Estado da Nação

Fomos fazer "barba e cabelo" à geringonça no bairro de Costa

10 jul, 2019 - 07:30 • Tiago Palma

A barbearia Monte Carlo é “vizinha” do primeiro-ministro em Benfica. E como velhinha barbearia que se preze, a política é passada a pente fino pelos que se sentam a cortar e pelos que, de tesoura e navalha em punho, são barbeiros. Contas feitas, da economia à saúde, das (muitas) greves na legislatura aos incêndios, Costa granjeia mais simpatia do que Passos Coelho. Mas a crise pode estar de volta não tarda.
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Barbearias sobre as quais a modernidade não passa ou teima não querer passar, de velha portada e velha cadeira que range quando alguém nela se recosta para o tradicional corte à escovinha, barbearias onde se aparam rostos com pomada e delicadamente esbofeteiam com duas gotículas (imanando patchuli) de after shave, barbearias destas, se as houver, podem muito bem ser um lugar privilegiado onde medir o pulso à Nação.

Afinal, do mal e do fausto sempre no assento do barbeiro se tratou e ele, o barbeiro, fazendo do assento um divã, escuta, pontuando a escutada, aqui e além, de concórdia, hmmmmm-hmmm, hmmmmm-hmmm, sem nunca tirar o olhar da navalha nem tão-pouco opinar. Haverá barbearias destas? No 292 da Estrada de Benfica, há. Os anos e o pó esbateram-lhe o nome do toldo, mas chama-se hoje como antes e há já algumas décadas: Monte Carlo.

Quando Manuel, 71 anos, abre a Monte Carlo logo pela manhã, abre-a já de bata vestida, bata de um azul sem mácula. É barbeiro há 60, desde que na terra, em Vinhais, Bragança, começa a fazer do corte um ofício a troco de alqueires de trigo. Há 35 anos veio trabalhar para a barbeira da Estrada de Benfica; há 34 adquiriu-a ao patrão e fez-se ele patrão. Não tenciona ser outra coisa, fazer outra coisa. “Parar? A vida é lixada, sabe? A reforma é pequena. Mas gosto disto. Ficar em casa ou andar em cafés não é para mim”, garante.

Enquanto o barbeiro revolvia memórias, entrava o primeiro cliente na Monte Carlo. Não anuncia a chegada e senta-se na primeira cadeira, junto à porta. “Olh’ó três-cinco-oito!”, apresenta-o o barbeiro. E explica a razão da alcunha: “Este senhor é o sócio número 358 do Benfica”. O cabelo fora aparado na semana passada, hoje só vem pela barba. Não conversa, três-cinco-oito. Mas logo que se vê ensaboado na cara, protesta ao barbeiro: “Oh chavalo, aqui deste lado não leva sabão?!” “Leva, leva!”, responde o barbeiro, e prossegue, murmurando: “Chamou-me chavalo?! Sou quase da idade dele e está-me a chamar chavalo?!” Como veio, assim três-cinco-oito parte: em silêncio. “Agora clientes são cada vez menos. Ainda vêm estes velhotes... Mas agora já não há barbearias, agora é tudo ‘modernagem’, o que sabem é esfarrapar, nem barbeiros são!, mas agora usa-se assim”, lamenta-se Manuel do negócio.

E do país, o que tem a lamentar ou ouve lamentar na cadeira? “As pessoas queixam-se sempre, não é? A última vez que atualizei a tabela de preços foi em 2005: cabelo nove euros, barba seis. E ainda há gente que chega aqui, espreita e vai embora. Mas isto está um bocadinho melhor. É assim: a mim a política e os partidos interessam-me pouco, mas a verdade é que agora o [António] Costa sempre está a repor alguma coisa. Acho que é melhor este que o outro. O outro, o Passos [Coelho], só cortava, cortava, cortava. Toda a gente falava disso aqui: 'Ai!, já me descontaram não-sei-quanto...’ Mas bem, nunca estão bem”, recorda Manuel.

Irrompe barbearia adentro uma mulher, Salete, 55 anos, cabeleira alourada, saracoteia no passo e no trato, veste a bata, negra e não azul-sem-mácula, e senta-se. “Queres falar também?”, pergunta o barbeiro. E responde-lhe Salete de chofre, áspera: “Falar, eu? Não tenho nada para falar, eu!” Fora temporária a resmunguice. “Diga lá… O país?!” Sim. “Os homens aqui desabafam muito sobre a vida. Aqui, no barbeiro. Em salões, entre mulheres, não é tanto assim. As mulheres preferem a cusquice, sabe?... [Pausa] Olhe, o país: está melhor. Com a tal crise que houve aí, houve muita gente que pôs termo à vida. As pessoas estavam sozinhas e a crise era tanta. Soube de muitos casos desses. Sobretudo pessoas mais velhas. Mas não só. Apareciam cartas escritas de quem se suicidou, a explicar a situação, e muitas não tinham emprego. Houve muito desespero. Penso que nisso está melhor, está”, responde de enfiada.

Sucedem-se os assuntos: saúde, greve. Tagarela, Salete a nenhum foge. “Saúde? É assim: não sou muito de ir a médicos. Se vou, só vou mesmo à última. Não vou lá só porque tenho uma dorzita.” Não tem só isso. “Estou há dois anos à espera de uma consulta no Hospital de Santa Maria. Tenho uma hérnia e de vez em quanto a anca prende-se. Tinha consulta na quinta-feira, de neurocirurgia, e o médico não atendeu porque estava de greve. Disse para 'fazer um papel', para entregar lá em baixo, 'que a gente entra em contacto'. Até hoje! Não telefonaram. Estou com ideia de ir lá de novo, ficar lá e dizer que não aguento”, garante. Salete diz não compreender os longos tempos espera na saúde, tal como não compreende as recentes greves de médicos e enfermeiros. “Salários? Eles saem dali e se calhar vão trabalhar no privado, no consultório. Horas? Fazem muitas horas? É mentira. Já estive um dia inteiro num hospital e fazem turnos. E dizem-nos, quando os vemos a ir embora: ‘Vai entrar o meu colega, já está lá com a sua ficha...' Se fazem muitas horas, eu também. E não vou deixar ninguém sem cortar. As pessoas sentem-se revoltadas com as greves, porque têm uma consulta ou uma cirurgia nessa altura e perdem-na.”

Manuel, o barbeiro, interrompe-a. “No tempo do [Passos] Coelho acho que não fizeram tantas greves.” E prossegue: “Acho que a greve é a arma do trabalhador. E há greves que fazem sentido. Mesmo a greve dos motoristas de matérias perigosas, claro que têm razão. Não sei é se há carcanhol para poder pagar. Médicos? O meu é bom. É bom, que é como quem diz: é o que está lá. Trata-me por senhor Nelinho. Mas só me faz exames se eu lhos pedir também”, recorda.

Desta feita, interrompe Salete. E o tema, marcante da legislatura da “Geringonça”, prossegue. “Eu percebo algumas. Os professores querem a reposição dos ordenados. E vamos ter agora outra dos camionistas – e isso pode ser complicado se não se entenderem. Transportes? Nunca me afeta. Posso chegar um bocadinho mais tarde, em vez de chegar às oito e meia, ou às nove, chego às nove e meia, mas encontro sempre autocarros. Espero, espero. Se vier toda espalmadinha, eu entro e venho. As pessoas aceitam melhor do que quando é com médicos.”

Salete lembra que António Costa, o primeiro-ministro, é “vizinho” da Monte Carlo em Benfica. E, senadora, avalia-lhe a governação. “Ele mora aqui, na Cláudio Nunes. Às vezes passa aqui. Uma vez esteva lá fora, vi-o passar e disse: 'Olh’ó Costa!' Riu-se e disse-me ‘olá, boa noite’. Estava a passear os cães. Eu não percebo muito de política. E evito falar de política. Quando começam, evito. Mudo logo de conversa, olho para a televisão e digo 'hey, olha aquela notícia...' Mas com este governo isto mudou um bocadinho. Passos Coelho? Uish! Nem fale dele! Isto foi uma desgraça com ele. E o Sócrates era outro igual, para não lhe dizer outra coisa. O Costa não.” António, não o Costa mas o barbeiro, aproveita a achega: “Cortava-lho [cabelo] melhor do que o que ele tem. [Pausa] Está todo branco. Aquilo da política também envelhece”. Mas Salete não deixa de dizer: “A alguns! Outros só querem – desculpe lá – é ‘mamar’ e não fazem nenhum”.

Duas coisas há, porém, a que Salete atribui responsabilidades a António Costa: incêndios e segurança – ou falta desta. “Nalgumas coisas o Governo tem culpas. Na limpeza [das florestas], por exemplo. Isso [incêndios] foi o mais complicado destes quatro anos. E depois há a segurança. Medo? Não tenho, não. Mas li para aí uma notícia a dizer que agora posso ‘maltratar’ polícias.” Como assim, pode? “Então: posso chamar-lhe ‘filho da’ e é só um desabafo. Acha que devo, mesmo estando eu enervada, chegar ao pé dele e chamar-lhe ‘filho da’, acha? Isso tem alguma lógica? Perdeu-se o respeito. E a polícia não tem força. Às vezes, coitados, são chamados a sítios, ainda levam e eles é que são os ‘maus’. Acho que a segurança não está nada bem. Não está, não”, desabafa.

Dois clientes entraram, entretanto, na barbearia. Um senta-se e é atendido por Salete. Outro senta-se no banco, a ler um desportivo. É António. “Alguns vêm cá só de visita, para ler o jornal”, ironiza Manuel. “Eu venho cá, mas não é para te visitar, é para ver a Salete, que eu 'tou apaixonado por ela”, responde. Salete não desvia o olhar. Sorri de soslaio. “Também não é lá grande encomenda, mas...”, gracejou o barbeiro. Sobre o Estado da Nação, António não falaria. Mas deixa uma pergunta, intrigado com que acabava de ler. “Ora, diga-me cá, que é jornalista: o que é que significa o 'e pluribus unum'?” De muitos, um. “É? Não é 'um por todos e todos por um’?” Não, isso é dos três mosqueteiros. Interpelado o jornalista, conclui, António: “Vem aqui no jornal mal, então…”

Não tornaria à conversa. Mas chegou a ela um outro António, António Fino, economista reformado, a quem Salete aparava o cabelo. “Não sou tão otimista como eles. Eu acho que o povo, o que tem menos instrução, é um pouco enganado pelos políticos.” Então? “Prometem-se coisas que, depois, não se conseguem fazer. Acho que vamos chegar a 2020, 2021, e vai haver outra crise, os bancos já não vão emprestar como emprestam e, aí, as pessoas vão ter que apertar outra vez o cinto. Agora é o tempo das 'vacas gordas'. Mas a dívida pública é maior do que no tempo do Passos Coelho. O Passos Coelho foi obrigado a ter cortes, foi-lhe imposto. As pessoas esquecem-se um bocado. A verdade é que estamos a gastar mais do que podemos. E as pessoas não poupam. É evidente que há incentivos ao gasto, os créditos, os créditos fáceis, e quando os bancos começarem a meter o travão, vamos passar tempos difíceis”, augura.

E coloca-se uma questão, António. “Agora… se o Costa vai ser reeleito? Não tenho a menor dúvida.” Será o fim da “Geringonça”? “Não sei é se vai ter maioria. Isso não digo. E acho que, não tendo, vai estar mais do lado do PCP do que do Bloco de Esquerda. Acho que o Bloco de Esquerda tem feito mais pelo povo – pelo menos promove, a meu ver, a igualdade. E cresceu [Bloco de Esquerda] bastante por causa disso. Então, pode ser mais um adversário do que um aliado para o Partido Socialista. Mas o importante é que o povo continua enganado, na ilusão de que não vai haver mais crise. Mas vai.”

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