17 jul, 2024 - 18:00 • Alexandre Abrantes Neves
É “positivo” que haja cada vez mais jovens a quererem fazer missões de voluntariado, mas é preciso garantir que “há compromisso e se pensa de forma cuidadosa” sempre que se entra numa destas experiências.
O conselho é deixado no podcast Geração Z da Renascença e da EuranetPlus por João Brites, membro fundador do projeto de voluntariado “Movimento Transformers” e orador sobre trabalho voluntário em várias palestras internacionais.
Este jovem de 30 anos recua mais de uma década até à primeira experiência de voluntariado, quando começou a fazer breakdance num bairro social em Palmela, no distrito de Setúbal. O agora economista recorda o “grande impacto que tudo aquilo teve em mim, numa altura em que sentia que não era bom a nada” e vê esse espírito refletido nas “muitas possibilidades de voluntariado” que existem atualmente, desde a proteção animal até à luta de certas causas, como o antirracismo.
João Brites considera, contudo, que as instituições de solidariedade e os intermediários – as universidades, por exemplo – devem assegurar que os voluntários têm a “motivação certa” no momento da inscrição.
Cascais é a primeira capital portuguesa do Volunta(...)
“Há estudos que mostram que, se não for bem estruturado, pode ter impactos piores do que benéficos. Se os mentores não se podem comprometer durante um determinado período e há populações que precisam de relações estáveis e duradouras, isso é prejudicial. [Tudo isto] requer bastante reflexão”, defende.
Para Sónia Fernandes, fundadora e diretora da associação Pista Mágica, dedicada à formação de voluntários, este é um tema que “também preocupa”, mas prefere apontar outras especificidades do voluntariado atual.
Os dados da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social indicavam, em 2021, que apenas 8.500 portugueses estão inscritos na plataforma Portugal Voluntário. Já o Inquérito ao Trabalho Voluntário, realizado em 2018 pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), apontava para uma taxa de voluntariado formal em Portugal de 6,4%, bem abaixo da média de 19,3% da União Europeia, nessa altura ainda com o Reino Unido.
Apesar de “muitas vezes” se apontar como explicação o facto de poucos portugueses serem voluntários regulares em instituições, Sónia Fernandes sublinha que, sem esta flexibilidade, muitos candidatos desistiriam de ser voluntários, nomeadamente os jovens “que mudam muito de horário e de cidade”.
A antropóloga destaca, contudo, outro fator: a dificuldade em escoar o número de candidatos que chegam às instituições.
“Uma questão extremamente importante em Portugal para que haja poucos voluntários é que muitas organizações não estão abertas a receber voluntários. Nos bancos locais de voluntariado, há mais pessoas inscritas do que as oportunidades de voluntariado criadas”, detalha.
Sónia Fernandes alerta, contudo, que a missão de um voluntário nem sempre é simples e que, tal como num emprego, é necessário dar-lhes formação – nomeadamente, para conseguirem gerir expectativas.
“Excesso de motivação é muito comum em voluntários. Chegam a uma organização, querem mudar o mundo e sem a consciência de que a mudança é diretamente proporcional à problemática. Se uma pessoa é sem abrigo há de 30 anos, é muito difícil tirá-la logo da rua. É preciso explicar isto”, pormenoriza.
Há mais pessoas inscritas do que as oportunidades de voluntariado criadas
João Brites alinha-se com esta posição e acrescenta que todas estas competências se tornam numa mais-valia para o voluntário.
“Se houver compromisso, são competências que se podem aplicar noutros lugares. O voluntariado acaba por ser um ‘plus’. Mostra que uma pessoa tem paixão por certos temas, mas também pelos temas complexos e difíceis de resolver, o voluntário acaba por mostrar que a pessoa consegue resolver problemas”, aponta.
Apesar da popularidade crescente, há ainda poucas estatísticas sobre o voluntariado.
O último Inquérito ao Trabalho Voluntario do Instituto Nacional de Estatística foi realizado em 2018. Já os dados da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social dizem respeito ao número de voluntários inscritos na plataforma Portugal Voluntário e não a “um estudo aprofundado sobre o fenómeno”.
Num momento em que “já foram apresentados tantos pacotes de medidas”, a diretora da associação Pista Mágica reforça que “cabe ao Estado e ao governo” criar políticas e financiamento público que incentivem “as universidades a produzir conhecimento cientifico sobre voluntariado”.
Para esta legislatura, Sónia Fernandes define ainda outra meta – a revisão do enquadramento legal dos voluntários.
“Eu faço parte de um grupo de trabalho em que estamos a fazer a revisão da lei e da sua regulamentação. O decreto-lei sobre o voluntariado é muito, muito, muito antigo e eu acredito que, com a vontade deste Governo, haja essa esperança de o rever. Já houve uma revisão e nada avançou. Está há anos para sair”, remata.