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Hora da Verdade

​Na escolha do líder do PCP houve “várias opiniões”, mas “não há uma discordância”

10 nov, 2022 - 07:01 • Susana Madureira Martins (Renascença) , Maria Lopes (Público)

A origem, o percurso de vida, as capacidades políticas, a experiência e as qualidades humanas. Foram estes os critérios do Comité Central para a escolha de Paulo Raimundo como futuro líder do partido. João Oliveira, um dos nomes que insistentemente vinha sendo apontado para suceder a Jerónimo de Sousa, fala de uma "solução certa" e admite que camaradas seus tenham sido apanhados de surpresa. Não é o caso deste dirigente, membro da comissão política do PCP, que já tinha identificado em Raimundo os tais critérios.

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Em entrevista ao programa Hora da Verdade, da Renascença e do jornal Público, João Oliveira recusa que o processo de escolha não tenha sido democrático ou praticado por um pequeno clube de militantes. É assim há 100 anos e "é uma experiência muito mais avançada de participação num processo democrático". A decisão não foi unânime, admite o dirigente comunista, mas a "natureza" do partido não é a das purgas contra militantes descontentes.

O PCP descreve Paulo Raimundo como um operário, o que há nisso de perfil ideal para ser o secretário-geral do PCP?

A discussão que fizemos em função da substituição do Jerónimo que o próprio colocou envolveu a consideração de um conjunto de elementos que apontaram para a solução do Paulo Raimundo por diversas características e critérios: a sua origem, o percurso de vida que tem, as capacidades políticas, a experiência que foi acumulando ao longo dos anos em áreas muito diversas e em responsabilidades muito diferentes, e as qualidades humanas que tem.

Pareceu-nos que essa era, de facto, a solução correta e adequada. Há um elemento muito relevante nesta questão: a unidade e coesão com que fomos capazes de fazer esta discussão e de chegar a esta solução. O facto de praticamente toda a gente ter sido apanhada de surpresa é revelador disso.

O João Oliveira também foi?

Não. Era uma das pessoas que eu tinha identificado como correspondendo a esses critérios. Tínhamos mais quadros no partido com condições de assumir essas responsabilidades. A unidade com que chegámos esta solução é um elemento valiosíssimo porque se houvesse alguma discordância, alguma objeção, quer em relação à forma como a discussão foi feita tinha havido algum burburinho público ou fuga de informação e não houve. Conseguimos fazer uma discussão serena e reservada durante muito tempo.

Jerónimo disse que não houve unanimidade. Todo esse secretismo do processo provocou algum desconforto em pessoas do partido.

Não há propriamente uma discordância. O facto de haver outras opiniões relativamente a outras soluções não significa uma discordância. A surpresa é no sentido de alguém não se ter lembrado dessa hipótese. Há de facto uma concordância geral com esta solução. O Paulo Raimundo será eleito nas mesmas condições em que foram todos os outros secretários-gerais do PCP: numa reunião do Comité Central. Com uma diferença de não coincidir com um congresso - o que também não é inédito. A solução contribui para a unidade e para a coesão do partido e para que possamos também cumprir os objetivos que temos, com a realização da conferência nacional, de reforço do partido, da sua capacidade de intervenção e de criação de condições para o alargamento da sua influência política e social.

João Oliveira questiona a duração do governo. Esta política é "insustentável e injustificável"
Imagem: Maria Costa Lopes/RR; Foto: Público
Como é que responde às críticas de que a escolha é feita de modo pouco democrático, num pequeno clube que escolhe uma pessoa?

Nuns casos há um desconhecimento, uma incompreensão relativamente ao funcionamento do PCP e ao contexto em que estas decisões são tomadas. Noutros casos é mesmo só que o objetivo de chegar a essa conclusão e, portanto, aproveita-se qualquer pretexto. Há 101 anos que o PCP elege os seus secretários gerais no Comité Central (CC). E, portanto, é o CC eleito pelo Congresso (cujos delegados são, por sua vez, eleitos pelos militantes) que estatutariamente tem essa competência. Toma essa decisão fazendo uma discussão do mais aberto que pode haver: cada membro da direção do partido tem um espaço de contribuição para a solução. Eu percebo que tudo o que fuja de guerras fratricidas, de eleitores fantasma a darem 5% dos votos a um candidato, em que toda a gente diz mal do parceiro do lado... Tudo o que não seja este tipo de encenação e de prática é batizado como antidemocrático. Eu diria que é exatamente o contrário: é uma experiência muito mais avançada de participação num processo democrático.

Essas lutas fratricidas não irão acontecer no PCP? A natureza não é essa, é o que está a dizer?

O quadro em que nós fazemos a discussão é aquele em que procuramos, por um lado, assegurar as soluções que melhor correspondam às necessidades que o partido tem e, simultaneamente, assegurar que as soluções são concretizadas num quadro de unidade. Eu faço só esta pergunta: num contexto em que haja uma lista de 10 a concorrer com outra lista de 10, haverá sempre uma circunstância em que só os 10 de uma lista que prestam? Não era possível encontrar uma solução em que se conseguisse compor uma direção que aproveitasse, de facto, os melhores quadros? É dessa forma que fazemos a nossa discussão na direcção.

E como é que o partido responde aos camaradas que não permitiram a unanimidade?

O partido não precisa responder porque eles são o partido que constrói esta solução. Mesmo na circunstância em que alguém diz: ‘Nunca trabalhei com fulano, não consigo dar uma opinião dele, das condições em que trabalha, e só consigo dar dele uma opinião de fora, que não é uma opinião consistente.’

É tentar assimilar toda a gente, porque o PCP também não se pode dar ao luxo de fazer qualquer purga…

Nem isso faz parte da nossa natureza, da nossa intervenção, dos deveres e dos direitos dos militantes. Dizem que sobrepomos o coletivo ao individual: é um completo absurdo. O nosso trabalho coletivo resulta do contributo individual de cada um dos militantes, considerando as suas responsabilidades, as suas obrigações, os seus direitos e o seu espaço de participação e a liberdade de expressar a sua opinião em todas as circunstâncias no partido. Uma discussão da importância desta que acabámos de fazer em relação à substituição do Jerónimo… eu tenho isto para mim com uma lição de vida. E estou muito satisfeito por termos encontrado a solução certa.

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