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Taxas de juro. Paulo Macedo espera "alívio no esforço" dos portugueses

27 mai, 2024 - 23:44 • Marisa Gonçalves

No encontro “Fora da Caixa”, em Almada, Paulo Macedo fez uma análise da situação macroeconómica do país e da Europa e alertou para fatores que determinam a competitividade nacional.

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O presidente da comissão executiva da Caixa Geral de Depósitos (CGD), Paulo Macedo, perspetiva uma tendência decrescente das taxas de juro, na linha daquilo que tem sido a estimativa do Banco Central Europeu (BCE).

No âmbito de mais um encontro “Fora da Caixa”, uma parceria entre a Caixa Geral de Depósitos e a Renascença, o presidente do banco público disse acreditar que tal poderá acontecer este verão, mas ressalvou que, no final do ano, as taxas de juro deverão ainda ser superiores a 3%, fazendo notar que, mesmo se no futuro a inflação europeia atingir a meta de 2%, as taxas de juro irão rondar os 2,5%.

“Em Portugal temos condições de inflação mais baixas e não temos tensões muito em sentido contrário. Há outra questão que é saber se esta inflação alvo vai ser revista ou não, mas, para já, é o que temos”, declarou Paulo Macedo, esta segunda-feira, na sessão que decorreu na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, em Almada.

Já à margem do encontro, o diretor-executivo da CGD considerou que uma descida das taxas de juro terá efeitos benéficos no crédito dos consumidores, nomeadamente no crédito à habitação.

“Obviamente que há muitas pessoas com dificuldades, mas havendo um nível de emprego elevado associado ao facto de também existir um nível de preço das casas também elevado faz com que as pessoas não entreguem as casas, faz com que tenham tido várias formas de fazer face às dificuldades, quer amortizando o seu crédito parcialmente, quer mobilizando os PPRs, quer passando para taxa mista. Muitos clientes têm crédito à habitação e, portanto, nós temos uma dívida média de família, que é cerca de 58 mil euros. A maior parte das famílias, felizmente tem a casa paga, designadamente os mais velhos, os outros, de facto, têm tido um esforço que agora esperemos que vá aliviar”, afirmou à Renascença.

Esta segunda-feira, o Banco Central Europeu (BCE) disse estar pronto a descer as taxas de juro. Segundo admitiu o economista-chefe do BCE, Philip Lane, em entrevista ao Financial Times, esse cenário pode tornar-se realidade já na próxima semana. A próxima reunião do BCE sobre política monetária está marcada para 6 de junho, em Frankfurt.

Perspetivas positivas para a economia nacional

No encontro “Fora da Caixa”, em Almada, Paulo Macedo fez uma análise da situação macroeconómica do país e da Europa, considerando que a economia portuguesa espera um crescimento médio acima do resto do bloco europeu, tendo por base o investimento e as exportações.

O responsável destacou a aposta em determinados setores, como o setor automóvel, os serviços tecnológicos ou o turismo.

Tendo por base vários estudos apresentados, Paulo Macedo alertou para fatores que determinam a competitividade nacional. “Somos mal classificados na agilidade das companhias e na credibilidade dos gestores. Tem a ver com atrasos nos pagamentos que as empresas fazem e com práticas de cumprimento que, muitas vezes, não são as desejáveis”.

Paulo Macedo acrescentou que, na comparação com alguns dados do Fórum Económico Mundial, é possível determinar que “a regulação aparece como um constrangimento, no entanto, o primeiro fator é sobre preparação e competências para o mercado de trabalho”.

O presidente da CGD apontou a falta de capacidade em atrair talento, nas empresas nacionais, e uma “compreensão insuficiente das oportunidades, o que não depende só das qualificações das pessoas, mas também do organismo onde estão inseridas”.

Ainda no contexto das exportações, Paulo Macedo frisou como desafios para as Pequenas e Médias Empresas (PME) as tensões geopolíticas, a necessidade de adaptação à volatilidade económica, a dependência excessiva de mercados estrangeiros ou uma exposição à instabilidade político-económica.

“Precisamos de ter este tecido de PME, mas precisamos que as empresas cresçam. Em todos os estudos que existem, o que vemos é que as empresas com maior capacidade de exportação têm dimensão porque têm efeitos de escala. Conseguem dar mais formação aos seus trabalhadores, dar melhores salários e ter um recrutamento que faz atrair mais talento”.

O diretor-executivo da CGD referiu-se ainda à aplicação da Inteligência Artificial (IA) no banco público. “Estamos convictos de que vai fazer a diferença. É algo que levamos bastante a sério. A nossa assistente digital, que no ano passado atendeu 1,5 milhões de pessoas, ouve-nos, responde-nos, fala, pensa e consegue ver-nos quando há documentação e dados biométricos. A questão aqui não é se, é quando e a que ritmo”, acrescentou.

Paulo Macedo sublinhou também que "o país precisa de convergir ao nível educativo e aproveitar os recursos naturais”.

"Exportar para crescer"

Os intervenientes no painel dedicado ao setor empresarial consideraram que, apesar das tensões geopolíticas, Portugal tem margem para novos investimentos.

José Cardoso Botelho, chief executive officer da Vanguard Properties, empresa do ramo imobiliário, apontou boas perspetivas para 2024. "Continuamos a ter um fluxo muito grande de clientela internacional. O mercado norte-americano é aquele que está a crescer mais. Há uma apetência por Portugal muito grande. Estamos na Comporta e vemos a dimensão de pessoas dos Estados Unidos, do Brasil, da América Latina que já estão a olhar para Portugal. Mencionam o fator segurança mas também a simpatia com que são acolhidos”, referiu.

João Pedro Almeida Lopes, vice-presidente da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), lembrou que “há cerca de 15 anos as exportações não chegavam a 30% do PIB, hoje estamos quase a chegar aos 50%. Não foi vontade do Estado, mas da iniciativa privada. A verdade é que o investimento público em Portugal não tem funcionado”, defendeu.

O responsável apontou ainda dificuldades no sistema fiscal e no sistema judicial. “O volume de dinheiro que está envolvido nos processos de litigância em Portugal é uma coisa assustadora. Para as grandes empresas é um enorme custo de contexto, para as pequenas e médias pode ser a diferença entre a vida e a morte”, declarou ainda o vice-presidente da CIP.

Francisco Cary, administrador executivo da Caixa Geral de Depósitos, disse que o banco público está empenhado em poder dar garantias de crescimento às empresas.

“Dentro dos nossos produtos e serviços, temos presença nos Países de Língua Oficial Portuguesa, na China e Brasil. Não são os principais mercados de exportação, mas têm potencial de crescimento pela via do relacionamento que mantemos. Por outro lado, a Caixa voltou a ser aceite como contraparte internacional para seguros de crédito à exportação”, sustentou.

Gonçalo Veloso de Sousa, internacional sales director da Navigator, apontou a importância de procurar mercados estrangeiros, destacando as exportações especificamente referentes ao setor dos papéis finos de impressão e escrita, a partir da valorização da floresta nacional.

“As árvores em Portugal são uma vantagem competitiva, em cima da qual deveríamos estar a arrastar todo o tecido empresarial, nessa senda exportadora”, considerou.

A Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, em Almada, acolheu esta segunda-feira, personalidades do mundo académico, empresarial, político e cultural para debater "Os Novos ciclos de Portugal e da Europa", com a Rádio Renascença como Media Partner.


[notícia corrigida às 14h30 de 28/5/2024. Substituída a frase "o presidente do banco público disse acreditar que as taxas poderão começar a descer até ao Verão, até chegarem, mais tarde, nos próximos meses a um valor um pouco acima dos 2,5%" por "o presidente do banco público disse acreditar que tal poderá acontecer este verão, mas ressalvou que, no final do ano, as taxas de juro deverão ainda ser superiores a 3%, fazendo notar que, mesmo se no futuro a inflação europeia atingir a meta de 2%, as taxas de juro irão rondar os 2,5%".



VEJA O ENCONTRO FORA DA CAIXA

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