Reportagem Renascença

Moçambique depois do ciclone Idai. "É uma luta, mas vamos conseguir"

08 abr, 2019 - 11:42 • João Cunha , enviado a Moçambique

Distribuir ajuda e reconstruir o que o Idai destruiu continua a ser um desafio. "Há crianças a morrer à fome", denuncia uma moçambicana na vila de Tica. Equipas médicas estão numa luta contra o tempo face às doenças endémicas que agora ganham terreno, como a cólera, que já provocou pelo menos seis mortos, a juntar às mais de 600 pessoas que morreram na tragédia. Há vários corpos por identificar e vários outros debaixo da lama. Mesmo assim, resilientes, os moçambicanos sorriem.
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Espaço Reportagem em Moçambique do jornalista João Cunha (08/04/2019)
Espaço Reportagem em Moçambique do jornalista João Cunha (08/04/2019)
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Na morgue municipal da Beira não param de entrar familiares das vítimas do ciclone Idai. Amontoam-se mulheres de capulanas à cintura, junto à entrada das salas mortuárias onde vão receber os corpos dos seus parentes. Cantam e choram copiosamente.

Alguns dos que daqui saem para a última morada têm nome, estão registados, são conhecidos das autoridades. Mas muitos outros, os que viviam em zonas rurais, não tiveram a mesma sorte. Foram colocados em valas comuns, ao lado de outros tantos, sem documentos que permitam a sua identificação.

Moçambique. O último adeus a mães, pais e filhos
Moçambique. O último adeus a mães, pais e filhos

Semanas depois da passagem do ciclone Idai, numa altura em que o balanço de mortos já ultrapassa os 600, o Director Nacional de Medicina Legal de Moçambique admite que esse é o grande desafio: registar a população.

"Sabemos que é um desafio que parte da população não tenha nenhum registo, principalmente as crianças", diz Virgílio Seia à Renascença. "Mas mesmo assim, estamos a dar o nosso máximo, no sentido de recolhermos algumas características que possam ser armazenadas em algum documento, para que seja usado a posteriori, caso apareça alguém a reclamar por esses desaparecidos".

Quem ouve atentamente a explicação é Maria Cristina de Mendonça, que coordena a Unidade de Intervenção Forense em Catástrofes do Instituto Português de Medicina Legal enviada para a Beira.

Nos países mais desenvolvidos, utilizam-se outros métodos, impossíveis de aplicar neste contexto. "Não há dados ad mortem, é muito difícil, por exemplo, ter bases de dados de impressões digitais. Temos de utilizar uma metodologia mais simplificada. Mas podemos vir a ter vítimas estrangeiras", reconhece a responsável.

Face a essa possibilidade, a atuação da Medicina Legal terá de cumprir obrigatoriamente os padrões internacionais.

Entre as potenciais vítimas estrangeiras do Idai não há cidadãos portugueses. Há, contudo, alguns que, perante a perda total ou parcial dos seus bens, ou por questões de saúde, quiseram regressar a Portugal. Carlos Trindade é um deles.

"Tenho de ir, vou embora porque tenho de tratar da saúde em Portugal. Espero voltar daqui a um máximo de seis meses."

"A situação está muito crítica em Moçambique". Português regressa a Lisboa
"A situação está muito crítica em Moçambique". Português regressa a Lisboa

Carlos Miroto, de 71 anos, também espera regressar à Beira. Com mais de 55 anos passados em Moçambique, entre a Beira e Milange, na Zambézia, Miroto faz jus ao ditado que diz que uma desgraça nunca vem só.

"Lá em Portugal, em 2017, tudo o que tinha foi com as chamas. E quando lá cheguei à procura de algum apoio, disseram-me que não era residente", conta à Renascença. "Ardeu-me a casa dos meus falecidos pais, eucaliptais, pinhais, tudo. Desapareceu tudo, lá em Santa Comba Dão. Por isso, uma desgraça nunca vem só. Vamos ver o que vem agora a seguir para nos compensar um pouco, não é?"

De Portugal para a Beira, dias antes, chegaram os elementos da Força Conjunta da Autoridade Nacional da Protecção Civil. Homens dos bombeiros, da Força Especial de Bombeiros, da ANPC, da GNR e do GIPS. A força é coordenada por Pedro Nunes.

"Uma das missões está relacionada com o transporte de bens de primeira necessidade a populações que estão ainda isoladas, que precisam de alimentos e água potável para garantir a sua subsistência", explica. "A outra missão é uma de avaliação da situação, coordenada com as autoridades moçambicanas, em que vão ser colocados no ar dois drones, que vieram connosco, para que eles tenham uma perspetiva do ar que ainda não têm."

Pelo ar também foi possível fazer chegar a Buzi um purificador de água trazido pelos portugueses. O equipamento permite produzir 300 litros de água potável por hora, fundamentais para uma população onde essa é uma das principais necessidades.

Moçambique. Como a Cruz Vermelha montou um centro de operações na Beira
Moçambique. Como a Cruz Vermelha montou um centro de operações na Beira

Outra ajuda preciosa às populações afetadas está a ser dada pela Cruz Vermelha Portuguesa. No complexo de saúde do bairro de Macurungo, um dos mais populosos e mais pobres da cidade da Beira, foi instalado um hospital de campanha.

Lara Martins, chefe da missão, confirma à Renascença que já ali aparecerem casos de suspeita de cólera. Também sublinha que são as doenças endémicas as que mais preocupam os especialistas.

"O maior risco, neste momento, são as doença endémicas, nomeadamente a cólera. Há dois dias apareceram aqui quatro casos suspeitos. Os nossos médicos e enfermeiros assistiram esses doentes e reencaminharam-nos para o centro de cólera que existe aqui ao lado, promovido pela UNICEF."

Noutro bairro, o de Manga Nhanconjo, é a AMI - Assistência Médica Internacional que presta auxílio, com um hospital de campanha onde funciona um centro de tratamento de cólera. Fernando Nobre, presidente da AMI, está num orfanato das Irmãs de São José de Cluny a preparar cabazes de emergência alimentar, para entregar a famílias da região.

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Orfanato das Irmãs de São José de Cluny, na Beira, prepara cabazes de emergência alimentar.

"Estamos com uma equipa médica no centrro de saúde da Manga, um centro de saúde com imensas necessidades. Aqui estamos a completar cabazes junto das freiras de São José Cluny, da paróquia de São José, que apoiamos há muitos anos. Vamos distribuir cabazes a cerca de 500 famílias, e estamos a fazê-los com a ajuda de voluntárias portuguesas. É uma luta, mas vamos conseguir."

Força conjunta portuguesa em Búzi presta "auxílio notável à população"
Força conjunta portuguesa em Búzi presta "auxílio notável à população"

Buzi está a uma hora de distância de barco a partir da Beira, alguns metros acima do nível do mar e das águas do rio Buzi, que dá nome à vila. Apesar da altitude, as chuvas que acompanharam o ciclone Idai destruíram a região, deixando-a isolada.

Na noite do ciclone, as águas do rio Púnguè, mais a norte, entraram pelo município adentro, juntaram-se às do Buzi e, de repente, nasceu um mar que tudo inundou e destruiu.

No agora improvisado porto de Buzi, por onde tem chegado ajuda humanitária, Pinho Araújo Alfândega olha, incrédulo, para o rio. "Foi muito complicado, porque surgiu quando eram mais ou menos 21h50", relata à Renascença. "As águas já estavam no terreno, às portas das casas das pessoas que fugiam. Quem fugia mais era a pessoa que estava muito próxima do rio."

Tal foi a força das águas, explica o delegado marítimo em Buzi, que até geograficamente toda aquela região mudou.

"Com a quantidade de água que surgiu, penso que geograficamente [a zona] vai mudar. O que era rio fica sem rio e o que rio não tinha passou a ter. Está muito aberto."

Manhate
"Se não fosse o alerta, a água chegava enquanto nós estávamos a dormir", diz Fernando Manhate, residente em Búzi

Na vila, ou no que restou dela, está Fernando Manhate. Encostado do lado de lá do balcão, tem atrás das costas dezenas de artigos elétricos: tomadas, fichas, cabos e disjuntores, todos meio sujos de lama.

Quando o Idai aterrou, lembra Manhate, as pessoas "saíram das casas e foram para locais seguros, altos, e se não fosse o alerta, a água chegava enquanto nós estávamos a dormir". O governo local, na noite antes da tragédia, fez circular um automóvel com um sistema de som, dando conta da subida repentina do caudal do Buzi ao longo das horas seguintes.

Um alerta que não chegou a zonas mais a montante, tanto do Buzi como do Púnguè. Com a subida dos rios, e apanhadas de surpresa, as populações das zonas rurais fugiram para a estrada nacional 6, que liga a Beira à fronteira com o Zimbabué e que, em algumas zonas, como a oeste de Mafambisse, mais parecia uma ponte, tal a quantidade de água trazida pelas chuvas.

Os terrenos alagados, desde Mafambisse a Lamego, bem como em Buzi, são de cultivo de cana da Companhia Moçambicana de Açúcar, que ainda não fez as contas ao prejuízo.

Arranca a vacinação contra a cólera em Moçambique. INEM está no terreno para ajudar
Arranca a vacinação contra a cólera em Moçambique. INEM está no terreno para ajudar

No centro de saúde local, próximo da fábrica de transformação da cana em açúcar, a enfermeira Olga João Mutepa não tem mãos a medir.

Há dezenas de doentes à espera para serem observados, no exterior da pequena sala de triagem. Muitas crianças gemem de quando em vez, com dores de barriga e febre. Na mesa instalada à entrada da sala, há dezenas de frascos com medicamentos, que são ministrados à dose, e testes rápidos de malária, usados em quase todos os doentes.

A cólera começa a chegar. Mas é a malária que já atinge muitos, "principalmente crianças", explica Joana Mutepa à Renascença. "Neste momento, sabe-se que com essas cheias eles vivem sem rede (mosquiteira) e temos tido muitos casos de malária, mesmo". Sobre a cólera, a enfermeira entra na defensiva: "Temos muitos casos de diarreia."

É ao lado do centro de saúde que os portugueses do INEM instalaram o seu módulo de emergência médica, com um total de 28 profissionais. A médica Paula Neto, que coordena a equipa, acredita que vão "atuar mais na área do ambulatório", onde a equipa tem "capacidades de rádio-X e de pequena cirurgia".

Uma mulher que sai do centro de saúde com o pequeno Luís, de 4 ou 5 anos, pela mão, interrompe a conversa. De cabelo rapado, o menino tem na cabeça, por cima da orelha esquerda, umas bolhas brancas que a enfermeira de serviço não conseguiu identificar. Por isso o mandou vir mais tarde, quando houvesse um médico de serviço.

Uma médica do INEM observa as bolhas - e acalma a mãe do menino. É só um herpes, que surgiu numa zona diferente da habitual. O Luís e a mãe saem do recinto do centro de saúde e a médica revela a possível causa do diagnóstico: HIV, que aos poucos rouba as imunidades, permitindo que até um simples herpes assuma proporções diferentes das normais.

Mais uns quilómetros pela estrada nacional 6, para noroeste, e surge a vila de Tica. No pátio do edifício onde funcionam os caminhos de ferro, mesmo à beira da estrada, há um pequeno jardim com relva, sobre a qual há dezenas de peças de roupa a secar ao sol. O edifício, pequeno, serve agora de refúgio a cerca de 200 pessoas. Sem água, sem comida, sem ninguém que os ajude - apesar de estarem contactáveis por via terrestre.

Moçambique. "Estamos com fome e não temos sítio para dormir"
Moçambique. "Estamos com fome e não temos sítio para dormir"

Joana Cachama coloca no chão um menino de pouco mais de um ano. Diz que tanto ela como as crianças têm fome.

"O governo não está a ajudar em nada. Tem fome aqui. Desde a semana passada que as crianças estão a morrer com fome."

Próximo de Joana, nas escadas de acesso ao interior do edifício, está Domingos Caetano, um jovem que aparenta ter perto de 30 anos e que está de sorriso nos lábios, uma característica comum à maioria dos moçambicanos apesar da tragédia que enfrentaram.

"O ciclone destruiu tudo o que eu tinha", lamenta à Renascença. "Estou desmoralizado. Perdi a minha esposa e o meu filho. Quando a casa caiu, eles estavam lá dentro. Perderam a vida."

Mais para Noroeste, já a mais de 100 quilómetros da Beira, surge a vila de Nhamatanda. À chegada, dezenas de camiões passam pelas portagens desta estrada em direção à Beira. Depois de duas semanas fechada, houve troços

A estrada esteve duas semanas fechada, porque houve troços inteiros que as cheias destruíram.

Moçambique. Camionistas ficam mais de 10 dias retidos na estrada, sem água nem comida
Moçambique. Camionistas ficam mais de 10 dias retidos na estrada, sem água nem comida

Reabre agora, mais de duas semanas depois. Um alívio para Eduardo Malunga, um dos muitos camionistas que ali ficaram retidos dias a fio.

"Estive sem nada. Era uma coisa triste. De repente, vínhamos do Zimbabué quando chegámos à fronteira e percebemos que não conseguíamos avançar. Tentámos vir para cá, depois de uma noite em Chimoio, e fiámos dez dias retidos na estrada. Hoje finalmente vamos passar."

Não muito longe, sentado no que resta de um dos postes de iluminação pública deitados por terra pelos ventos do Idai, está João Manuel. de 15 anos mas já com muitas estórias para contar. "Vi quatro pessoas mortas, deixadas na beira da estrada. Muitas pessoas morreram nestas zonas."

Já passaram quase duas semanas, mas os efeitos do Idai ainda são visíveis. Há ainda terrenos alagados, casas sem telhado, chapas retorcidas com a força do vento, que agora balançam nos cabos de eletricidade onde acabaram presas, e muitas árvores arrancadas pela raiz.

Em Ponta-Gea, outro dos bairros da Beira, está instalado o Paço Episcopal, junto à Catedral.

A palavra que mais se ouve "entre os fiéis", revela o arcebispo da Beira, "é fome".

D. Cláudio Dalla Zuana considera que a desgraça pode tornar-se numa oportunidade de crescimento. Que é preciso ajudar a população a melhorar a qualidade das habitações, criando estruturas mais seguras, construídas com mais do que chapas, barrotes de madeira, adobe e capim - como até aqui.

Falta alguma organização, confessa D. Cláudio Dalla Zuanna, lamentando os boatos que têm surgido entre a população e feito com que alguns corram de um lado para o outro à procura de ajuda alimentar que não está onde se diz, ou de assistência médica que, afinal, está fora da cidade, nos subúrbios.

A estes somam-se outros boatos que indicam que há centena de mortos lá para o interior, para Manica.

Celso Correia, ministro da Terra e do Ambiente, que coordenou dias a fio a operação de ajuda humanitária, desconhece essa informação e apelas a que seja transmitida ao Governo.

"Se têm informação dos óbitos do desastre, devem contactar as autoridades mais próximas para a gente aferir e fazer o nosso trabalho", sublinha em conversa com a Renascença.

Outros boatos dão conta de falhas na entrega de alimentos, reforçam as dúvidas quanto ao destino a dar às mais de 20 mil toneladas de alimentos que já chegaram à Beira.

Uma moçambicana, natural da cidade, pede o óbvio face à incógnita. "Que haja transparência. É necessário que façam as doações pessoalmente, para garantir que isso chega. Porque no final do dia não chega nada. Aqui no Dondo há pessoas afetadas e a ajuda não chega. Devem acompanhar isso. Quem oferece fá-lo do fundo do coração. Deus indicou os nossos irmãos para dar aos mais necessitados. Falta transparência, não é assim?"

Quase um mês depois das cheias provocadas pelo ciclone Idai, ainda há populações onde a ajuda alimentar não chegou. E surgem os primeiros relatos a dar conta de que alguns desses produtos alimentares, oferecidos às vitimas, estão a aparecer à venda no Goto, no Chingussura ou no Munhava, alguns dos mercados da cidade da Beira.

O ministro Celso Correia admite a necessidade de gerir, de forma responsável, essas ajudas e promete vigilância.

"Temos de ter atenção no processo de gestão. Pode haver roubos ou outro tipo de situações e as instituições estão conscientes disso. O Instituto Nacional de Gestão de Catástrofes tem um mecanismo de auditoria para conferir a transparência que se deseja. Por isso penso que não há motivo nenhum de preocupação por parte das pessoas. Mas estaremos sempre vigilantes."

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