Sporting da Covilhã

Filipe Cardoso, o "senhor doutor" que foi paciente e chegou à II Liga

25 jun, 2019 - 09:45 • Eduardo Soares da Silva

O médio, de 25 anos, vai trocar o Coimbrões pelo Sporting da Covilhã, naquela que será a sua primeira experiência profissional da carreira, ao mesmo tempo em que termina a licenciatura de medicina, numa das mais conceituadas instituições do país, na Universidade do Porto.
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Filipe Cardoso explica as dificuldades de conciliar o curso de medicina e a carreira de jogador. Vídeo: Eduardo Soares da Silva/RR. Edição: Joana Gonçalves/RR
Filipe Cardoso explica as dificuldades de conciliar o curso de medicina e a carreira de jogador. Vídeo: Eduardo Soares da Silva/RR. Edição: Joana Gonçalves/RR

Falta apenas entregar o relatório de estágio para Filipe Cardoso, de 25 anos, completar a licenciatura de seis anos em medicina, no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), na Universidade do Porto. Durante o curso, Filipe afirmou-se na equipa principal do Coimbrões, no Campeonato de Portugal, onde somou mais de 150 jogos. Este verão, surgiu a oportunidade do “senhor doutor”, alcunha dada no balneário, subir aos campeonatos profissionais, na II Liga, pela porta do Sporting da Covilhã.

Em entrevista à Renascença, no Parque Silva Matos, estádio do Coimbrões, Filipe revela que tirar o curso de medicina nunca foi um sonho, mas uma consequência natural do sucesso escolar.

“Nunca tive uma ambição de tirar medicina, as coisas foram acontecendo naturalmente. Sempre fui bom aluno, tinha as notas e a meio de secundário cheguei à conclusão que medicina seria um curso que gostaria de tirar. Tem sido bastante difícil, mas não me arrependo de nada, até porque o ICBAS é das instituições mais conceituadas do país", começa por explicar.

Rotina difícil e cansativa

Conciliar o futebol semi-profissional com o curso de medicina não é tarefa fácil. Consiste numa rotina diária que exige muita paixão, organização e, acima de tudo, sacrifício.

“Tenho dias mesmo muito cansativos. Normalmente acordo às 6h30, vou para as aulas na faculdade, ou para o hospital para o estágio. Durante a tarde estudo e vou para o treino, às 17h00. Já tive alguns dias que tive de sair a correr, porque tinha uma aula às 19h00. Chego a casa para lá das 21h00 e no dia seguinte a rotina é igual. Ao fim-de-semana, jogo. É preciso muito espírito de sacrifício e gostar mesmo muito das duas coisas. Só assim é possível, mas quando se consegue conciliar é muito gratificante”, explica.

Apesar do cansaço físico e mental, desistir nunca passou pela cabeça do médio, ao longo dos seis anos de sénior. Épocas de exame são os períodos mais sensíveis, em que o futebol, apesar de ser a maior paixão, não é a prioridade.

“Tive momentos muito difíceis, principalmente em alturas de exames. Pensava se era mesmo esta vida que queria, mas nunca coloquei mesmo a hipótese de desistir. Do futebol é que não queria mesmo desistir, apesar de saber que a faculdade estava em primeiro lugar. Como não queria mesmo desistir de nenhum, nunca pensei seriamente na situação”, diz.

A afirmação no Campeonato de Portugal

Filipe começou a formação precisamente no Coimbrões, o clube mais próximo de casa, em Vila Nova de Gaia. Destacou-se no emblema gaiense e rumou ao Boavista, onde passou quatro temporadas, três delas com Bruno Fernandes como companheiro do meio-campo, com quem já perdeu contacto e apenas se encontra “em jantares de reunião de equipa”.

Regressou ao Coimbrões para o último ano de formação, quando arrancou com o curso de medicina, do outro lado do rio Douro. O apoio da direção foi fundamental para conciliar o futebol e o curso superior.

“Nunca precisei de faltar a treinos ou jogos por causa do meu curso. No máximo, cheguei atrasado. Sempre tive muito apoio da direção e equipa técnica. Se tivesse um contrato numa liga profissional, teria sido bem mais difícil conciliar, ou até acabar. O Campeonato de Portugal já tem alguma visibilidade, fui ganhando o meu espaço e terminei o curso, foi a melhor ideia”, explica.

Apesar de “um interesse, ou outro, de clubes da segunda divisão”, nenhuma proposta concreta chegou até este verão. Filipe assinou pelo sexto classificado da II Liga, o Sporting da Covilhã. Se a proposta tivesse chegado mais cedo, admite que poderia ter colocado o curso em pausa.

“Sempre me questionei em relação a isso. Dependeria em que fase do curso estivesse. Se fosse quase a acabar, num quinto ou sexto ano, acho que não teria parado, arriscava e esperava por outra proposta mais tarde. Se fosse num primeiro, segundo ou terceiro ano, parava, ou pelo menos não tinha feito tudo direito no curso. Mas sim, talvez fosse para a II Liga mais cedo”, diz.

Um cortejo, uma cartola e a importância da educação

Apesar da carreira de jogador e de uma rotina atarefada, Filipe foi, também, um estudante normal e, como tal, na Queima das Fitas em maio, vestiu o traje, colocou a cartola de finalista na cabeça e desfilou com os amigos pela cidade no Porto, no cortejo académico.

Filipe puxa a fita atrás, recorda a prioridade que sempre deu aos estudos e alerta os jovens jogadores de futebol para que a educação seja sempre a prioridade: “Os miúdos não ligam à escola com 15 anos, só querem jogar à bola, mas agora com 25 anos vejo bem que o mais importante são os estudos. Se conseguir conciliar com o futebol, muito bom, mas são os estudos que nos asseguram o futuro”, aconselha.

Entre risos, reconhece que foge ao estereótipo do jogador moderno, que opta por não continuar a estudar, e conta que nunca precisou de ser castigado por ter más notas, prática habitual nos escalões de formação. Filipe dá crédito aos pais pela mentalidade direcionada para a educação, incutida desde os primeiros toques na bola.

“Nunca tive de ser castigado, não. A responsabilidade é dos meus pais, que sempre me incutiram que os estudos eram mais importantes que o futebol. Eles sempre me disseram que se não continuasse a estudar, teria de ir trabalhar, e conseguir continuar a estudar e jogar futebol é muito bom, vejo que tomei a decisão certa”, conclui.

Em conversa à porta dos balneários do estádio, Filipe confessa, entre gargalhadas, que os colegas costumam brincar com o “senhor doutor” e admite que, em certo medida, também integra o departamento médico do clube.

“Os meus colegas costumam-me chamar por ‘senhor doutor’ e às vezes pedem-me conselhos médicos, porque, parecendo que não, já tenho alguma experiência, são seis anos. Tento ajudar, mas quando sinto que é fora da minha área de competência, encaminho para especialistas”, ressalva.

Covilhã no “timing” perfeito

O ainda médio do Coimbrões explica que a proposta do Sporting da Covilhã para se estrear na II Liga chegou na “altura perfeita”, por dois motivos distintos.

“A oportunidade chega quando acabo o curso e assim não preciso de interromper nada para jogar num nível mais alto. E também é perfeito pela idade. Tenho 25 anos, não é muito cedo, nem muito tarde. Se tivesse ido há alguns anos, poderia ainda não ter o andamento necessário. Mais tarde, se chegasse com 28 anos, por exemplo, a progressão poderia não ser tão alta. Sinto-me preparado para me tentar impor e ainda tenho margem para ir mais longe”, analisa.

Apesar de acreditar que tem, aos 25 anos, plena capacidade para jogar no futebol profissional, Filipe não se deixar iludir. “O ideal é sempre chegar o mais cedo possível”. Ainda assim, define a experiência e o “calo do Campeonato de Portugal” como um período importante no desenvolvimento como jogador.

Esta época, como um dos capitães de equipa do Coimbrões, apontou oito golos em 33 jogos disputados, em mais uma temporada tranquila da formação gaiense, que assegurou a nona manutenção consecutiva no terceiro escalão. Filipe Cardoso não segue sozinho para o Covilhã, que veio ao Coimbrões também contratar o extremo Santiago Silva. A companhia pode facilitar a adaptação e afirmação.

“A minha vida vai mudar 180 graus. Sempre morei aqui em Gaia, a três minutos do campo, com a faculdade, amigos e namorada, e vai ser uma mudança grande. Tendo o Silva comigo, que já conheço e jogo com ele há dois anos, vai ser um apoio muito grande ali ao lado”, explica.

O médio não esconde os medos e ansiedades naquele que reconhece ser um grande salto para o futebol profissional, mas sabe que poderá melhorar a sua capacidade por se tornar profissional, com condições de trabalho favoráveis à evolução.

“Tendo em conta que não somos profissionais, e temos de ter outras ocupações para além do futebol, acho que um jogador quando é profissional terá um redimento de mais 50% ou 60% daquilo que já deu. Mas sei que tudo vai ser diferente, é outra realidade. O passe, o remate, tudo vai mudar. Tenho de me preparar bem para demonstrar a minha qualidade e o futuro só o tempo o dirá”, diz.

I Liga ao virar da esquina

Apesar de admitir o choque de realidade do Campeonato Portugal para a II Liga, Filipe demonstra grande entusiasmo em estrear-se nos campeonatos profissionais: "Quero preparar-me bem fisicamente para conseguir pegar de estaca na pré-época. Se conseguir isso, posso ter logo hipótese de jogar”, afiança.

Otimismo à parte, Filipe sabe que não será, à partida, primeira opção nas escolhas do treinador, Ricardo Soares, também ele novo no clube : “Sei que vou partir de trás, tendo em conta os jogadores que estão há mais tempo no clube e na II Liga, mas isso não me assusta”.

O médio-defensivo não se esconde da luta e pensa já no futuro a longo prazo. Pisar a relva de palcos como o Estádio do Dragão, Luz e Alvalade está entre os planos: “No imediato, penso em ganhar lugar no Covilhã e que as coisas corram bem ao clube e a mim. No futuro, quero chegar à I Liga. Seria um sonho ser um jogador com um curso de medicina na I Liga, era um sonho realizado, nem teria palavras para descrever. Vai ser difícil, mas se conseguir, é o culminar de muitos anos de trabalho”.

Filipe Cardoso quer impor-se no Sporting da Covilhã para sonhar com a I Liga
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10 golos em 2017/18 e oito em 2018/19. Números de destaque para um médio-defensivo que diz não viver obcecado com o golo, mas que podem ter chamado à atenção do clube do segundo escalão.

“Os golos nunca foram um objetivo, sou médio-defensivo, sei que consigo ter uma parte ofensiva, mas a minha mais-valia é defensiva. No ano passado fiz 10 golos, esta época fiz oito. Para além da consistência de ir jogando cada vez mais, o facto de ter juntado os golos ajudou-me também a ter contrato agora no Covilhã”, diz.

Depois de terminar carreira de chuteiras calçadas, Filipe pensa diferente da maioria dos futebolistas. Não quer ser treinador, agente ou dirigente, mas sim aplicar o curso no mundo do futebol. “Quero chegar o mais longe possível no futebol e depois exercer medicina no futebol. Médico de um clube, talvez. O objetivo é conseguir juntar o futebol e a medicina, sempre”, explica.

Por agora, Filipe apenas precisa de entregar o relatório de estágio para finalizar a licenciatura de medicina com média a rondar os 16 valores. Dia 1 julho está marcada a estreia num equipamento de treino do Covilhã, para o arranque dos trabalhos de pré-temporada, sob as ordens de Ricardo Soares.

Apesar de se ter tornado profissional, o médio está ainda a estudar a possibilidade, em diálogo com a direção do clube serrano, de realizar o "Harrison", exame de acesso à especialidade, já na Covilhã, onde poderá prosseguir com os estudos, em paralelo com a carreira de sucesso nos relvados.

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