André Carvalhas: o talento que o Benfica desperdiçou

17 mai, 2019 - 09:45 • Eduardo Soares da Silva

Outrora uma das maiores promessas da formação das águias, o atual avançado do Cova da Piedade recorda a passagem pelo Benfica, as quatro convocatórias para a equipa principal, com José António Camacho, e os três anos com Bruno Lage, nas equipas de juvenis e juniores. André Carvalhas intitula o Benfica de um “campeão super justo”, caso vença o Santa Clara na última jornada.
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André Carvalhas, hoje com 30 anos, é uma das maiores referências da II Liga na última década, com três títulos conquistados. O avançado era uma das pérolas da formação do Benfica, mas nunca teve oportunidade na equipa principal.

Quatro presenças no banco de suplentes foi o máximo que Carvalhas alcançou na Luz, e acredita que, se na altura existisse a aposta na formação que hoje é imagem de marca do clube, a sua carreira poderia ter tomado outro rumo.

Bruno Lage, atual treinador principal do Benfica, é o “homem certo para o cargo”, diz Carvalhas, que foi orientado e moldado pelo técnico durante três temporadas, nas equipas jovens das águias,

Era considerado uma grande promessa do Benfica, mas nunca se estreou pela equipa principal. Acha que poderia ter tido mais oportunidades e outra carreira, se a política de aposta na formação fosse igual à de hoje em dia?

Hoje em dia, as coisas estão mais facilitadas para um jovem do Benfica. Quando fui para o clube, o estádio foi abaixo e nem nem tínhamos campo para treinar. Treinávamos em Odivelas e noutros sítios. Neste momento, o clube tem um centro de estágio com todas as condições de trabalho para os jovens se desenvolverem. Tem um treinador que não tem medo de apostar nos jovens que tenham qualidade e tem uma equipa B, que na altura não tinha. É um conjunto de condições que fazem a diferença e teria sido diferente o meu percurso. Não me lamento por isso, foram alturas diferentes, ainda tive o prazer de estar dois anos no centro de estágio, que foram os meus dois anos de júnior. Nos meus outros sete ou oito anos, foi sempre de casa às costas.

Não chegou a estrear-se, mas foi convocado em alguns jogos por José António Camacho...

Estive dois jogos do campeonato no banco, contra o Marítimo e União de Leiria, e dois jogos da Liga Europa, contra o Getafe. Foram experiências fantásticas. A primeira vez que fui convocado, estava a regressar de Ceuta com a seleção e, na viagem, um diretor do Benfica ligou para me dizer que, mal chegasse, tinha de ir para o hotel onde estava a estagiar a equipa, porque tinha sido convocado. Deixei de treinar com os juniores, já só tinha vida de equipa principal. Depois, voltei para os juniores, para a reta final do campeonato.

Foi treinado por Bruno Lage nos juvenis e juniores. Qual a impressão que tem dele?

Estive três anos com ele, é um treinador fantástico e está a prová-lo. A recuperação do Benfica é prova da qualidade que tem. Já o vinha a demostrar como adjunto e já tinha mostrado como principal, antes de trabalhar com o Caros Carvalhal. É o homem certo para o Benfica nos próximos anos, porque não tem problemas em pegar num jovem de qualidade e colocá-lo a jogar. Sabe que, com a confiança necessária, o jogador pode render. Já sabia há muito tempo que era o homem certo e, felizmente, os responsáveis do Benfica entenderam isso, o que me deixa muito contente.

Recorda-se de alguma conversa com o treinador?

De muitas. Fui para o Benfica como médio centro e, a dada altura, ele achava que eu não era médio. Com as minhas características, dizia que era um “número 10” ou um segundo avançado. Eu achava que não, achamos sempre que somos os entendidos. Uma vez fiquei chateado, porque nunca tinha jogado nessa posição e ele veio ter comigo dizer que eu nunca seria um médio, que com ele só jogava a segundo avançado, que só aí é que me tornaria muito bom. E foi nessa posição que fiz as minhas melhores épocas. Acreditei no que ele disse e confirmou-se, foi aí que fiz a minha carreira quase toda.

Mantêm contacto?

Sim, é ele próprio que quer manter esse contacto com a malta que treinou e com quem se deu bem. Neste momento, posso dizer que temos uma relação pessoal e fico muito feliz com o sucesso dele. O sucesso dele é nosso também, que fomos treinados por ele. Acreditamos todos muito no trabalho dele e o que está a fazer é excecional, na sua primeira época.

O Benfica só precisa de um empate com o Santa Clara, na última jornada, para ser campeão. Acha que vai conseguir?

Acredito que vai ganhar ao Santa Clara, com maior ou menor dificuldade. Os últimos jogos da época são sempre diferentes, com uma tensão um pouco maior, que pode até levar os jogadores a opções menos boas durante o jogo, mas acho que o Benfica vai conseguir ganhar ao Santa Clara e ser campeão.

Será um campeonato renhido, decidido apenas na última jornada. Se o Benfica for campeão, é o justo vencedor?

O Benfica é um vencedor “super” justo. Há que dar mérito à recuperação que fez, esteve sete pontos atrás do FC Porto e conseguiu recuperar. É preciso reconhecer isso à estrutura, equipa técnica e jogadores, não é qualquer equipa que consegue recuperar tantos pontos do Porto, que é outra "super" equipa e que também tem um grande treinador.

Se o Benfica for campeão, vai ligar a Bruno Lage?

Sem dúvida, faço questão quando ele alcança algum feito na carreira. E, se for campeão, é mais um motivo de orgulho para ele e todos nós que já trabalhámos com ele.

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