e CDU, e que os mais jovens preferem o Bloco de Esquerda e o PAN. O PSD tem quase uma repartição equitativa, ainda assim com mais jovens.

“Imagine que há 400 mil pessoas confinadas, podíamos dizer que há menos 400 mil que vão votar? Não necessariamente, porque muitas delas não iriam votar caso estivessem confinadas ou não”, constata.

Magalhães afirma ainda que se os confinados fossem uma maioria de muito jovens poderia dizer-se que “as forças políticas que os mais jovens tendem a apoiar seriam prejudicadas”.

Mas, por outro lado, “a taxa de abstenção dos mais jovens é mais alta”. “Isso significaria que o efeito do confinamento sobre a participação seria menor, se os confinados fossem mais os jovens do que se fossem os mais velhos”.

Em relação à legitimidade de um Governo saído de umas eleições com muitos constrangimentos é uma questão que para Luís Aguiar-Conraria “ninguém levantará”, e acrescenta que ninguém ousará impedir os portugueses que queiram votar.

“É muito difícil argumentar que as pessoas não têm direito de votar. Formalmente vota quem quer”, remata.

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