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Transatlantic Trends

Portugueses no topo do apoio a Kiev, à Europa e até a Biden

29 set, 2023 - 13:23 • José Pedro Frazão

Um estudo de referência sobre relações transatlânticas mostra que os portugueses notam uma quebra na qualidade da sua democracia. Entre 14 países, Portugal tem os cidadãos mais europeístas e defensores da Ucrânia.

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Portugal lidera diversas tabelas de análise de opinião sobre política internacional inseridas no “Transatlantic Trends”, relatório publicado anualmente pelo German Marshall Fund e que pela segunda vez, inclui Portugal nos países estudados, em resultado do apoio da FLAD - Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

O estudo analisou 14 países, com base em estudos de opinião efetuados entre 15 e 27 de junho através de questionários eletrónicos. A amostra em Portugal foi de 1.500 respostas.

Ainda mais perto de Kiev e mais longe de Moscovo

Portugal lidera as opiniões favoráveis à entrada da Ucrânia na União Europeia (81% a favor) e na NATO (78%) e ao apoio financeiro à reconstrução da Ucrânia (86%).

Os inquiridos portugueses são os que mais manifestam uma opinião negativa sobre a ação global da Rússia, com 85% a chumbarem a estratégia de Moscovo, muito acima da média do estudo (71%).

Portugal, a par dos Estados Unidos, é o país onde os inquiridos menos valorizam (2%) a Rússia como o "ator" mais influente na arena internacional. Para os portugueses questionados neste estudo, em linha com os resultados globais, os EUA representam largamente o grande poder mundial (68%) , longe da Europa (20%) e da China (9%).

Os mais transatlânticos de todos

A par da Polónia, Portugal surge como o país europeu da amostra que mais poder confere aos norte-americanos na agenda global. Aliás, são o país mais otimista da amostra em relação a uma maior proximidade nos próximos cinco anos entre a Europa e os Estados Unidos, com 37% de inquiridos. 82% dos portugueses inquiridos consideram que o seu país é um parceiro fiável dos americanos, ao nível do Canadá e ligeiramente abaixo da Lituânia.

Olhando para a distribuição do poder global nos próximos cinco anos, o estudo revela um maior equilíbrio entre EUA e China face aos resultados do ano passado, com Pequim a recolher mais força (30% contra 25% na amostra de 2022) e uma percentagem inalterada para Washington (37%). Os inquiridos portugueses de 2023 valorizam agora menos os EUA (de 43% em 2022 para 40%) e a União Europeia (de 24% para 21%) e mais a China (subindo de 21 para 28%).

No topo dos europeístas

Pela amostra deste estudo, Portugal regista 85% de aprovação da influência global da União Europeia, sendo ainda o país que mais percentagem ainda deposita na UE nos próximos cinco anos. Os inquiridos portugueses colocam a UE no topo dos parceiros de confiança para o seu próprio país (88%). Portugal apresenta taxas de confiança acima de 80% face à Alemanha, Espanha e França.

Em sentido contrário, a relação de confiança dos portugueses está em terreno negativo com a Lituânia, a Roménia e, sobretudo, com a Turquia. Nove em cada 10 portugueses consideram que o seu país é um parceiro fiável para a União Europeia, estando no topo desta tabela.

Os turcos melhoraram a perceção positiva da ação global da UE (de 35% para 51%), mas são os que colocam os 27 numa apreciação negativa com maior número de inquiridos.

Europa e NATO na defesa de Portugal

Portugal é o país onde mais se defende que a União Europeia é importante para a segurança nacional (93%), sobretudo entre os votantes no PSD (98%) e no PS (95%). é também o país mais entusiástico de mais ação europeia na segurança e defesa (68%) e de que essa ação seja feita com parceiros (80%).

Não estranha por isso que Portugal seja a nação onde há mais inquiridos para quem a NATO é importante para o seu país (89%), acima da média dos 14 países inquiridos que permanece elevada (77% face a 78% em 2022, ano da invasão russa da Ucrânia).

O nosso país está também entre os três países que mais força dão ao envolvimento dos EUA na defesa e segurança da Europa. As percentagens portuguesas são geralmente acompanhadas de perto por parceiros NATO do Leste da Europa e Báltico como a Polónia, Lituânia ou Roménia.

Democracia portuguesa em queda

Os portugueses são os inquiridos que de um ano para outro mais degradaram a sua perceção da sua própria democracia, com uma queda abrupta de 14 pontos percentuais, passando de uma das melhores autoavaliações (66% para 51%, em torno da média do estudo). O relatório mostra desagrado com o estado das suas democracias na Turquia, Itália, Polónia e Estados Unidos.

Os portugueses são dos inquiridos que mais valorizam a estabilidade (66%, só abaixo da Roménia) e a democracia (64%, só superado pela Turquia).

Seis em cada 10 inquiridos defendem cooperação de Portugal em exclusivo com países democráticos, apenas superados pela opinião dos turcos.

Nota negativa para o combate climático

Em sentido contrário, Portugal está entre os três países (com Espanha e Roménia) onde menos inquiridos (7%) dizem que o Governo faz muito pelas alterações climáticas.

Entre os desafios de segurança dos próximos anos, os portugueses mostram-se sobretudo preocupados com as alterações climáticas (31%, apenas superados pela Itália e acima dos 19% de média da amostra global), a imigração (20%, pouco acima da média de 18%, que, só por si, aumentou 4 pontos percentuais face a 2022) e a guerra entre nações (15%, na média dos resultados globais do estudo).

Portugal está também acima da média das preocupações na cibersegurança (12% face a media de 9%) e partilha uma baixa perceção de que as pandemias sejam um desafio importante de segurança (3%).

Por curiosidade, os inquiridos portugueses são os que se dizem mais interessados em relações internacionais (86% entre o muito e o algo interessado).

Portugueses ao lado de Biden

A forma como os Estados Unidos exercem a sua influência global é positiva para 58% dos inquiridos nos 14 países do estudo. Portugal é o terceiro país mais agradado com a influência americana no mundo (70%), curiosamente acima dos próprios inquiridos norte-americanos (60% de opiniões positivas). Houve um ligeiro aumento (mais 3%) das opiniões positivas dos portugueses em relação à política externa da Administração Biden, colocando o nosso país no segundo lugar dos países mais entusiastas do atual Presidente, superado apenas pela Polónia. A Turquia é o único país que vê a influência dos EUA tendencialmente pela negativa.

China, um parceiro a quem muito se exige

Países como a Roménia e Turquia dividem a influência no mundo daqui a meia década de forma igual entre Estados Unidos e China, enquanto a predominância de Pequim nos próximos anos é a expectativa dos inquiridos em Espanha, Alemanha, Países Baixos e, de forma mais cavada, França e Itália.

57% dos inquiridos veem a China como uma influência negativa, sendo que só a Turquia e a Roménia dão nota globalmente positiva à estratégia de Pequim. 31% dos portugueses veem a influência da China do lado positivo, contrastando com 60% de respostas desfavoráveis a Pequim. Suécia, Canadá, Reino Unidos, Países Baixos e a Alemanha estão no topo das apreciações negativas face à China.

Portugal e a Roménia são os países da amostra que mais encaram a China como parceiros (4 em 10 inquiridos) e menos como competidores ou até rivais. No entanto, os inquiridos portugueses são os que mais querem uma relação exigente com a China em matéria de direitos humanos, seguido das questões em torno das alterações climáticas e da gestão das pandemias. Portugal, visto a partir desta amostra, é o país mais favorável (64%) a uma negociação diplomática para pôr cobro ao conflito de Taiwan.

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