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Visitas a lares e instituições de saúde. “Sem abraços nem beijos, novamente? É terrível”

03 dez, 2021 - 08:15 • Liliana Carona

Na casa de Saúde Bento Menni, na Guarda, estão de volta os acrílicos para separar os visitantes, dos utentes que não apresentem teste à Covid-19. Na unidade de psiquiatria, quem está institucionalizado, fala em desgaste e tristeza.

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Reportagem de Liliana Carona
Reportagem de Liliana Carona

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Reuniões e mais reuniões para determinar medidas extra de contenção da Covid-19. Têm sido assim os últimos dias na casa de Saúde Bento Menni, na Guarda, e noutras instituições contactadas pela Renascença.

“Não estamos, para já, a receber visitas.” Esta é a resposta mais comum.

Na Casa de Saúde Bento Menni, a entrada de jornalistas é permitida desde que cumpram as regras, ou seja, apresentação de teste negativo e certificado digital de vacinação.

Rui Pinto, diretor gerente da instituição de saúde garante que sempre seguiram as orientações da DGS, no entanto, não esconde uma preocupação. “A questão das visitas é uma questão nova e preocupamo-nos em relação à questão logística, a dificuldade que as visitas têm revelado no acesso aos testes”, lamenta o responsável, admitindo a adoção de estratégias extra.

“Procuramos que a família tenha contacto, mesmo não apresentando o teste: através das novas tecnologias, tablets, videoconferência; e estamos a retomar as barreiras físicas com acrílicos. Porque o que nos preocupa é a saúde dos nossos utentes.”

“Vamos avaliar a tempestividade em função da situação epidemiológica. O acrílico servirá para permitir visitas a familiares que não possam realizar o teste de antigénio certificado e, nesse caso, disponibilizamos um espaço com as condições de segurança. No momento em que a situação o permita e as visitas estejam dispensadas de apresentação de teste de antigénio certificado, então, aboliremos a barreira física”, garante o diretor.


“É normal que as pessoas estejam desmotivadas”

Com capacidade para 168 utentes, nas valências de psicogeriatria, deficiência intelectual e doença mental, há várias salas de visitas e uma delas separada por uma porta e acrílico, onde um intercomunicador faz a ponte entre o utente e o visitante.

“Espere além na salinha se faz favor”, indica a assistente social, que tem informado utentes e familiares sobre as novas regras. A trabalhar na Casa de Saúde Bento Menni há 27 anos, Ana Escada procura dar alento aos utentes.

“Vamos tentando contornar a saturação com estratégias motivadoras e muita esperança, mas é normal que as pessoas estejam desmotivadas, mas muito bem se estão a portar eles. Há uma nova fase de adaptação, porque as pessoas já entravam só com o certificado e estavam habituados a que vir sem barreiras. Agora, a pessoa entra e volta a dar de caras com o acrílico”, observa a responsável.


Oficina de escrita e outras atividades para "dar a volta"

“Isto é um pequeno trabalho sobre pandemia feito aqui na oficina de escrita”, mostra Henrique Gouveia, 67 anos, natural do concelho da Guarda, mas institucionalizado há três anos na unidade masculina de psiquiatria da Casa de Saúde Bento Menni.

As reviravoltas da pandemia inspiraram-no a escrever um texto que se apressa a ler. Valoriza as rotinas e agradece as oficinas que a instituição disponibiliza. “Higienizamo-nos, tomamos o pequeno-almoço, depois vamos para o atelier, fazemos várias atividades e temos também ginástica e relaxamento”, enumera.

Sobre as novas regras para as visitas aos lares, Henrique desabafa: “É um bocadinho chato e duro, porque praticamente há dois anos que não damos beijos nem abraços, é terrível. Os meus primos, que me tutelam, estiveram aqui há uma semana, mas agora há um retroceder. Quando nos disseram que havia vacina era uma luz ao fundo do túnel e, agora, uma nova fase pandémica”, diz entristecido.


“Tenho receio que voltem a interditar as missas”

Henrique considera que o telemóvel é uma ajuda para fazer face ao isolamento, mas não esconde o receio de que voltem a interditar alguns serviços, como “o ir ou não às missas”.

A Casa de Saúde Bento Menni (CSBM) é um estabelecimento de saúde, localizado na cidade da Guarda, que iniciou a sua atividade em abril de 1994.

É gerido pelo Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS).

Este centro assistencial está vocacionado para a prestação de cuidados em saúde mental, integrando as áreas de psiquiatria, psicogeriatria e deficiência mental, com preocupação pela prevenção, tratamento e reabilitação das pessoas que recorrem aos seus serviços, em sintonia com o Modelo Hospitaleiro.

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