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Hora da Verdade

Líder do CDS acusa Rio de “diletantismo apolítico” e quer Portas na campanha

13 jan, 2022 - 07:00 • Susana Madureira Martins (Renascença) , Helena Pereira (Público)

Francisco Rodrigues dos Santos insurge-se contra atitude do PSD: "Rui Rio nuns dias está mais para a esquerda, noutros acorda mais à direita".

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Líder do CDS acusa Rio de “diletantismo apolítico” e quer Portas na campanha
Vídeo: Joana Gonçalves/RR, Foto: Daniel Rocha/Público

Em entrevista ao Hora da Verdade, Francisco Rodrigues dos Santos, insiste que só o voto no CDS impede Rui Rio de deixar a esquerda governar, e acusa o Chega de “instabilidade e de irrazoabilidade” e de copiar propostas dos centristas.

A campanha eleitoral arranca daqui a menos de uma semana. Gostava que Paulo Portas aparecesse para uma das suas acções de campanha, em Aveiro, por exemplo, onde vai ter pelo menos duas iniciativas?

Teria muita honra que Paulo Portas aparecesse em campanha em qualquer círculo eleitoral para o qual tivesse disponibilidade para ajudar o partido. Como líder do CDS, tenho apelado à unidade e coesão de todas as gerações do CDS. Nunca defraudámos as expectativas de uma direita tradicional e clássica.

Então quem é que está a defraudar as expectativas? Um ex-líder como Paulo Portas?

Não, faz sentido que apareça. Gostava [que aparecesse], tal como os ex-presidentes do partido. Eu sou o único líder que aceita o legado da PàF e que se orgulha dele. Terei ao meu lado José Ribeiro e Castro, ex-líder do partido, e é uma enorme honra contar com ele. Manuel Monteiro já se mostrou disponível e ainda recentemente esteve na apresentação do nosso candidato pelo círculo de Braga. Temos de estar todos juntos porque temos um desafio muito importante pela frente e estou convencido de que vamos conseguir superá-lo.

Como parte para esta campanha numa altura em que todas as sondagens dão o CDS muito abaixo da IL?

Parto com a confiança de que o CDS vai renascer nas urnas como sempre fez ao longo da sua história quando vaticinaram o seu fim com sondagens – algumas delas encomendadas porque eu não dou credibilidade nenhuma aos estudos de opinião –, na certeza de que temos uma mensagem muito clara para apresentar aos portugueses, de que um partido como o CDS dá enormes garantias de não viabilizar regimes com a esquerda, nem blocos centrais, de ser antídoto também contra o liberalismo bloquista da IL, porque se tirarmos a economia, é em tudo igual à esquerda, e também um contrapeso em relação ao fanatismo populista do Chega. Os que procuram o CDS fora do CDS não o vão encontrar.

Representa a direita conservadora. Estarão os conservadores em Portugal a diminuir e será por isso que não aparecem nas sondagens?

Não. Realmente, o CDS é a casa da direita conservadora, mas tomara ao CDS ter os votos de todos os conservadores em Portugal. O CDS tem potencial para crescer com as suas bandeiras conservadoras.

Mas o CDS teve sempre dentro de si uma ala liberal. Não está com esse discurso a alienar os liberais que sempre existiram no CDS?

Pelo contrário, o conservadorismo anglo-saxónico é liberal na economia e conservador nos valores. A democracia cristã na Alemanha é conservadora nos valores e liberal na economia. Devemos ter uma ideia de liberdade para a economia, por isso é que defendemos um choque fiscal – a redução do IRC para 19% e 15% até ao final da legislatura, apoios à natalidade para famílias com mais de dois filhos, isenção de IRC para as empresas que reinvistam a totalidade do seu lucro, uma bonificação do IRC para as empresas que se fixem no interior, isenção de impostos para quem compra casa pela primeira vez, uma revisão total das cerca de quatro mil taxas que existem em Portugal que são um sufoco para a economia e renegociar o PRR para triplicar o valor das verbas para o sector privado.

A direita está muito pulverizada. Acha possível, como tem dito, aumentar o número de deputados?

O objectivo é que o CDS cresça como aconteceu nas autárquicas e nas regionais dos Açores. Falou da concorrência com outros partidos, mas nós somos muito diferentes da IL e do Chega. A IL copia grande parte das nossas propostas na economia. Quanto ao Chega, um partido democrata-cristão não pode subscrever muitas propostas do Chega. A concorrência é mais forte, como nunca houve, mas o CDS é um partido histórico, sempre esteve ao lado dos eleitores do centro-direita, e o CDS é o único voto útil que garante um governo de direita para Portugal. Temos historicamente condições para nos entendermos com o PSD e somos os únicos que podemos garantir que o PSD não vai por maus caminhos e que um voto no PSD não vai parar ao bolso de António Costa.

Se ficar abaixo do resultado de 2019, demite-se?

Não vou colocar esse cenário. Qualquer resposta que dê pode dar um sinal de fraqueza. Acredito que o partido tem condições de se superar. Mas saberei interpretar o resultado eleitoral com total desprendimento e liberdade.

António Costa já clarificou que, se perder as eleições, se demite.

Uma coisa que António Costa não clarificou é o que acontece se o PS não ganhar e a esquerda tiver maioria no Parlamento. Vamos ter Pedro Nuno Santos a governar o país e a fazer entendimentos com a extrema-esquerda? A ala bolchevique do PS vai tomar conta do país?

No debate com Rui Rio disse que a sua ambição é que os votos do PSD e do CDS sejam suficientes para formar uma maioria absoluta, uma PàF 2. Já sabe que ministérios gostaria de ter nesse caso?

Não estou preocupado com os lugares mas com o caderno de encargos que pode viabilizar uma solução de compromisso com o PSD. Só se tivermos esse acordo é que faz sentido avançar para uma solução de formação de governo.

Diria como o PAN que teria ministeriáveis para várias pastas?

Isso parece quase uma piada. Um partido animalista radical que quer destruir o mundo rural, tem uma agenda ditatorial e não respeita as liberdades dos outros dizer que quer ir para o governo é decretar já o fim da caça, da agricultura, das pescas, da produção animal, das tradições culturais do nosso país. É até bizarro que o líder da IL tenha vindo dizer que aceita ir para o governo com um dos partidos mais iliberais da nossa democracia, que é o PAN.

Se o PSD aceitar acordos com o PAN, o CDS não está disponível?

O CDS não irá para um governo onde esteja o PAN.

E se for uma solução só de incidência parlamentar?

Depende das matérias que estejam em incidência. Se o PAN decidir apoiar o nosso programa, é uma decisão do PAN.

Põe no mesmo patamar o PAN e o Chega?

Não farei parte de um governo onde esteja o Chega.

E aceita um acordo de incidência parlamentar com o PSD sabendo que o PSD pode ter um acordo semelhante com o Chega?

A pergunta tem de ser posta ao Chega. O Chega é que tem de decidir se viabiliza um governo onde esteja o PSD e o CDS. Se não o fizer, é responsável por António Costa continuar a governar. O Chega não respeita os valores mais elementares de um democrata-cristão, equaciona perseguição de etnias, a pena de morte, prisão perpétua, castração química. O Chega, em tudo aquilo em que não copia o CDS, tem propostas absurdas. Nós defendemos há quase 50 anos o reforço das nossas polícias e forças de segurança. Nessa matéria em que é que o Chega vem dar lições ao CDS?

Nos Açores, o CDS está no Governo graças ao Chega.

Se o Chega decidir vincar pilares que o CDS sempre defendeu... O Chega defende coisas que copiou do CDS. Se no apoio a um governo quiser apoiar exactamente o que foi copiar ao CDS, então tudo bem, como a bandeira da segurança, da defesa das Forças Armadas, da verificação dos apoios sociais para que não sejam subsídios à preguiça. Se o Chega decidir apoiar essas bandeiras numa solução parlamentar entre PSD e CDS, como aconteceu nos Açores (com o combate à corrupção e a verificação dos apoios sociais), pode fazê-lo.

Mas há um acordo escrito nos Açores.

O acordo caberá a Rui Rio fazê-lo. Eu não colocarei a minha assinatura em nenhum acordo escrito com o Chega no Parlamento. O Chega não dá estabilidade nenhuma, o voto no Chega é um voto que não dá hipótese de haver uma solução de direita para governar Portugal porque é um partido instável, imprevisível, incerto e susceptível aos estados de alma do líder. É o que está a acontecer nos Açores. Não contarão com a minha assinatura para replicar cá esse modelo. Pela instabilidade que gera, o Chega torna impossível a formação de consensos e é o seguro de vida para que o PS continue a governar. Não convém dispersar votos em partidos que não têm capacidade de formar compromissos ou cuja irascibilidade ou irrazoabilidade não permita acordos.

Se o PS ganhar com maioria relativa e o futuro líder socialista quiser negociar alguns pontos de incidência parlamentar com o CDS, isso será possível?

Impossível. Um voto no CDS é contra o PS e a favor da libertação do país do PS.

O Presidente da República já fez saber que, a bem da estabilidade, quer uma solução que garanta pelo menos a viabilização de dois orçamentos. Qual será a posição do CDS?

Eu garanto mais do que isso. Só faz sentido fazer um acordo se for no quadro de uma legislatura.

Ficaria surpreendido se, ganhando António Costa com maioria relativa, Rui Rio viabilizasse esse governo?

Claro que acredito que isso é possível. No debate que tive com Rui Rio, o próprio não desmentiu a possibilidade de se entender com António Costa.

E se esse entendimento for a vontade do Presidente?

Eu não terei nada que ver com isso.

Como classifica essa atitude do PSD que numa campanha para as legislativas admite tanto entendimentos à esquerda como com o CDS?

É um diletantismo apolítico que fere a alternativa política e a mudança urgente de que o país precisa. Mas não é uma situação fatalista porque existe o CDS. É para impedir que o PSD vá por maus caminhos que é preciso votar CDS, para que um voto no PSD não seja um voto em António Costa.

Durante os debates não quis clarificar a posição do CDS sobre o salário mínimo nacional, remetendo a decisão para a concertação social. Na Assembleia da República, votou contra as propostas da esquerda para o aumentar.

A posição de princípio é que as questões do SMN sejam discutidas à mesa da concertação social. O aumento do SMN é um custo para as empresas e pode ter um efeito perverso daquele que se pretende. Se as empresas não conseguirem pagar, podem ter de despedir.

A sua posição será sempre a das entidades patronais?

Não, é a do consenso entre trabalhadores e entidades empregadoras.

É a favor de aumentos na função pública?

Neste momento, a prioridade é aliviar a economia do peso do Estado, fazer o choque fiscal. Havendo crescimento económico, podemos mais tarde vir a estudar essa possibilidade. Já lhe disse as nossas propostas. Acrescento ainda a privatização da TAP.

Rui Rio já veio dizer que a privatização da TAP neste momento está fora de causa porque seria perder neste momento uns dois mil milhões de euros.

Rui Rio nuns dias está mais para a esquerda, noutros acorda mais à direita. No debate comigo, ele concordou que se devia privatizar a TAP porque não cumpria o serviço público, não servia o norte do país, os contribuintes estavam a ser massacrados, era um sorvedouro de dinheiros públicos. Usou a minha argumentação. Agora, afinal, já diz que não.

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