500 anos da viagem de circum-navegação

O que tem hoje Fernão de Magalhães para dar ao mundo?

22 fev, 2019 - 12:30 • Olímpia Mairos

Dois historiadores espanhóis, um escritor português e, ainda, o autarca do município de onde, provavelmente, Magalhães era oriundo olham para o legado do navegador.
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Quem era, afinal, Fernão de Magalhães e o que tem hoje o navegador para dar ao mundo? A Renascença foi à procura de respostas junto de dois historiadores espanhóis - Juan Marchena Fernandez, especialista em história da América e professor da Universidade Pablo de Olavide, em Sevilha, e José Manuel Nuñes de La Fuente, antropólogo, licenciado em História e Geografia pela Universidade de Sevilha e secretário-geral da Rede Mundial Magalhânica - e com o escritor português Gonçalo Cadilhe, que fez a rota de magalhães para escrever um livro sobre o navegador.

Juan Marchena Fernandez diz que “Magalhães foi uma personagem fundamental na sua época, uma referência e um produto de uma geração muito especial da história de Portugal, da história do ocidente”.

O investigador não pouca nos elogios ao navegador português: “Deu ao mundo um planeta”.

“A viagem de Magalhães põe em circulação no mundo ocidental dois terços do planeta. E um planeta de água, não um planeta de terra. Portanto, um mar imenso para navegar, um planeta azul, o mar e, através desse mar, poder-se chegar a qualquer parte do planeta”, reforça

“Vivemos um processo de globalização que já tem cinco séculos de história, para o bem e para o mal. Assim tem que ser entendido Magalhães, com todas as contradições da personagem e da época”, defende Juan Marchena Fernandez.

“Magalhães não é apenas um aventureiro, é um grande conhecedor do planeta, da ciência de navegar, da ciência de localizar-se num lugar concreto do planeta, através das estrelas, e é uma pessoa que conhece a geografia. E, portanto, é uma espécie de científico que quer completar o seu projeto pessoal de glória, fama e, também, riqueza”, explica o especialista em história da América.

Com Fernão de Magalhães “deixamos de ter território para ser um ‘maritório’”, observa o investigador, explicando que “os territórios têm as suas lógicas, já as conhecemos bem, e pouco conhecemos dos oceanos que são a maior parte do nosso planeta". Nesse sentido, “Magalhães pode servir para começarmos a entender que os oceanos também têm história e que são um mundo extraordinário, que são parte da humanidade”.

Magalhães ensinou muito ao mundo, sobretudo, ensinou o conhecimento, a necessidade de conhecimento. “Sem conhecimento, Magalhães não teria chegado a nenhum lugar. O navegador teve que lutar contar gregos e troianos, para conseguir levar por diante o seu projeto pessoal, que conseguiu transformar num projeto coletivo”, observa.

Apaixonado pela figura de Magalhães, o professor espanhol entende que o mundo deve aprender de Magalhães a capacidade de sonhar. “Sonhar um futuro melhor, sonhar um mundo diferente, sonhar uma construção do planeta, entendendo que todos estamos dentro dele, somos uma espécie de bola azul em que todos somos responsáveis por todos nós”, defende.

Ao serviço de duas coroas

José Manuel Nuñes de La Fuente, historiador espanhol que estudou Magalhães durante 30 anos, afirma que o navegador “é uma das grandes personagens da história, o homem que revelou o mundo que conhecemos hoje em dia”.

O historiador, que conhece todo o espólio documental do Arquivo das Índias, em Sevilha, e muitos outros documentos espalhados pelo mundo, além de ter feito a mesma viagem de três anos de circum-navegação num veleiro, passando por todas as cidades onde Magalhães aportou, considera que a circum-navegação “foi um acontecimento que se deve à coroa de Portugal e à coroa de Castela”.

“A viagem foi organizada e financiada pela coroa de Castela, logicamente pelo Rei Carlos I, que tinha um interesse enorme em chegar e controlar e demonstrar que as ilhas das especiarias, as Molucas, pertenciam a Castela. Mas não restam dúvidas, sob o ponto de vista da história, que todo o conhecimento, toda a investigação, toda a inovação que se aportou para esse fim - é o paradigma - tem a ver com toda a indústria, com todo o conhecimento e com toda a experiência que os portugueses puseram nas suas rotas até à India e também para o Ocidente”, explica.

“A competência por controlar o mundo deu lugar a esta grandíssima façanha.”

José Manuel Nuñes de La Fuente lembra que Portugal que era um país pequeno, que só podia olhar para o ocidente, para o oceano, porque, para outro lado, dificilmente, devido às fronteiras, podia expandir-se. E Portugal teve a genial visão, já a partir do século XVI, de saber que o futuro do país, o futuro da sua sociedade, das suas pessoas estava, logicamente, no mar”.

A primeira viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães resulta, por isso, “da combinação da competência entre dois povos, o português e o castelhano, que deram as mãos e partilharam competências, conhecimento, a náutica, a cartografia, a astronomia e, por outro lado, a competência entre dois grandes reinos, o Português e o Espanhol, o Castelhano”.

“Essa competência por controlar o mundo, que era controlar as especiarias, foi o que deu lugar a esta grandíssima façanha de Fernão Magalhães”, diz.

A façanha “demonstrou que o mundo era apenas um e, ao mesmo tempo, partilhado por muitos povos, de diferentes credos, diferentes comportamentos e cosmovisões”. E a grandeza de Magalhães está precisamente “no conceito de multiculturalidade”.

Este conceito “surge aí, de maneira inconsciente, porque, na altura, não havia capacidade de teorizar. Mas é verdade que desde esse momento todo o ocidente se deu conta de que o mundo era comparticipado por muitíssimas culturas e isso deu lugar a algo muito importante, os intercâmbios de conhecimentos, em matéria de mercadorias e também em termos religiosos”, observa o antropólogo e historiador espanhol.

Celebrar os 500 anos da viagem de Magalhães é, para Nuñes de La Fuente, um desafio e uma oportunidade para “dialogar uma nova configuração do mundo, mas, também, dialogar ao nível do conhecimento, da diversidade cultural, da diversidade paisagística”.

“E o mais importante que temos que perceber, no momento que nos cabe viver, são todos os valores que se depreendem dele. A capacidade de um entendimento mútuo entre os diferentes povos que habitam no planeta, um enfoque plural da história e uma abordagem da paz que, para mim, é o mais importante. Não falamos em termos de competição, em termos de conflito, mas de respeito de uns pelos outros, logicamente para dialogar e para entender que a única saída que tem o mundo é a paz”, defende.

A morte do herói terá sido pelo filho ilegítimo?

A morte de Fernão de Magalhães, ocorrida na batalha de Cebu, nas Filipinas, em 1521, tem levado muitos a questionar-se: como é que um capitão-general com a experiência de Magalhães se expôs daquela forma, desembarcando com umas dezenas de homens em terra desconhecida para acabar surpreendido e encurralado por centenas de guerreiros filipinos? O historiador mostra-se convicto de que Magalhães “levava a bordo um filho ilegítimo” e que teria sido “para o salvar”, na frente de batalha, que se expôs de forma tão imprudente.

“Uma pessoa extremamente calculista, que queria glória e fortuna, não tinha qualquer intenção de morrer em Mactan. Além disso, Magalhães tinha a guarda Pretoriana que sempre o protegia. Só se entende, por isso, que tenha morrido a acudir ao filho ilegítimo, Cristovão Rebelo, para o salvar na frente da batalha”, argumenta o estudioso espanhol.

O confronto, ocorrido a 27 de abril de 1521, opôs 50 espanhóis comandados por Magalhães a cerca de 1.500 guerreiros da ilha. O cronista António Pigafetta fez o relato presencial do que se passou: as condições da praia impediram os espanhóis de utilizar a artilharia e obrigaram-nos a desembarcar, tendo sido atacados de imediato.

“Nos passos de Magalhães”

Gonçalo Cadilhe é autor do livro “Nos passos de Magalhães”, uma obra de viagens que tem como fio condutor a vida de Fernão de Magalhães. E, para isso, Cadilhe viajou de Lisboa às Filipinas, da Micronésia à Patagónia, de África à Insulíndia. E assim, “tocando a mesma terra onde ele terá tocado” ouviu falar do navegador e construiu uma biografia itinerante do primeiro europeu a chegar ao Pacífico, reconstruindo a viagem realizada há 500 anos.


“O que mais me toca em Magalhães, é a centelha frágil que é a vida humana, confrontada com a imensidão do planeta, a universalidade, essa vontade de conhecer o desconhecido”, conta à Renascença.

“Nós, hoje, sabemos tudo ou quase tudo sobre o planeta terra. O Magalhães atira-se à maior aventura de sempre sem saber nada. Aquele homem de coragem, arrisca-se, vai pelo desconhecido e descobre, para a europa e para a humanidade, a metade desconhecida do globo. É o que mais me impressiona”, sublinha.

Licenciado em Gestão de Empresas, Gonçalo Cadilhe, organiza e acompanha mini-tours pelo globo. Em 2020 vai acompanhar, durante quase um mês, uma viagem de volta ao mundo.

“Vai ser o relembrar dessa grande aventura que foi a volta ao mundo do Magalhães, um homem que pertence a uma classe extraordinária de seres humanos, de europeus que nos distinguem das outras culturas e dos outros continentes”, diz.

À boleia de Magalhães com o navegador como fonte de inspiração

Independentemente de Fernão de Magalhães ter nascido ou não em Sabrosa, o presidente da autarquia, Domingos Carvas, tem o navegador como inspiração e quer aproveitar as comemorações para continuar a trazê-lo à ribalta, porque “é com estes faróis, com estes valores, com estas bandeiras que nós nos inspiramos para o trabalho árduo que temos e vamos continuar a ter”.

O autarca enfatiza o feito do navegador, “o homem da globalização, o homem que deu luz o novo mundo, o homem que conseguiu transformar um planisfério num globo, o homem que nos trouxe conhecimento de marés, dos ventos, das correntes” e dele quer “aprender e alargar horizontes para que Sabrosa continue nas bocas do mundo”.

Em Sabrosa, comemorações dos 500 anos da primeira viagem de circum-navegação protagonizada por Fernão de Magalhães já arrancaram e o cortejo de Carnaval, por exemplo, este ano será alusivo à viagem de Magalhães, uma iniciativa que está a ser preparada em conjunto com o agrupamento de escolas.

Ao longo do ano, será também apresentada uma peça de teatro sobre o feito magalhânico e, na edição 2019 do Festival Literário do Douro (FLiD), os autores convidados serão provenientes das cidades tocadas pela viagem de Fernão de Magalhães.

A iniciativa Sabrosa Summer Fest, que decorre entre agosto e setembro, associa-se também às comemorações e será ainda lançado merchandising, bem como colocados múpis (mobiliário urbano para informação) e bandeiras alusivos aos 500 anos.

Em setembro, será inaugurada uma exposição internacional que vai ampliar o centro interpretativo e que vai retratar as culturas e saberes dos territórios tocados na viagem de circum-navegação.

“Um leque de vinhos especiais”

A Adega de Sabrosa já possui a marca de vinhos “Fernão Magalhães” e associa-se ao evento dos 500 anos da viagem de circum-navegação com “um leque de vinhos especiais”. Recentemente, foi lançado um espumante bruto, mas “lá para abril” vai lançar vinho muito especial para uma ocasião especial”. Será um vinho do Porto reserva especial, o vinho oficial das comemorações dos 500 anos da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães”, conta a diretora da adega, Celeste Marques.

Para produzir o vinho “Fernão Magalhães - 500 anos”, além das castas selecionadas, Celeste Marques explica que foi “necessário muito carinho e o sexto sentido das mulheres”, revelando que a equipa técnica da adega é feminina.

A enóloga refere o “enorme orgulho em ter uma marca com um nome muito grande, que reflete um dos maiores feitos da nossa história. Um nome, um homem, que nos inspira com a sua força, a sua criatividade, a sua visão”.

A adega de Sabrosa tem 600 associados, “todos pequeninos, quase todos de muita idade e todos eles têm um espírito muito grande, de luta, porque, de facto, é preciso um esforço muito grande para ser viticultor no Douro, as vinhas são pequenas, é tudo em socalcos e eles, com o espírito de Magalhães, criam e vindimam as suas uvas com muito carinho. E o nosso vinho tem tido imensas medalhas de ouro”

A diretora e enóloga da Adega de Sabrosa sublinha que a estratégia para o sucesso consiste em juntar “a história à inovação” e, para isso, a adega todos os anos lança novos produtos no mercado. E o nome do navegador “está a ajudar na internacionalização”.

“Tal como Magalhães deu a volta ao mundo, também nós queremos que os nossos vinhos cheguem a todo o mundo”.

A cooperativa de Sabrosa recorre às novas tecnologias, mas mantém uma forma antiga de vinificar alguns vinhos. Trata-se, segundo Celeste Marques, de ânforas argelinas [cubas de betão] auto-vinificadoras que “fermentam sozinhas”, podendo os visitantes ver “o mosto a fermentar, o que não acontece com as cubas de inox fechadas”.

E são cada vez mais os turistas que, estando em Sabrosa, não perdem a oportunidade de visitar a adega para provar os vinhos e conhecer a história da vila associada a Fernão de Magalhães.

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