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Guerra na Ucrânia

O que o Instagram não conta, a Rússia não sente

11 mar, 2022 - 20:15 • Fábio Monteiro

A Meta, empresa-mãe do Facebook e Instagram, deu indicações aos seus moderadores para aceitar “discurso violento” nas redes sociais, desde que tivesse como alvo “soldados russos”. Em retaliação, a Rússia anunciou um processo judicial para declarar a empresa como uma “organização extremista”. “Se a tentação é censória, é natural que se comece a censurar aquilo que feliz ou infelizmente é mais eficaz”, diz Nuno Magalhães, presidente da delegação portuguesa da Internet Society (ISOC)

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A guerra na Ucrânia está a subir de tom – nas trincheiras digitais. Na semana passada, o Facebook e o Twitter foram bloqueados na Rússia, como retaliação às limitações impostas no acesso aos órgãos de comunicação ligados a Moscovo – RT e Sputnik. Já esta sexta-feira chegou a vez do Instagram ser banido.

Graças à sua “dimensão”, as redes sociais “são fenómenos de comunicação”. “Se a tentação é censória, é natural que se comece a censurar aquilo que feliz ou infelizmente é mais eficaz”, diz Nuno Magalhães, presidente da delegação portuguesa da Internet Society (ISOC), em declarações à Renascença.

Segundo o especialista, não é “surpreendente” esta tentativa de limitar o acesso a informação nas redes sociais. É um passo comum no guião de líderes autocráticos contestados. Desta feita, porém, é mais do que um caso de censura que está em causa: o Parlamento russo quer banir a Meta, empresa detentora do Facebook, Instagram e WhatsApp, de operar no país e classificá-la como uma “organização extremista”.

Porquê? De acordo com uma série de emails internos a que a agência “Reuters” teve acesso, a Meta deu indicações aos seus moderadores do Instagram e Facebook que poderiam "aceitar discurso violento que, de outra forma, seria removido”, desde que o mesmo tivesse como alvos “soldados russos” e no contexto da “invasão da Ucrânia pela Rússia”.

Esta notícia surge no seguimento de outra; no final de fevereiro, o jornal “The Intercept” já havia informado que o Facebook estava a permitir publicações que elogiassem grupos de extrema-direita na Ucrânia, como o conhecido batalhão Azov, desde que no contexto pró-Ucrânia.

Para a Rússia, esta linha orientadora está a ser lida uma política assumidamente pró-Ucrânia. As ações da Meta "não apenas formam uma ideia de que a atividade terrorista é permitida, mas visam incitar o ódio e a inimizade contra os cidadãos da Federação Russa”, alegou um responsável do gabinete da procuradoria-geral do país.

Mudança de paradigma

Fonte oficial da Meta já confirmou a notícia da Reuters. “Como resultado da invasão da Ucrânia pela Rússia decidimos aceitar, temporariamente, formas de expressão política que, normalmente, violariam as nossas regras, como discurso violento do género: ‘Morte aos invasores russos'", disse uma porta-voz da empresa. “Nós continuamos a não aceitar apelos credíveis de violência contra cidadãos russos”, acrescentou.

De acordo com o “New York Times”, estas linhas editoriais estão a ser aplicadas na Ucrânia, Rússia, Polónia, Lituânia, Estónia, Eslováquia, Hungria e Roménia. Ou seja, países europeus na área de influência de Rússia e que mais refugiados do conflito estão a acolher.

As indicações dadas aos moderadores pela Meta marcam uma mudança radical nas linhas orientadoras da empresa. O Facebook, pelo menos nos últimos sete anos, resistiu inúmeras vezes em assumir um papel regulatório dos conteúdos que amplifica – situação descrita ao detalhe na investigação do livro “Manipulados” (ed. Objetiva), das jornalistas do “New York Times” Sheera Frenkel e Cecília Kang, acabado de editar em Portugal.

Ainda em 2015, a propósito das publicações inflamadas e racistas de Donald Trump, Mark Zuckerberg defendia que o Facebook “não era um editor, nem os respetivos empregados não tomavam decisões editoriais. Era uma empresa tecnológica que se limitava a alojar ideias publicadas pelos seus utilizadores”, lê-se.

Apesar de pertencer à Meta, até ao momento o WhatsApp não foi bloqueado na Rússia. Trata-se de “um meio de comunicação que não é utilizado para fazer publicações públicas”, explicou um oficial russo à agência noticiosa russa

Porquê o Instagram?

O Instagram é uma plataforma de “inspiração e aspiração”, que, como o próprio nome indica, tenta captar o “instante”. E como funciona com base em imagens, é muito mais eficiente a comunicar do que um texto. “Tem muitas mensagens que se podem interpretar”, diz João Silva, especialista em redes sociais e managing partner da empresa Digital Connection.

Quando Zelensky assinou os papéis do pedido de adesão à União Europeia, foi no Instagram que partilhou o registo do momento.

Para João Silva, as plataformas “nunca são o problema”. A questão é como nos “relacionamos com elas”. “As redes sociais surgiram para unir as pessoas. Nesse sentido, podem ser vistas como um motor e plataforma extremamente importante de empoderamento para o cidadão comum que antes não tinha”, diz.

O bloquear das redes sociais é, por isso, um “paradoxo”. Até porque no final as maiores vítimas dessa medida vão ser os cidadãos russos. “Vai ser retirada essa fonte de informação, quando a maioria deles não têm nada a ver com a guerra”, avisa.

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