Tempo
|

Hora da Verdade

Arménio Carlos: PCP “podia” ter discutido resultados eleitorais. "Não podemos ficar satisfeitos com aquilo que se tem passado"

17 nov, 2022 - 07:03 • Susana Madureira Martins (Renascença) , Marta Moitinho Oliveira (Público)

O antigo secretário-geral da CGTP considera que está na hora de unir e não de criar mais sindicatos. Em entrevista para o programa Hora da Verdade da Renascença e do jornal Público, o agora militante de base do PCP considera que o partido podia ter discutido na Conferência Nacional as causas dos últimos resultados eleitorais. Arménio Carlos diz que esses resultados também tiveram causas internas.

A+ / A-
Arménio Carlos desafia PCP a "corrigir" posição sobre Ucrânia. Partido está a ser "queimado em lume brando"
Veja aqui a entrevista a Arménio Carlos na íntegra

"Não sou desalinhado". É com esta frase que Arménio Carlos rejeita que esteja em rutura com o PCP, do qual é agora militante de base "por opção". O antigo dirigente sindical considera que a conferência nacional do partido no fim de semana "podia ter feito" a avaliação dos resultados eleitorais dos últimos anos. "Não podemos ficar satisfeitos com aquilo que se tem passado" nas urnas, conclui

Disse em entrevista ao Observador que ficou surpreendido com a escolha de Paulo Raimundo para secretário-geral comunista. Já recuperou da surpresa?

Acho que a surpresa foi geral. De qualquer forma, a Conferência Nacional não só apoiou como inclusive aprovou essa indicação. Desta conferência, aquilo que retiro como mais importante, em primeiro lugar, foi a mensagem clara e objectiva do novo secretário-geral e, por outro lado, a mobilização significativa do partido para os desafios que se avizinham nos próximos tempos.

É dos poucos militantes do PCP que publicamente fez críticas directas a este processo de escolha. Isso faz de si um desalinhado, um crítico?

Não critiquei. O que eu manifestei foi a surpresa, tal como muitas outras pessoas. Não sou desalinhado. Agora nunca deixei foi de manifestar a minha opinião no quadro da lealdade que, enquanto militante, devo ter em relação ao PCP.

Esta decisão do partido, a escolha do partido, foi uma coisa feita na bolha da cúpula do Partido Comunista ou acha que foi algo que teve a discussão devida?

O PCP sempre teve uma forma de funcionamento diferente dos restantes partidos. Até aqui não se tem dado mal. Se me perguntar se este processo podia ter tido uma maior auscultação, com uma maior participação dos militantes, sim podia ter, mas não aconteceu. Também não vejo nisso um grande problema, neste momento.

Pensa distanciar-se do PCP, de alguma forma?

Não tenho razão nenhuma para o fazer. Continuo a dizer que sou militante de base por opção. Portanto, fui eu que decidi que não devia integrar o novo comité central e fi-lo com muita antecedência, quando disse, também, enquanto era secretário-geral da CGTP, que quando saísse da CGTP voltaria ao meu local de trabalho e que não iria assumir nenhumas responsabilidades políticas acrescidas.

Isso não implica que eu, como militante de base, não tenha e não deva ter a obrigação de continuar a manifestar as minhas opiniões. Do ponto vista global, estou no essencial de acordo com as orientações que têm sido seguidas pelo partido, nomeadamente agora as orientações para uma intervenção mais ativa e mais quantitativa e qualitativa nos próximos tempos.

Fui eu que decidi que não devia integrar o novo comité central e fi-lo com muita antecedência
Vem aí um ciclo eleitoral bastante intenso. Há uma liderança da CGTP que acabará daqui a nada. Que papel acha que terá?

Creio que são duas situações distintas. Uma coisa é o PCP, outra coisa é a CGTP. E em relação ao PCP, há dois grandes desafios neste momento. Em primeiro lugar é responder aos problemas com que os portugueses se confrontam, com esta redução significativa dos rendimentos. Neste momento o Governo está a meter a mão no bolso dos portugueses e isto implica que haja uma resposta, uma resposta de todos, sem excepção.

Porque aqueles que estão a ser penalizados com esta redução de rendimentos não são apenas aqueles que votaram na CDU. São aqueles que votaram no PS e noutros partidos e, portanto, neste caso em concreto, isto justifica uma maior participação cívica. A segunda parte é, a partir daqui, criar condições para melhorar os resultados eleitorais do PCP e da CDU. Agora é por demais evidente, uma coisa que é lapidar. Portanto, é preciso melhorar aquilo que é o apoio social para que depois este se transforme num aumento da representatividade eleitoral.

Arménio Carlos gostava de protagonizar uma candidatura para uma qualquer eleição ou voltar aos tempos da CGTP? Ou isso está completamente fora de causa?

Fora de causa.

Acha que é possível uma nova ligação do PCP à sociedade? É uma questão de sobrevivência da parte do próprio partido…

Acho que não é uma questão de sobrevivência. Acima de tudo, é uma questão de necessidade dos portugueses.

O partido está condenado a crescer, depois dos maus resultados que teve?

Creio que sim. Quando se apresentam propostas, quando se tem uma relação de grande proximidade e também de ligação aos trabalhadores e às populações, abordando os seus problemas, é natural que os mesmos que não deram o voto à CDU nos últimos tempos possam vir a alterar o seu sentido de voto. Na política há ciclos. Há momentos em que se sobe. Outros em que se desce.

Pensa que Paulo Raimundo beneficiará de um efeito estatístico?

Creio que esse não é o desafio do novo secretário-geral do PCP. Esse é um desafio de todo o PCP. Não podemos ficar satisfeitos com aquilo que se tem passado em termos de resultados eleitorais. Temos que fazer uma avaliação porque há factores externos que contribuíram para que isso acontecesse e também questões internas que acabaram por conduzir a este resultado.

Temos que fazer um apelo muito forte aos portugueses, independentemente das suas opções partidárias, para que, num quadro em que a sua vida se está a deteriorar a um ritmo crescente, que também é altura de afastarem as divergências que eventualmente possam ter e juntar forças e criar condições para a unidade na acção e para se poder exigir outras políticas.

O que será um bom resultado na greve de 18 de novembro da Frente Comum?

É os trabalhadores da Administração Pública aderirem de uma forma significativa a esta luta.

Espera então que haja uma grande adesão? Não há outra hipótese na sua cabeça?

Acho que deve haver uma grande adesão. Por uma razão muito simples: é que o acordo que o Governo assinou com outras forças sindicais é um acordo que, a priori, promete logo aos trabalhadores da Administração Pública uma redução do seu poder de compra.

A Conferência Nacional não discutiu os porquês dos resultados eleitorais dos últimos anos. Devia ter feito?

Na minha opinião podia ter feito.

E não o fez. E aí o partido não tem uma base de discussão para ter outro tipo de estratégia para enfrentar eleições…

Creio que o facto de não o ter feito de uma forma aprofundada teve como pressuposto a ideia de que essa reflexão, de alguma forma, foi sendo construída ao longo dos últimos meses.

Costa invoca sustentabilidade da Segurança Social 'porque estava enganado, ou porque quis enganar'
A CGTP tem respondido aos desafios e à capacidade de organização que agora é pedida pelo PCP?

A força da CGTP está nos locais de trabalho. Não é por acaso que nos últimos tempos tem aumentado o número de pré-avisos de greve.

Como podemos acreditar no facto de o PCP ou até a CGTP poderem ter alguma conquista na legislação laboral, quando, durante o tempo em que o PCP era parceiro na “geringonça”, não conseguiu vencer batalhas que considera importantes nesta área?

Várias vezes dissemos que não havia resposta para os problemas estruturais do país enquanto não se valorizasse o trabalho. Uma forma de valorizar o trabalho é mexer na legislação do trabalho, o que implica mexer na contratação colectiva. Mas como é que se negoceia quando impedem os sindicatos de entrar nas estruturas locais de trabalho? O Governo quer ou não quer resolver em primeiro lugar o problema da liberdade sindical?

O sindicalismo não está a perder para os movimentos inorgânicos e para outras estruturas?

Já tivemos algumas experiências de movimentos inorgânicos que se saldaram naquilo que nós tivemos oportunidade de verificar. Não precisamos de mais divisão, não precisamos de mais sindicatos.

Os aumentos extraordinários das pensões dos últimos anos comprometeram a sustentabilidade na Segurança Social?

Não. A sustentabilidade financeira da Segurança Social acabou por ser reforçada nos últimos tempos. Aliás, são números do próprio Governo.

Porque acha que o primeiro-ministro a invoca?

Ou porque estava enganado, ou porque quis enganar.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+