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A diabetes é a razão para um em cada cinco ataques cardíacos

14 nov, 2021 - 08:21 • João Carlos Malta

A relação entre diabetes e enfartes do miocárdio está a preocupar os médicos especialistas que veem cada vez mais diabéticos a sofrer de ataques cardíacos. No dia em que se comemora do Dia Mundial da Diabetes, o cardiologista João Brum Silveira fala de uma sociedade com “um estilo de vida doente”.

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Álvaro tinha acabado de jantar. Uma refeição leve. Ainda na mesa, começou a sentir uma dor na parte direita do tronco que alastrou até ao outro lado. Ficou com braço imobilizado. Foi o princípio do enfarte que o levaria a três semanas de internamento nos cuidados intensivos. Ele que há cinco anos descobriu que era diabético.

O ex-taxista do Porto personifica um fenómeno cada vez mais recorrente, o de diabéticos que acabam por ter enfartes do miocárdio.

O cardiologista João Brum Silveira, médico do Hospital Santo António, no Porto, revela à Renascença que 20% dos doentes que sofrem um enfarte, e que tiveram de fazer uma angioplastia primária (enfarte do miocárdio) sofrem de diabetes.

“Por aqui, pode-se ver a amplitude disto”, sublinha, ao mesmo tempo que acrescenta que dentro deste universo 68% dos casos são homens, e a idade média dos pacientes é de 67 anos.

Álvaro Magalhães nunca esperou que o ataque cardíaco lhe batesse à porta. Tinha a diabetes controlada, fazia análises periódicas, e diz que a alimentação era regrada.

Mas mesmo assim, não foi suficiente. A 29 de agosto deste ano, foi parar ao Hospital Santo António, e entre esta unidade de saúde e o Hospital Santos Silva, em Gaia, passou quase um mês nos cuidados intensivos.

Foi um susto enorme. O maior da vida dele. “Nunca pensei. Estive mais para o lado de lá do que para o lado de cá. Lembro-me de ter entrado nas urgências até à parte da recolha de urina, e depois não me lembro do que aconteceu durante dois dias”, declara.

As sequelas para já não se manifestam com intensidade. Ainda assim, o medo ficou.

“Não tenho mazelas visíveis em termos de andar e de movimentar-me. Mas, algumas vezes, tenho um certo desconforto apesar de estar medicado. Uma das artérias está um bocadinho inchada, mas com o tratamento as coisas vão ao sítio”, afirma Álvaro.

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"20% dos enfartes do miocárdio são de diabéticos. Destes 68% são homens e a idade média é de 67 anos", João Brum Silveira, cardiologista do Hospital Santo António, Porto.

Para o futuro, garante que vai cortar ainda mais nos açúcares e nas carnes vermelhas. “Será grelhados, batata cozida. Massas não. Os açúcares estão fora de questão”, garante o sexagenário.

A piorar

O cardiologista Brum Silveira enquadra o problema. Afirma que o enfarte do miocárdio se deve à formação de placas de gordura nas artérias do coração − a que chamamos de arterosclerose.

Há causas para esta doença que “podem ser alteradas como o tabagismo, a hipertensão, o colesterol, o diabetes e o sedentarismo”. “E há outras que não modificamos, como a idade”, identifica.

“É mais frequente a partir dos 60 anos, mas cada vez temos mais pessoas entre os 40 e os 60 anos”, assinala.

Este médico diz que ser diabético é “um fator major” da arteriosclerose e da doença cardiovascular. “O principal órgão que a diabetes ataca é o coração”, identifica.

Brum Silveira não tem dúvidas em dizer que a diabetes é um problema, mas que “desde que esteja controlada, se faça a medicação, e análises, o doente tem um prognóstico melhor”.

Apesar da maior prevalência da doença entre homens, o médico diz que o género não é o fator mais determinante. O estilo de vida que cada um adota é muito mais relevante. Ao longo dos anos, os especialistas têm apontado para a necessidade da prática do exercício físico e da adoção de uma alimentação equilibrada. Ainda assim, o panorama não tem melhorado.

O cardiologista diz que temos uma sociedade que vive de uma forma muito pouco saudável.

“Quando se trabalha 10-12 horas, por dia, não se tem tempo para comer o lanche a meio da manhã, para fazer exercício físico. Isto paga-se. Vivemos numa sociedade completamente doente”, assinala.

Andamos a pregar para os anjinhos porque ninguém nos ouve. Estas doenças uma vez aparecendo, não há cura. O que conseguimos é controlar. Conseguimos que a doença não evolua. Mas ela surgindo vai acompanhar a pessoa até à morte e é a principal causa de nos levar desta para o outro lado”, afirma.

A diabetes é uma “doença silenciosa” que ao contrário, por exemplo, das ósseas não dói. “Quando as pessoas têm um problema nas costas ou no ombro, não conseguem trabalhar, nem se mexer, e fazem tudo para ter qualidade de vida. Estas doenças matam, mas não incomodam”, avisa o médico.

João Brum Silveira, médico há mais de 30 anos, diz que por vezes é difícil não se sentir desalentado. “Os doentes são santos durante dois ou três anos, mas ao fim de cinco anos já se esqueceram do que lhes aconteceu e voltam ao mesmo estilo de vida. E aí vão aparecer de novo com as artérias entupidas”, explica.

O mesmo lamenta ainda que em 80% dos casos os ataques cardíacos eram evitáveis. “Nós como médicos, muitas vezes, sentimo-nos frustrados, ou porque os doentes não perceberam ou não querem perceber”, remata.

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