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Amnistia Internacional acusa Venezuela de crimes contra a Humanidade

10 fev, 2022 - 15:00 • João Malheiro

O diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal alerta para perseguição política, detenções arbitrárias, tortura e desaparecimentos forçados, por parte do regime de Nicolás Maduro. Pedro Neto acredita que Portugal tem um papel fundamental na concertação internacional, mas lamenta que os partidos foquem-se na instrumentalização política dos Direitos Humanos.

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Um novo relatório da Amnistia Internacional divulgado esta quinta-feira acusa a Venezuela de crimes contra a Humanidade de perseguição, devido à "política de repressão perpetrada pelo governo de Nicolás Maduro".

De acordo com a base de dados de detenções arbitrárias da organização não-governamental "Foro Penal", existiram 1.270 detenções arbitrárias na Venezuela entre janeiro de 2019 e junho de 2021.

"Identificamos episódios de tortura, de silêncio imposto, de desaparecimentos forçados e de detenções arbitrárias, sem uma acusação definida ou com a acusação vaga de terrorismo", conta Pedro Neto, diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal, à Renascença.

A perseguição política também é feita através do controlo dos orgãos de comunicação social, "denegrindo e dizendo mal das pessoas".

"A estratégia é, por um lado, reduzir o mais possível a comunicação social independente e controlar os restantes o mais possível", indica Pedro Neto.

Pandemia agravou condições de vida

O povo venezuelano já vivia numa situação difícil, mas a Amnistia Internacional aponta que "tudo ficou pior" com a chegada da pandemia da Covid-19.

"As pessoas estão a passar muito mal. A pandemia causou o que veio causar em todo o mundo. Imagine-se, a acrescentar a tudo isso, ainda houvesse instabilidade política, violência nas ruas, supermercados sem produtos nas prateleiras e farmácias sem medicamentos", explica, Pedro Neto.

"Ao medo da doença, acrescenta-se o medo de se poder manifestar", refere, ainda, à Renascença.

O diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal afirma mesmo que muitas dessas manifestações nem são políticias, "mas sim humanitárias". "As pessoas vão para a rua pedir pão", diz.

"As manifestações são muito reprimidas pelas autoridades policiais, pelos militares e por guerrilhas. Intervêm com muita violência. Carregam sobre as pessoas e prendem-nas", descreve, Pedro Neto.

"Portugal tem um papel fundamental"

A Amnistia Internacional Portugal apela a que as autoridades internacionais "apertem o cerco" ao regime de Nicolás Maduro, mas o diretor executivo da organização considera que "não têm feito tudo o que está ao seu alcance e têm abandonado a população da Venezuela".

"Falta um trabalho concertado para responsabilizar os líderes políticos da Venezuela. Tem de haver consequências económicas, não para o povo, como por vezes acontece, mas para os responsáveis destes crimes", instrui Pedro Neto, ouvido pela Renascença.

O representante da Amnistia Internacional acredita que Portugal tem, neste contexto, "um papel fundamental e pode intervir e ser influente junto das outras nações", mas lamenta que haja uma "instrumentalização dos Direitos Humanos" por parte dos partidos políticos.

"Por vezes, os partidos interessam-se pelos países consoante se associam o regime político à esquerda ou à direita. O regime venezuelano é associado à esquerda, apesar de esquerda e direita já não ter nada, então os partidos de direita têm mais apetência para falar sobre o país. Se for Israel, já é ao contrário.", exemplifica.

"É errado. Os partidos têm de se focar na intervenção isenta de Portugal, porque Direitos Humanos são de esquerda e de direita", defende, ainda, Pedro Neto.

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