Manifestação da PSP: “Os gatos também são muito amigos dos donos, mas se forem encostados à parede reagem”

Manifestação da PSP: “Os gatos também são muito amigos dos donos, mas se forem encostados à parede reagem”

14 mar, 2019 - 00:30 • João Carlos Malta , Joana Bourgard

Cerca de mil polícias desfilaram pelas ruas de Lisboa, num protesto marcado pelo silêncio. Medidas de segurança apertadas revoltaram os manifestantes. “Tratam-nos como terroristas”.
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O dia anterior à manifestação nacional dos polícias foi marcado pela decisão do Tribunal Administrativo de Lisbo de proibir o uso da farda no desfile que ocorreu esta quarta-feira. Ao fim da tarde, quando os manifestantes se começaram a juntar nas imediações da sede da direção nacional da PSP, uma outra proibição não judicial parecia estar muito presente. A cada tentativa de entrevista, a mesma resposta: “O melhor é falar com os organizadores. Obrigado, mas eu não falo”.

Uma, duas, três negas e, finalmente, alguém fala: um dirigente sindical. É Carlos Meireles, presidente do Sindicato Nacional dos Chefes da PSP. Começa a explicar que a decisão de proibir o uniforme foi “lamentável”.

“Assim, poderíamos controlar melhor a manifestação e evitar infiltrados”, explica. Mais tarde, vai contextualizar o temor com as informações que circularam de que os coletes amarelos poderiam entrar no cortejo.

Há uma outra irritação que invade a conversa. A informação de que estava montado um grande aparato de segurança junto ao Ministério da Administração Interna, no Terreiro do Paço, rapidamente percorreu os quatro quilómetros que separavam os locais do fim e do início da manifestação.

“Tratam-nos como a qualquer meliante, é lamentável o que o Comando de Lisboa e a Direção Nacional da PSP estão a fazer”, critica Carlos Meireles.

“Como é óbvio, vamos cumprir a lei”, garante. A mesma lei que diz que o Governo não respeita ao não cumprir decisões dos tribunais que repõem direitos aos polícias. O ambiente no seio das forças de segurança é tão grave, há “tanto desespero”, que o sindicalista usa uma metáfora.

“Os gatos são felinos que são amigos dos donos, mas se forem encostados à parede reagem”, explicando depois que, no seu entender, a imagem ilustra na perfeição o momento que atravessa a relação entre os polícias e o Estado.

Apesar de daí a pouco ir liderar a manifestação, onde empunhará uma das tarjas com outros líderes dos 11 sindicatos presentes, ao ser questionado sobre as expetativas para o protesto, Carlos confessa: “Nada. Esta é uma legislatura perdida. Não temos ministro da Administração Interna”, remata.

Cafés cheios, reencontros e a mini

Ainda falta quase uma hora para que o desfile comece. Os cafés da zona têm um dia em cheio, e estão cheios. Cada autocarro que chega, são mais dezenas de potenciais clientes com fome e sede. Há que “alimentar” os ânimos para uma caminhada que vai durar uma hora e meia. A “mini” é rainha nos copos e o salgado aconchega os estômagos.

O ambiente é muito sereno. De vez em quando uma voz eleva-se: “Olhó Martins”. Uma manifestação também é um espaço de reencontros. Há que pôr a conversa em dia.

A poucos minutos de começar, nova investida para perceber se desta vez há quem tenha vontade de falar. “Boa tarde, sou jornalista gostava de fazer umas perguntas…”. “Olhe eu não, mas aqui o Martins, sim”.

Rui Martins tem 49 anos, polícia há 27 anos, e muitas manifestações nas pernas. Nem os mais de 350 quilómetros que separam a capital da Guarda, onde trabalha, o demovem de ser um “habitué” destas andanças.

“Há dinheiro para tudo, só não há para os polícias e as nossas reivindicações”, atira logo Rui.

E as reivindicações eram desta vez, sobretudo, três: os polícias exigem a recuperação dos 12 anos em que as carreiras estiveram congeladas, entre 2005 e 2017, um regime de aposentação e pré-aposentação adequado à profissão policial e o subsídio de risco.

A conversa diverge de seguida para o tema do dia, pelo menos para os polícias. O DN noticiou que há um pacto secreto entre PSD e PS para fazer uma nova lei sindical para as forças de segurança.

Martins também acha que há sindicatos a mais. “É uma evidência. Não concordo que haja sindicatos com 50 sindicalistas e zero associados. Só querem os créditos”, condena o agente que é membro do Sindicato de Profissionais da Polícia (SPP).

Lamenta que haja uma polícia a duas velocidades: a dos chefes e a dos operacionais. “O meu chefe diz que para eles também não há progressões. Não há? Ele em oito anos chegou a superintendente. Por cada progressão que teve, são mais 300 euros. Eu estou no mesmo ponto há 20 anos”, afirma.

O tema da farda na manifestação, leva Martins a revoltar-se. Diz que os polícias são discriminados. “Os bombeiros manifestam-se de uniforme. Os militares também”, enumera.

Isso leva-o ao descontentamento seguinte, que nada tem a ver com dinheiro. O tema é proteção. “Quem é que defende o polícia?”, pergunta. Mais tarde vai perceber-se que essa é uma das frases fortes do desfile.

Rui responde. “Ninguém”. E esse abandono é personificado em Marcelo Rebelo de Sousa e a ida ao bairro da Jamaica, no Seixal. “Foi lá tirar selfies com criminosos e depois diz que não pede o registo criminal para tirar fotos”, recrimina. E a seguir lamenta a dualidade de tratamentos: “Mas não foi ao hospital visitar o polícia ferido”.

Rejeita que haja racismo na Polícia e usa um argumento pessoal: “Eu tenho amigos pretos. Não acho que haja discriminação, nem racismo como se diz que há. Há agentes que são de cor. Nem sei se posso dizer isto assim, senão chamam-me racista”.

Um carro, uma coluna, um silêncio

Passa pouco das 18h30 e a manifestação arranca. Na cauda do protesto, os temas não são sindicais. O futebol domina: “Ganda Benfica, pá”, diz um agente em tom irónico. “E o Lage??”

Se alguém esperava que houvesse agitação ou ânimos exaltados, enganou-se redondamente. De vez em quando um grito de um polícia mais agitado: “Mas isto é um enterro ou quê?” “Epá façam barulho”.

Ainda consegue uma reação de cinco segundos, mas logo afrouxa.

Avançando até à cabeça da manifestação, o silêncio apenas é interrompido pelo sistema de som que vem de uma coluna com uns néons que está no carro que lidera o desfile. Mesmo assim os decibéis não são muitos, mas são os suficientes para se ouvir o instrumental de uma música pouco comum em protestos policiais: “Show must go on”, dos lendários Queen.

As palavras de ordem são os da praxe: “Polícias unidos jamais serão vencidos” e “Governo escuta, os polícias estão em luta”.

Há dois animadores de serviço: uma agente com uma folha escrita à mão onde lia as três perguntas que exigiam resposta dos manifestantes. Ao lado tinha a ajuda de um agente com um chapéu de xerife:

- “Quem é que defende o estado de direito?”

- “Os polícias”.

- “Quem é que defende a segurança?”

- “Os polícias”.

- “Quem defende os polícias?”

- “Ninguém”.

Novo salto até aos elementos que fecham o cortejo, e há uma imagem que não passa despercebida: um mastro imponente e uma bandeira de Portugal a esvoaçar nos ares. O chapéu da Marinha na cabeça, que o agente Pedro Cruz irá depois explicar, e óculos de aviador compõem o resto do aparato cénico.

“Fui militar e dou muita importância aos símbolos nacionais”, explica o polícia, quando questionado sobre o porquê da bandeira. “Jurei defender as liberdades e garantias dos portugueses defender a bandeira. Tenho muito orgulho na bandeira”, acrescenta.

Pedro explica que o chapéu é uma homenagem ao avô que era da Marinha, e não se importa que confundam o seu discurso com a retórica nacionalista.

“Sou uma pessoa muito multicultural. A minha mulher é cabo-verdiana. Agora se acho que os portugueses que vão para fora têm de respeitar quem lá vive, quem vem para cá também tem de aceitar os nossos valores. Temos de defender o nosso país”, conclui o agente de 37 anos, a prestar serviço em Cascais.

“Tratam-nos como terroristas”

Quase 20h00, e a chegada ao Terreiro do Paço está por minutos. Em frente ao ministério estão barreiras de betão e grades com mais de dois metros.

Do lado de dentro, uma força policial bem visível e musculada. O aparato revolta os polícias que estão do lado de cá. Vítor Pereira, presidente do Sindicato Vertical de Polícias, não cala a indignação.

“Tratam-nos com terroristas. As barreiras que aqui estão só são usadas quando há ameaças terroristas”, explica. “É assim que a Direção Nacional e o MAI nos veem. Entristece-me”, acrescenta.

Vítor Pereira diz que a manifestação, em jeito de balanço, diz que a manifestação não foi ruidosa, porque “não há nada para festejar”.

Diz que o momento é de grande angústia, e que a ação do colega Peixoto Rodrigues, da FENPOL, que começou uma greve de fome, tem a solidariedade de todos. “Em primeiro porque está a pôr a integridade física em risco, mas neste momento tudo é útil para sermos ouvidos”, explica.

Noutro campo de batalha, já antes a meio da tarde, as declarações de Paulo Rodrigues à Renascença tinham inflamado o meio sindical. As palavras do líder do maior sindicato da PSP, a ASPP (Associação Sindical dos Profissionais de Polícia), não caíram bem.

Paulo Rodrigues falou de sindicatos que não são criados para fins sindicais, mas apenas em proveito próprio dos seus dirigentes.

“Ele devia era falar do seu sindicato, e não do dos outros”, começou por criticar Vítor Pereira, apesar de concordar que há organizações sindicais a mais na Polícia. “Ele tem de explicar é porque é que não está aqui. Foi convidado, e não está aqui. Há que dizer que se há sindicatos pequenos e se têm mais filiados é porque não se revêm no que faz o maior”, avança numa critica direta a ASPP.

Em relação ao excesso de organizações sindicais, diz que havia uma solução: “Se o MAI nos tratasse com dignidade, os sindicatos extinguiam-se naturalmente”, explica.

Naquele momento, o protesto organizado por 11 dos 17 sindicatos da PSP começava a desvanecer. Os manifestantes viraram as costas ao ministério em sinal de protesto. Cantaram o hino, e prometem não ficar por aqui.

A luta dos polícias tem novo capítulo e é já amanhã. Às 15h00, uma delegação sindical a entregar ao Governo o caderno reivindicativo. Será que o ministro Eduardo Cabrita dará ouvidos ao que vai ler?

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