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Covid-19

Vacina divide portugueses prioritários no Reino Unido

08 dez, 2020 - 18:38 • António Fernandes (Correspondente em Londres)

Portugueses que trabalham em hospitais e lares estão entre os primeiros a ter direito a tomar a vacina, mas nem todos querem ser vacinados.

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Eram 6 horas e 31 minutos quando Margaret Keenan recebeu a vacina da Pfizer no Hospital Universitário de Cardiff, tornando-se na primeira pessoa a receber a vacina para a Covid-19 no Reino Unido. Depois de ser vacinada, Margaret disse que era um privilégio receber a primeira vacina e considerou-a um “presente de aniversário antecipado”. Na próxima semana faz 91 anos e deixa um conselho aos britânicos que estão reticentes em tomar a vacina: “se eu posso levar a vacina aos 90 anos, então vocês também podem.”

Para já, o Reino Unido, que é o primeiro país ocidental a aprovar uma vacina para a Covid-19 depois de cumprir todos os testes exigidos, tem 800 mil doses disponíveis. Uma vez que são necessárias duas doses por pessoa para ter imunidade, tomadas com 21 dias de intervalo, isso permite vacinar 400 mil pessoas. O ministro da Saúde, Matt Hancock, disse hoje que o Reino Unido espera receber “milhões” de vacinas até ao final do ano, sem especificar o número. No total, o país comprou 40 milhões de doses à Pfizer e mais 315 milhões de doses a outros laboratórios para 50 milhões de pessoas com mais de 16 anos.

Inicialmente a vacina começará por ser dada a nove grupos prioritários, que compõem 25 por cento da população britânica. Dentro daquilo que o Governo britânico estabeleceu como grupos prioritários estão antes de mais as pessoas com mais de 80 anos, com prioridade para os lares - neste caso tanto para os idosos como para os cuidadores - e para os profissionais de saúde do NHS, o serviço nacional de saúde britânico.

Apesar na prioridade número um serem os lares, inicialmente, e por uma questão de logística, foi pelos hospitais que se começou - são 50 os hospitais que já têm vacinas disponíveis. A ideia é por isso vacinar profissionais de saúde e idosos que estejam no hospital por outros motivos. Haverá também pessoas com mais de 80 anos que serão contactadas para se deslocarem ao hospital para serem vacinadas.

Em relação aos lares, ainda não se sabe como ou quando serão despachadas as vacinas dada a condição a que têm de ser mantidas, a uma temperatura de 70 graus negativos. O ministro da saúde disse hoje esperar que a vacina chegue aos lares até ao Natal.

Reino Unido. Mulher de 90 anos foi a primeira pessoa no mundo a receber vacina da Pfizer/BioNTech
Reino Unido. Mulher de 90 anos foi a primeira pessoa no mundo a receber vacina da Pfizer/BioNTech

Os portugueses na linha da frente

Muitos portugueses estão entre os grupos prioritários, precisamente por trabalharem em lares ou hospitais, e estão por isso entre os primeiros no Reino Unido a terem direito a receber a vacina. Carla Tomásio trabalha num lar e é uma dessas portugueses, tendo recebido um comunicado do Governo a confirmar que tem prioridade, ainda que o staff se tenha deslocar a um dos 50 hospitais que tem a vacina.

A prioridade não é mais do que isso, porque ninguém é obrigado a tomar a vacina. Carla dá conta de alguma resistência no lar onde trabalha onde “das 42 pessoas que trabalham no lar, 6 já me disseram que não querem ser vacinadas”. Seis, mais uma - isto porque Carla também não quer ser vacinada porque acredita “que a vacina ainda não foi testada o suficiente” mas também porque não compreende a estratégia do Governo inglês em colocar os lares e o staff como prioridade “quando no início da pandemia ninguém queria saber se as pessoas regressavam ao lar sem serem testadas, acho que esse foi o problema dos lares em Inglaterra - os casos positivos que vieram dos hospitais”.

Quando Carla disse à directora do lar que não pretendia levar a vacina, a directora não se manifestou mas, numa outra conversa, disse que os residentes terão de levar a vacina obrigatoriamente e disse a Carla que como trabalha com um "grupo de alto risco também vou ter de levar”. Para a cuidadora, isso é como dizer que “se quero trabalhar tenho de levar a vacina, e acho isso injusto”. A verdade é que depois dessa conversa, Carla está a repensar e começa a “ponderar se não terei de levar a vacina”.

A última sondagem disponível indica que cerca de um terço das pessoas não quer ser vacinada. Esse será outro desafio para o Governo britânico - convencer a população a vacinar-se. Esta semana, no jornal Mail on Sunday, falava-se da possibilidade de se confirmar oficialmente quando a Rainha Isabel II, 94 anos, for vacinada para inspirar confiança na população. Stephen Powis, director do NHS England, defendeu que não há razão para ter receio, dizendo que “esta vacina foi testada milhares de vezes e o regulador deu luz verde à vacina depois de a ter analisado com cuidado”.

Elsa de Lima é outra portuguesa que trabalha num lar em Inglaterra. Nos últimos dias, a gerente tem perguntou quem queria ser vacinado, apesar de ainda “não se saber muito bem como é que as coisas vão ser articuladas”. A Elsa foi dito que, em princípio, a vacinação vai decorrer na próxima semana, mas “só quem estiver interessado em se vacinar”. Elsa ainda não sabe se terá de ir ao centro de saúde, mas diz que no caso dos cerca de 40 residentes é “impossível” uma deslocação para receber a vacina porque “muitos estão acamados”.

Os cuidados, o depois

Mesmo depois da vacinação, todos os cuidados de protecção continuarão a ser postos em prática, até porque nem todos querem ser vacinados. No lar, diz, quase metade dos cuidadores não querem ser vacinados, por terem “muito medo por ser uma coisa recente”. Esse não é o caso de Elsa, que será vacinada assim que possível, para poder voltar ao normal e poder “voltar a Portugal”, que não visita há quase um ano por causa da pandemia e da quarentena que teria de fazer no regresso ao Reino Unido, impedindo-a de trabalhar. Para além disso, defende a vacinação em geral e não acredita que esta que seja diferente "de todas as outras vacinas que tomamos desde que nascemos”. No lar, no entretanto, para além dos cuidadores, podem agora entrar visitas onde se encontram com os residentes através de uma “casa de vidro com sistema de som, como no caso das prisões, e as famílias já se podem ver e falar”.

Em Londres, Anabela de Barros trabalha num hospital como enfermeira de recobro, e foi-lhe comunicado que ainda nesta ou na próxima semana chegarão as vacinas. Depois dos escalões prioritários, serão os profissionais de saúde que tenham outros problemas de saúde a serem vacinados, sendo que no hospital nenhum dos trabalhadores será “obrigado a tomar a vacina”.

Durante a pandemia o trabalho de Anabela teve de mudar de função para ajudar. Normalmente trabalha no pós-operatório, mas tendo em conta que tirando as urgências todas as cirurgias foram canceladas, Anabela e os colegas foram deslocados para os cuidados intensivos. Não estava preparada, diz, para uma experiência “terrível e muito traumatizante”. Ao longo de 22 turnos de 13 horas viu pessoas a morrer, segurou a mão de outras que “estavam a morrer sozinhas, sem a família, acho que é uma das coisas mais tristes”. Pelo meio, ajudou também membros da comunidade portuguesa, que tinham familiares nos cuidados intensivos e a quem o número de telefone de Anabela foi dado para facilitar a comunicação, para passar uma mensagem.

Nessa altura, um amigo ligou-lhe “a perguntar se isto era real”. Depois de terem falado, e ter ficado a saber o que era o dia-a-dia de Anabela, o amigo agradeceu e reconheceu que “não se estava a proteger”. Uma situação que Anabela explica pela desinformação online, que baralha as pessoas quando a realidade “não lhes toca”.

Apesar de querer receber a vacina, Anabela defende que ninguém deve ser obrigado “a tomar algo que não compreende, de que tem medo” e por isso acha “compreensível” que alguns não queiram ser vacinados mas diz que acredita na vacinação também neste caso. A rapidez, diz, é fruto de um “esforço global” para conseguir uma vacina.

Para além dos hospitais e dos lares, também os centros de saúde serão pontos de vacinação. Para acelerar o processo, por todo o país mais centros de vacinação vão sendo criados. É num desses centros que vai trabalhar Susana de Abreu Raimundo, numa igreja que foi cedida para o efeito. Até ao início da pandemia, Susana era responsável de uma loja. Agora faz parte de uma equipa administrativa que vai dar apoio ao pessoal médico que, a partir de segunda-feira dia 14 de Dezembro, vai começar a vacinar.

Por lidar com o público nesta função, a equipa onde Susana trabalha tem direito a tomar a vacina, apesar de não ser obrigatório: “a opção é nossa”, diz Susana, sendo que a equipa pode escolher “ser vacinada agora usando essa prioridade, ou então tomamos só quando chegar a nossa vez nos grupos definidos, que vão ser vacinados por fases”. Susana, de resto, já estaria num grupo prioritário, na fase 6, por ter alguns problemas de saúde. Apesar disso, não vai exercer a sua prioridade porque pensa que “a vacina foi aprovada muito rápido e acho que não há informação suficiente sobre por quanto tempo é que a vacina funciona por exemplo”. Uma decisão que não é definitiva, tendo dito no trabalho que “não queria tomar já a vacina, vou ver como corre e esperar pela minha vez e depois tomar a minha decisão”. Para lá dos grupos prioritários, e tendo em conta a informação que lhe foi facultada nesta preparação, que qualifica como “excelente”, pensa que “só lá para o verão é que vamos chegar ao último grupo” as pessoas saudáveis entre os 16 e os 50 anos, isto caso “haja mais vacinas disponíveis”.

Sendo um marco histórico nesta pandemia, hoje é só o começo e, como relembrou Stephen Powis, a “vacinação será uma maratona e não um sprint”. Ainda assim, um porta voz do Governo disse que a maioria das pessoas vulneráveis será vacinada em Janeiro e Fevereiro, dependendo também da própria rapidez da produção das vacinas - e da aprovação de mais vacinas por parte do regulador.

A partir daí, e caso a vacina for eficaz em parar a transmissão também, o governo pode levantar as restrições a partir da próxima primavera, disse hoje Matt Hancock ao programa Today, da BBC Radio 4. Sem adiantar datas, Hancock reforçou que a partir da primavera “as coisas vão começar a voltar ao normal”. Uma esperança partilhada pelo primeiro-ministro Boris Johnson que prometeu que as festas de casamento regressam no próximo verão. Uma normalidade que será possível porque o Governo acredita que depois de vacinados os considerados mais vulneráveis o número de mortes pode baixar quase em 99%.

Sem retirar importância ao dia de hoje, há outro que pode fazer toda a diferença: a aprovação da vacina da Universidade de Oxford, produzida em conjunto com a AstraZeneca, e que está a ser avaliada pelos reguladores neste momento. Para além de ser a vacina que o Governo encomendou em maiores quantidades, há já milhões de doses prontas a serem distribuídas assim que a vacina seja aprovada, o que pode acelerar o processo de vacinação durante o Inverno.

Até lá, a vacina dada hoje a Margaret Keenan representa o início do fim da pandemia e para May Parsons, a enfermeira que administrou a vacina, já há “luz ao fundo do túnel” depois de meses muito difíceis nos hospitais.

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  • João Oliveira
    08 dez, 2020 Edimburgo 22:15
    'Se quero trabalhar terei que tomar a vacina' - Acho que a entrevistada nao percebeu que trabalha com pessoas frageis, que precisam de ser protegidas, e que ela podera ser um transmissor do virus. Alguns empregos simplesmente nao permite-nos ser egoistas, mas também pensar nos outros

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