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Entrevista

"Hotelaria, restauração e imobiliário não resolvem problemas da qualidade do emprego e de melhores salários"

22 nov, 2021 - 06:35 • João Carlos Malta (texto), Sofia Moreira (fotografia)

O coordenador do recém-criado Observatório para o Emprego Jovem, Paulo Marques, diz que não são os setores que deram crescimento ao país que vão melhorar a qualidade do trabalho. O professor do ISCTE quer uma estratégia centrada no emprego de "conhecimento intensivo".

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O coordenador do Observatório do Emprego Jovem, Paulo Marques, não tem dúvidas: se há uns anos o problema de Portugal era a falta de formação, atualmente é o de conseguir fazer crescer os setores mais intensivos em conhecimento para absorver a maior qualificação académica dos jovens.

Há um mês este observatório anunciou que a qualificação dos jovens adultos, entre os 25 e os 34 anos, aumentou entre 2000 e 2020: a percentagem de pessoas, nestas idades, com ensino superior passou de 12,8% para 39,6% em 2020.

Mas, em 2016, Portugal tinha cerca de um quarto dos trabalhadores (23,6%) com mais qualificações do que aquelas necessárias ao trabalho que desempenhavam.

Realiza-se esta segunda-feira, no ISCTE em Lisboa, a conferência “O Futuro do Trabalho Visto Pelos Jovens” – integrada no ciclo “O Futuro Já Começou”, promovida pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na conferência “O Futuro do Trabalho Visto Pelos Jovens”, vai participar num painel que debate quais as dinâmicas que estão a transformar o emprego em Portugal. Quais são elas?

O mercado de trabalho em Portugal, desde a crise anterior [das dívidas soberanas], teve transformações significativas. Diria que essas transformações trazem notícias boas, mas também notícias más.

Com o aumento das qualificações que tivemos, sobretudo nas novas gerações, que foi extraordinário, tivemos alguma expansão de emprego extensivo em conhecimento, sobretudo na área dos serviços.

Estamos a falar, por exemplo, de programação e consultoria. Tínhamos, em 2008, 22 mil trabalhadores nesse setor, e tínhamos, em 2019, antes da pandemia, cerca de 80 mil.

Quando olhamos para o setor da saúde, em 2008 tinha 180 mil trabalhadores, em 2019 261 mil. Na área de investigação e desenvolvimento, houve uma duplicação de trabalhadores neste setor. Isto é extremamente positivo e mostra alguma capacidade, sobretudo no setor dos serviços.

No setor industrial não houve essa capacidade. Concomitantemente a esse processo, tivemos também o crescimento de alguns setores muito pouco intensivos em conhecimento. Estamos a falar do setor imobiliário, que teve um crescimento de 25 mil trabalhadores para 50 mil, o setor da hotelaria de 60 para 80 mil. O que é que isso provocou?

Uma fragmentação crescente do mercado de trabalho em Portugal, entre aqueles que conseguem entrar em setores mais competitivos, conseguem ter mais alguma relação entre o aumento das qualificações e o emprego, e aqueles que têm acesso muito pouco qualificado. Os empregos mais intermédios tendem a perder relevância, e crescem estes dois pólos.

Um quarto dos trabalhadores, segundo o observatório que lidera, tem qualificações a mais. Há um discurso quase esquizofrénico em que, por um lado, se diz que faltam competências à população em termos de qualificações e, por outro, que o conhecimento que têm é excessivo para os empregos que há. Em que é que ficamos?

A grande questão é a seguinte: éramos um país que tinha baixos níveis de qualificação entre os jovens e a população adulta. Houve uma inversão dessa situação, sobretudo entre os jovens. Isso foi extremamente positivo. No entanto, qual é a grande questão? O tecido empresarial em Portugal não acompanhou esta transformação.

Há alguns sinais positivos, não é tudo negativo. Mas o ritmo a que crescem os empregos mais qualificados não é suficiente para absorver essa mão-de-obra mais qualificada.

Esse é o desafio chave neste momento. Se nós há uns anos tínhamos o problema da educação e da dificuldade de inverter esse processo, hoje temos de ter a estratégia ambiciosa de crescer em setores mais intensivos em conhecimento.

Houve algumas coisas que aconteceram nos últimos anos, mas não é suficiente. É necessário intervir aí.

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"Isso provoca uma fragmentação crescente do mercado de trabalho em Portugal, entre aqueles que conseguem entrar em setores mais competitivos, e aqueles que têm um acesso muito pouco qualificado".

No caso do Observatório de Emprego Jovem temos de dar centralidade a esses problemas. Se queremos aproveitar estas novas gerações precisamos de acelerar a transição da nossa economia para setores mais intensivos em conhecimento.

A verdade é que alguns deles criaram algum emprego ao longo da última década e meia, mas não é suficiente. É necessário que haja uma estratégia complementar de políticas que se articulem entre elas e que permitam à economia portuguesa desenvolver-se nesse sentido.

"O ritmo a que crescem os empregos mais qualificados não é suficiente para absorver essa mão-de-obra mais qualificada."

Não podemos continuar tão dependentes dos setores da hotelaria, turismo e restauração. Temos de ter uma estratégia ambiciosa em que o crescimento também seja alavancado por este tipo de setores. É essa agenda que queremos colocar na ordem do dia.

Não teme que, com este cenário em que a formação superior não equivale a salários condizentes com o investimento que os jovens e as famílias fazem, isto os desmotive a prosseguir estudos?

Acho que há duas questões importantes: os jovens com menos qualificações têm ainda uma situação bastante pior. Essa também não é uma boa solução, a de não investir em qualificações. Se é verdade que o prémio da qualificação tende a baixar, a situação daqueles que não têm qualificações é bastante mais dramática. Em segundo lugar, o que aconteceu em Portugal na crise anterior foi a saída significativa de alguns jovens mais qualificados e que têm a capacidade de mobilidade internacional.

A mensagem que queremos passar aos jovens é a de que vale a pena investir em qualificações. Mas precisamos também de alertar os atores políticos para serem capazes de desenvolver estratégias ambiciosas que permitam aproveitar essas qualificações.

Mas atualmente já vemos que um jovem que se dedique a uma arte como a eletricidade, a canalização, ou outro trabalho manual pode almejar ter um salário melhor do que aquele que tem um curso superior, por exemplo em Ciências Sociais. Quando contratamos um profissional dessas áreas os preços que pagamos são bastante elevados…

Todos nós podemos ter percepções daquilo que são os valores que as pessoas recebem do ponto de vista da remuneração e ficar com a ideia de que o trabalho mais qualificado não compensa. Do ponto de vista dos dados agregados, são as populações mais qualificadas que, do ponto de vista de estabilidade do emprego, de algumas possibilidades de desenvolvimento de carreira e de valorização profissional de longo prazo, têm perspectivas de melhoria salarial superiores às das populações mais desqualificadas.

Se nós pensarmos naquilo que são os setores tradicionais, mais manuais e da indústria, temos tido uma incapacidade muito grande de desenvolver setores de média e alta tecnologia na indústria. Temos menos capacidade, do que por exemplo no setor dos serviços.

"Se queremos aproveitar estas novas gerações precisamos de acelerar a transição da nossa economia para setores mais intensivos em conhecimento."

Se há uma estratégia de desenvolvimento em Portugal, ela passa pelos serviços e com intensidade em conhecimento.

O presidente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa disse, em entrevista à Renascença, que em Portugal, as grandes empresas quase não contratam doutorados. O que é que isso lhe revela?

Ainda assim, houve algum crescimento. Mas efetivamente o tecido empresarial em Portugal não tem tido a capacidade de absorver um número significativo de doutorados.

Precisamos de fazer acompanhar as políticas educativas com os setores estratégicos que crescem no nosso país.

As políticas de apoio às empresas devem apoiar ou não as empresas que integram doutorados? As políticas de emprego devem dirigir-se para os segmentos mais qualificados, no sentido de apoiar a transição da universidade para o mercado de trabalho ou não? De doutorados também - sim ou não? A política industrial deve ter isso em conta, sim ou não?

Se temos mais doutorados, mais mestres, mais licenciados, provavelmente as políticas públicas têm de convergir no sentido de aproveitar esses recursos adicionais que nós temos. Esse exemplo que refere tem de ser uma prioridade nas políticas públicas. O apoio em políticas de emprego, de apoio às empresas, em política industrial, tem de ser convergente com esse desígnio.

Como se combate o desajuste de oferta entre o mercado laboral e a formação superior? O Estado poderia ter um papel regulador mais forte em relação às vagas de acesso a determinados cursos?

Há uma dimensão importante que, muitas vezes, não é referida, que é a necessidade de algum envolvimento dos empregadores. Permite fazer a transição.

Dos vários estudos que nós temos, a questão da transição para o mercado de trabalho é uma questão chave e, relativamente aos jovens licenciados, isso é extremamente importante quando essa ligação aos trabalhadores é mais frágil.

Penso que relativamente à questão da adequação, passa por algum envolvimento dos empregadores e, por outro lado, a capacidade de acelerar essa transição para o mercado de trabalho.

Nesse sentido, isso foi muito evidente nesta crise que estamos a viver provocada pela pandemia. Ficamos com muitos jovens com dificuldade em concretizar essa transição para o mercado de trabalho.

Se verificarmos as notícias de hoje em relação à área da educação, disse-se que durante anos não seria preciso formar mais pessoas. Qual foi a consequência disso? Como havia taxas de desemprego elevadas, houve uma redução das pessoas que procuravam essas formações e hoje temos um défice.

Já existem agências de acreditação que corrigem as vagas de acordo com a realidade do mercado de trabalho.

Referiu a necessidade de ajustamento do mercado às qualificações dos jovens portugueses. Mas esses ajustamentos demoram sempre alguns anos. Corremos o risco de termos aqui uma geração perdida?

Não é tudo mau. Existem alguns setores em que houve uma expansão do emprego. Não acho que exista uma situação em que nós aumentamos as qualificações e ninguém consegue obter empregos qualificados.

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"Os setores da hotelaria, da restauração e do imobiliário alavancaram o crescimento económico de Portugal nos últimos anos depois da retoma. Mas esses setores não resolvem os problemas de um emprego com mais qualidade e com salários melhores".

Estamos numa situação em que há algum crescimento, mas esse crescimento não é suficiente para absorver um crescimento extraordinário no nível das qualificações.

Há alguma capacidade no setor dos serviços. No setor industrial tem havido muita incapacidade de haver uma alteração em Portugal, continua a ser um setor de baixa tecnologia.

Há recursos que estão a ser desperdiçados, neste momento, e é uma realidade que deve ser encarada dessa forma. Nada é um fatalismo e muito pode ser feito. Há muita intervenção que pode ser feita por parte do Estado para lidar com estes problemas.

Um jovem licenciado ou mestre tem muitas vezes à espera um salário de menos de 900 euros líquidos, e em que o contrato sem termo é uma miragem, que demora às vezes uma dezena de anos a conseguir. Como é que ele pode pensar em família e filhos?

Temos preocupações com a questão demográfica como vimos nos dados dos Censos. Temos preocupações com a sustentabilidade da Segurança Social, e, nesse sentido, este desígnio de acelerar a transição para setores mais intensivos em conhecimento para podermos aproveitar os recursos mais qualificados que temos.

Os setores da hotelaria, da restauração e do imobiliário alavancaram o crescimento económico de Portugal nos últimos anos depois da retoma. Mas esses setores não resolvem os problemas de um emprego com mais qualidade e com salários melhores. E empregos com perspectivas de carreiras em que as pessoas podem emancipar-se dos pais e ter o projeto de vida próprio.

Disse recentemente que “os jovens chegaram à crise económica provocada pela pandemia pior do que tinham chegado à crise de 2008”. Daqui a 10 anos, a tendência é para continuar a piorar?

O futuro está nas nossas mãos, os países podem ter estratégias. Tendemos a pensar que a economia se move toda num sentido. Mas se olharmos para a Europa, vemos realidades muito diferentes. Temos países como a Alemanha que aposta numa indústria mais avançada, os países nórdicos que apostaram nos serviços ligados às novas tecnologias e tiveram sucesso nesse processo.

Temos os países de Leste que apostaram numa estratégia de atração de investimento direto estrangeiro sobretudo no setor industrial, que se baseia em baixos salários e flexibilidade.

O futuro do emprego em Portugal depende muito das estratégias de desenvolvimento para o nosso país. Nos últimos anos, conseguimos um desenvolvimento muito grande da educação e dos níveis de qualificação. Precisamos de aproveitar esses recursos em setores mais intensivos em conhecimento.

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