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Incêndios

Alguém quer ver Louriçal do Campo arder. “Um dia destes as coisas vão correr muito mal”

01 set, 2020 - 07:00 • Fábio Monteiro

Em menos de dois meses, houve nove incêndios na pequena aldeia de Louriçal do Campo, colada à Serra da Gardunha, no distrito de Castelo Branco. Oito das ocorrências foram noturnas, o que levanta suspeitas de ação criminosa. A população está preocupada e receia que volte a acontecer um fogo de proporções semelhantes ao de 2017.

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A 15 de julho deste ano, Carlos Vaz de Deus, 74 anos, estava a descansar no terraço da sua casa, ao final do dia, quando reparou numa mulher, com uma criança pela mão, a andar em passo acelerado. O instinto bateu-lhe. “Vi pela aflição que havia fogo.” Sem recordar o que lhe havia acontecido três anos antes - caiu de um muro e “partiu-se todo”, durante o combate a um incêndio -, o reformado saiu de casa e foi à procura das chamas.

A menos de uns 50 metros, Carlos encontrou o foco no quintal de uma moradia, cujos donos estão emigrados. Saltou o portão; viu um marmeleiro, partiu uma pernada, e tentou abafar as chamas. Logo de seguida, um “jovem” com um sacho juntou-se-lhe e começou a atirar terra para cima das brasas. Quando os bombeiros chegaram, os dois cidadãos já tinham controlado o fogo.

Este episódio ocorreu às 19h13. No mesmo dia, perto da meia-noite, houve um novo alerta, a cerca de 70 metros do foco anterior. Um reacendimento? Não fossem os incêndios noturnos um padrão na Torre, povoação anexa à freguesia de Louriçal do Campo, talvez essa fosse a resposta. Mas, segundo Carlos Vaz de Deus, há demasiadas “coincidências trágicas”.

A Repetição

A aldeia de Louriçal do Campo quase ardeu em 2017. A 13 de agosto, uma coroa de fogo, que deflagrou às 21h38 na localidade de Cabeço das Pombas, passou pelo Casal da Torre, desceu à Torre e veio até ao Louriçal, devastou a Serra da Gardunha. A custo, a intervenção de centenas bombeiros salvou as povoações. “Era muito fumo, foi muito complicado. As pessoas a querem respirar. Andava tudo à nora. Pareciam as galinhas num galinheiro: tudo aos saltos”, recorda Henrique Alves, 54 anos.

Foram dias de “aflição”. Três bombeiros da corporação de Viseu ficaram feridos e alguns edifícios periféricos foram consumidos pelas chamas, entre eles o Colégio de São Fiel, imóvel histórico da Companhia de Jesus, que Egas Moniz frequentou. “Aquilo a arder foi um espetáculo. A gente a ver o edifício a arder, aquilo parecia oiro”, lembra.

“São Fiel ardeu porque tudo estava num miserável estado. Foram anos e anos e anos fomos avisando o Estado de que era preciso limpar, conter, que é preciso manter a faixa de segurança”, queixa-se Pedro Serra, presidente de junta de freguesia de Louriçal do Campo. O fogo passou por ali. “Já ardeu tudo. Portanto, volta-se à estaca zero.”

Antes do grande incêndio de 2017, houve outros 20 fogos - “ocorrências”, na terminologia dos Bombeiros e da Autoridade Nacional da Proteção Civil. A ameaça estava presente. “Vinham os bombeiros e lá abafavam o fogo. Até que chegou um dia em que o incêndio deu a volta, de 360 graus”, diz Henrique.

As chamas só foram controladas ao fim de três dias, a 16 de agosto, pelas 7 horas da manhã; ao todo, arderam 7.200 hectares de floresta, muitos dos quais de área protegida. Jorge Gomes, secretário de Estado da Administração Interna na época, afirmou que os incêndios noturnos não vinham de “mão bondosa”.

Entre 10 de julho e 23 de agosto deste ano, o cenário parece estar a repetir-se: em menos de dois meses, foram registados nove fogos na freguesia de Louriçal do Campo, segundo dados oficiais a que a Renascença teve acesso.

Dos nove, apenas um – o de dia 15 de agosto – ocorreu durante o dia, pelas 11 horas; dois despoletaram entre as 19 e as 21 horas. Já no passado dia 21 de agosto houve três focos de incêndios, quase em simultâneo, entre as 22 e as 23 horas, em sítios sem ligação. O último aconteceu a 23 de agosto, há menos de duas semanas. O alerta foi dado quando faltavam cerca de 15 minutos para a meia-noite.

“Exatamente nos mesmos sítios. A mesma área. Estamos a falar num espaço que tem se calhar 400 ou 500 metros afastados uns dos outros. Neste caso último estamos a falar de 50 ou 60 metros de afastamento. Da área em que começou a arder em 2017 o incêndio”, nota Pedro Serra.

Henrique Alves diz não estar assustado, já que “o fogo é o prato do dia” no interior. Mas sente que qualquer dia “há outra vez cinema”.

“Incêndios cirúrgicos”

São dez da manhã e a esplanada do café Pôr do Sol está repleta de pessoas sem máscara; ouve-se falar francês. Louriçal do Campo é uma aldeia “como outras, com pessoas pacíficas”, conta Joaquim Domingos, 57 anos uma aldeia que nos últimos anos, ao contrário de outras localidades, tem vindo a ganhar habitantes: pessoas que regressam de Lisboa ou casais que se mudam para lá à procura de qualidade de vida. “Há sempre aquela guerrilha entre um vizinho e outro, mas já se sabe como é.”

O antigo maquinista da CP, que se mudou para aldeia há três anos para tomar conta da mãe, anda a passear o cão. E como para qualquer morador da localidade, o tema dos incêndios é um dos que mais lhe tem passado pela cabeça, nos últimos dias. “A gente para crer tem que ver três vezes. Ainda não vi uma nem duas, nem faço a mínima ideia quem é, nem quais são as circunstâncias em que o fogo acontece”, diz.

Joaquim tem, contudo, uma certeza: “Não são os turistas que vêm aqui passar férias que provocam os incêndios. Também não é os cigarros que deitam os incêndios, a gente não vai a fumar para o meio da mata.”

De acordo com dados a que a Renascença teve acesso, em 2019, dos 458 incêndios no distrito de Castelo Branco, 155 tiveram origem “intencional” (ou seja, origem criminosa), 25 natural, 172 negligente e 106 desconhecida. No fatídico ano de 2017, dos 636 fogos, 213 tiveram origem intencional.

Para Pedro Serra, “é ponto assente” que os incendiários que têm andado a rondar Louriçal do Campo são locais, tendo em conta “os pontos de partida” dos incêndios; um desconhecido “chamaria logo à atenção”, assevera. “Enquanto o culpado não for detido, as pessoas andam sempre perturbadas e muitas vezes até se incrimina o inocente.”

O autarca não duvida que estamos a falar de “fogos postos em sítios cirúrgicos, a que os bombeiros não têm acesso”. Mais: “Não é por acaso que quando os fogos acontecem, acontecem sempre à noite e em dias de vento.” Este padrão preocupa-o, já que também foi assim em 2017 que tudo começou. “Não me lembro, nos últimos anos, de um incêndio que tenha deflagrado durante o dia. Apenas uma vez, um incêndio no tratamento das terras. E foi um acidente.”

Embora assuma que a Polícia Judiciária e a GNR estão a fazer “tudo o que podem”, Pedro Serra diz também que a investigação “demora muito tempo” e defende que é preciso colocar mais meios no terreno. A tudo isto, junta-se outro problema crónico do interior do país: o abandono do território.

“Há muito mais terrenos agrícolas por limpar, apesar da insistência, das multas. Geralmente, a GNR multa só quem consegue identificar. Porque os terrenos em que não se consegue identificar ninguém continuam abandonados e continuam cheios de matéria combustível”, afirma.

De volta ao passado

Quando a história se repete, raramente a narrativa é boa. Em 2019, houve um incêndio no fim de semana de agosto das festas da Nossa Senhora da Assunção, a padroeira da aldeia. Este ano, aconteceu o mesmo, na mesma data. “Há aqui um conjunto de coincidências - ou não? - que os focos de incêndio tenham acontecido na mesma data”, diz Pedro Serra.

José Neves, comandante dos bombeiros de Castelo Branco, tem o mesmo entendimento: “É uma questão que aconteceu no ano passado e tem acontecido sempre.” Em todo o distrito, não se consegue recordar de outra localidade tão “achacada” pelo mal dos fogos postos. Nem sítio mais perigoso.

Um dia destes, “o incêndio vai ser colocado de tal forma, as condições atmosféricas vão estar de tal forma, que as coisas vão correr muito mal”, diz. O combate aos fogos na Torre e no Louriçal do Campo é “extremamente difícil”. Nos três incêndios do passado dia 21 de agosto, situação em que José Neves esteve presente, foi preciso “saltar paredes”, levar uma mangueira com 500 metros para chegar às chamas, pois nem carros nem os autotanques lá conseguiam ir.

Na aldeia, apontam-se culpas, mas é tudo “diz que disse”, que “foi este e aqueloutro”, um jogo de tensões. Por isso, é preciso ter “muita calma para não se acusar quem não se deve e descobrir quem são os incendiários”, nota o presidente da junta.

Nas noites mais quentes, Carlos Vaz de Deus e os vizinhos costumam sentar-se num banco à conversa com os vizinhos, junto à Igreja da Torre. Há dias, viram passar um carro da GNR e comentaram: “Andam desconfiados. Toda a gente tem medo.”

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  • Lopo
    01 set, 2020 15:00
    Eu é Lisboa.
  • 01 set, 2020 14:12
    "Casal da Torre" não existe, quereriam referir-se ao Casal da Sera".

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