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"É um sério problema". Médicos Sem Fronteiras alertam para crise humanitária na Ucrânia

18 mar, 2022 - 18:30 • Henrique Cunha

Em entrevista à Renascença, a partir da cidade ucraniana de Lviv, Tomas Bendl, porta-voz dos Médicos sem Fronteiras, descreve uma situação muito delicada, dando como exemplo a situação vivida pela organização humanitária em Mariupol, onde se mantém uma equipa de voluntários.

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“É um sério problema”. Médicos Sem Fronteiras garantem que “há muitas pessoas, muitas crianças, muitos idosos” a aguardar por verdadeiros corredores humanitários para poderem abandonar zonas de guerra.

A organização humanitária confirma assim, a partir do terreno, as dificuldades de retirada da zona de conflito de idosos e pessoas com deficiência.

Em declarações à Renascença, o Observatório da Deficiência e Direitos Humanos, alertou para o risco de muitas pessoas estarem a ser deixadas para trás nesta guerra. E o Comité de Emergência de Desastres do Reino Unido veio também chamar a atenção para a possibilidade de “milhões de ucranianos idosos estarem em risco por serem incapazes de fugirem dos combates”.

Em entrevista à Renascença, a partir da cidade ucraniana de Lviv, Tomas Bendl, porta-voz dos Médicos sem Fronteiras, descreve uma situação muito delicada, dando como exemplo a situação vivida pela organização humanitária em Mariupol, onde se mantém uma equipa de voluntários.

“Nos últimos dias, nas últimas semanas, abandonar a cidade tem sido praticamente impossível para quem quer que seja”, revela.

O porta-voz dos Médicos sem Fronteiras diz que “no início da semana apenas um corredor humanitário foi aberto o que permitiu que algumas pessoas pudessem deixar Mariupol”, mas assegura que “está longe de ser o suficiente”.

Tomas revela também que a ajuda a Kiev está muito limitada, e que “estamos basicamente a fornecer medicamentos e outro material por comboio e, a partir daí a gestão é do Ministério da Saúde ucraniano que o distribui pelos hospitais”.

O Comité de Emergência de Desastres do Reino Unido veio alertar para a possibilidade de milhões de ucranianos idosos estarem em risco por serem incapazes de fugirem dos combates. No terreno (Lviv) sente-se essa realidade?

É um sério problema. Por exemplo, nós, nos Médicos Sem Fronteiras, temos uma equipa em Mariupol de onde, nos últimos dias, nas últimas semanas, abandonar a cidade tem sido praticamente impossível para quem quer que seja.

Tem havido negociações no sentido de serem abertos corredores humanitários para permitir a evacuação e a linhas de abastecimento de víveres para o interior da cidade e, infelizmente, nenhuma dessas questões foi resolvida até ao momento.

No início da semana apenas um corredor humanitário foi aberto o que permitiu que algumas pessoas pudessem deixar Mariupol, mas está longe de ser o suficiente.

Para além de Mariupol há outras cidades e outras regiões na Ucrânia que estão a sofrer com esta guerra.

Há muitas pessoas, muitas crianças, muitos idosos, portanto nós nos Médicos Sem Fronteiras julgamos ser imperativo garantir que todas estas pessoas têm saídas seguras do país para si mesmas e famílias, se for essa a sua vontade,

É uma questão de boa vontade das partes envolvidas?

Essa é uma questão não para mim, mas para os beligerantes nesta guerra.

Nós temos sido muito claros em reafirmar que saídas seguras, corredores humanitários, para os civis são uma necessidade imperativa, neste momento, no sentido de poderem ter acesso a locais mais seguros e conseguir cuidados humanitários.

Porque razão isso não está a acontecer - como é nossa vontade e das pessoas na Ucrânia - honestamente... não sabemos.

Não parece haver grande vontade de quem está envolvido neste conflito.

Fazemos votos de que possa mudar nos próximos dias, nas próximas semanas.

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Tem números de pessoas idosas e portadoras de deficiência que se encontram em cenário de necessidade extrema - seja na capital, Kiev, seja noutras cidades e regiões?

Não temos informações e números exactos. Já que referiu Kiev, a capital, estamos basicamente a fornecer medicamentos e outro material por comboio - fazemos chegar a Kiev e, a partir daí a gestão é do Ministério da Saúde ucraniano que o distribui pelos hospitais. Não temos acesso direto a pacientes, o que nos impede de ter uma noção de quantos idosos ou portadores de deficiência estão a necessitar de ajuda urgente.

Relativamente a crianças sem retaguarda familiar, coloca-se o mesmo problema que para os idosos?

Obviamente, esta guerra é muito problemática para as crianças, porque estão mais vulneráveis ao não ter acesso a alimentos, a água potável. As nossas equipas já testemunharam situações em Mariupol onde essa ausência já causou surtos de diarreia e estados de desidratação severa que pode levar à morte. Já foram reportados casos de crianças que morreram em consequência destas carências. Portanto, sim é um problema grave que tem de ser enfrentado.

Como já referi, uma das medidas que podia ajudar seria abrir caminho para ajudas humanitárias e de abastecimento de instrumentos médicos para estas cidades bem como a possibilidade de permitir que estas pessoas possam sair desses locais e encontrar tratamento em atmosferas bem mais seguras.

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