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Eleições em França

Macron e Marine caminhando numa Primavera de destroços

08 abr, 2022 - 23:00 • José Pedro Frazão

Independentemente do peso da guerra, das relações com Putin e dos impactos nas faturas dos franceses, os principais favoritos à segunda volta das presidenciais francesas manobram politicamente sobre destroços de discursos, enganos, desilusões e resultados negativos de muitos oponentes. O politólogo Pedro Magalhães e o embaixador Francisco Seixas da Costa deixam na Renascença algumas leituras adicionais sobre o estado da política francesa na antecâmera da primeira volta da eleição primordial para os gauleses.

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Emmanuel Macron chega ao fim da campanha para a sua reeleição com pelo menos um mérito. Conseguiu chegar aqui depois de 5 anos de uma Presidência construída em torno de um político pouco amarrado aos jogos partidários e às proclamações ideológicas tradicionais. O centrismo chegou ao Eliseu e as sondagens não desmentem que ali possa continuar por mais meia década.

O politólogo Pedro Magalhães do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa sublinha que Macron apresenta-se com uma flexibilidade política que conjuga o seu perfil centrista como Presidente e uma máquina partidária que o candidato domina.

"Ele define-se como um pragmático, técnico, mais preocupado com competências do que com ideologia. A composição social do eleitorado europeu estava tradicionalmente dividida entre uma massa muito grande de uma classe trabalhadora grande e uma classe média menos numerosa que a de hoje e que nos dias que correm tende a escolher especialistas em vez de políticos", analisa Magalhães sublinhando a flexibilidade e a capacidade de adaptação demonstrada por Macron como gestor político de primeira linha.

O forte presidencialismo do sistema de governo francês torna também singular a leitura da subida de Macron ao poder. No plano europeu, adianta Pedro Magalhães, a dinâmica política francesa distingue-se por permitir a um candidato criar um partido a partir do zero em poucos meses, movimentar uma candidatura e um discurso apenas numa personalidade que voga entre os diversos estados de alma políticos e ideológicos da política tradicional.

"Macron é também o produto do que é o centro na política em França. Mitterrand dizia que o centro, em França, ou está à direita ou está à direita. A história do centro em França é sempre assim", diz Francisco Seixas da Costa, que foi embaixador de Portugal em Paris e só vê sinais deste fenómeno no romper da candidatura de Giscard D´Estaing que depois congregou a direita moderada tradicional.

Para este ex-diplomata, Macron foi usufrutuário de "uma certa partição" da direita democrática francesa e da circunstância da esquerda mais moderada, que exclui Mélenchon, ter escolhido para seu candidato durante as eleições de 2017 a figura de Benoit Hamon, que depois de 5 anos de Hollande, teve 6,36 por cento.

O desastre socialista

O campo socialista está hoje representado por uma candidata que sendo a presidente da câmara de Paris situa-se ainda mais abaixo nas intenções de voto. " Não é nada vulgar um partido como o PS francês ser estilhaçado da maneira que foi", avisa Pedro Magalhães que recua nas justificações à governação de Hollande " muito problemática, eleito com uma plataforma anti austeridade e anticapitalismo financeiro e depois governando em contradição com essa plataforma".

O politólogo lembra a dupla cultura socialista francesa, moderada ou mais radical, mas sublinha que a falta de resultados na governação Hollande aprofundou divisões e as primárias tornaram tudo mais complicado.

"Não é um problema exclusivo francês. A social-democracia europeia está a passar por grandes dificuldades. Tem a ver com a diminuição de um eleitorado da classe trabalhadora que não alinha tanto com um discurso de esquerda moderada. Macron vem buscar - com deputados e membros do governo - uma parte importante de socialistas. Ele capta a fração moderada e Mélenchon vai buscar a cultura mais radical no PS francês", analisa Pedro Magalhães, sublinhando a subida consistente de popularidade de Melenchon à esquerda, ainda que numa versão mais extrema do espectro político.

Mesmo nesse campo, Melenchon capitaliza também o mesmo caldo político que dá origem a Macron, explica Francisco Seixas da Costa.

"Há uma fragmentação na política francesa que leva à fulanização das escolhas, o que dá, por exemplo, um excelente resultado de Melenchon. É um populista de esquerda, com a acusação de que o PS francês é uma direita disfarçada". explica o atual comentador de atualidade internacional que acredita que Macron seduz também muita gente à esquerda e captará na segunda volta os votos de quem escolheu Valérie Pécresse na primeira volta.

Os destroços da direita

Os gaullistas que escolheram Pécresse preparam-se para ficar outra década fora do Eliseu. Culpa de quem? Macron, também ele, está na lista dos principais suspeitos pelo seu discurso volante da esquerda à direita.

"No mesmo discurso, Macron é capaz de falar sobre as desigualdades e ao mesmo tempo dizer que é preciso premiar a iniciativa individual e baixar os impostos. Depois a prática é muito diferente, mais à direita que o seu discurso, no plano social e econômico, que inclui cortes no subsídio de desemprego, cortes sociais, que tornam a sua governação claramente mais de centro-direita que o seu discurso", explica Pedro Magalhães.

à espreita destes ziguezagues está Marine Le Pen que, assegura o politólogo, tem vindo a mudar o discurso da Frente Nacional sobre políticas económicas sociais em torno do conceito de "chauvinismo de bem-estar", onde se denunciam cortes nas políticas sociais das camadas que interessam a Le Pen.

"A Frente Nacional era de direita na economia com pequenos comerciantes. Hoje Marine Le Pen critica Macron pela esquerda, na "insensibilidade social", nos cortes nos apoios sociais, mas apenas para os 'verdadeiros franceses'...", diz Magalhães na Renascença.

Os destroços da economia

Para a segunda volta a perspetiva incerta na economia em contexto de guerra pode favorecer Marine Le Pen, admite o politólogo, por via "do medo, da transformação da economia, da incerteza, que exponha fraquezas que eleitores que votam Le Pen ou Mélenchon consideram sinais de insensibilidade social.

Seixas da Costa pensa o contrário. Le Pen é, para este antigo embaixador em Paris, " a melhor candidata para Macron que já provou nas duas voltas de 2017 que consegue travar Marine Le Pen". Ainda assim admite que a questão económica pode passar uma fatura. "A questão da gasolina foi o início dos coletes amarelos, veio da classe média", alerta o comentador de política internacional.

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