500 anos da viagem de circum-navegação

Portugal inteiro vai assinalar o feito de Fernão de Magalhães

22 fev, 2019 - 12:30 • Olímpia Mairos

As comemorações da viagem de Magalhães começam este ano e prolongam-se até 2022, em Portugal e em muitos outros pontos do mundo que o navegador português "uniu de ponta a ponta". Um dos sonhos dos programadores é levar o Papa à Baía de San Julián, na Argentina, para celebrar uma missa, 500 anos após a primeira aí rezada pela expedição de Magalhães.
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O presidente da Estrutura de Missão para os 500 anos da viagem de circum-navegação comandada por Fernão Magalhães, José Marques, revela à Renascença que a matriz definida para as comemorações é a promoção de uma "semana de Magalhães" em cada um dos municípios de Portugal, ao longo dos próximos três anos.

O programa das comemorações quer envolver toda a comunidade e já na sexta-feira, 1 de março, vai ser feita a apresentação pública do programa do Ministério da Educação, em Vila Real.

O feito do navegador português começa a ser assinalado este ano, prolongando-se até 2022, à escala global. Um dos sonhos de todos os envolvidos na Rede de Cidades Magalhânicas é que o Papa Francisco vá, em 2020, à Baía de San Julián, na Argentina, celebrar uma missa, 500 anos após a primeira aí rezada pela expedição de Magalhães.

Magalhães, "filho" de Sabrosa

Há quem diga que José Marques é o “pai” do Magalhães. Não porque o tenha gerado, mas, sim, porque, enquanto presidente da Câmara de Sabrosa, município que geriu durante 11 anos, José Marques fez de Fernão de Magalhães a sua inspiração, para diferenciar o concelho e dar início a uma estratégia de desenvolvimento do território. E foi graças a ele que o país voltou a ouvir falar do português que fez do “mundo a casa da humanidade”.

“Magalhães serviu como inspiração para promover o território no contexto regional, nacional e internacional. Quisemos fazê-lo de forma partilhada, envolvendo a comunidade, outras instituições, outros atores, os empresários, as universidades, mas é verdade que Sabrosa cedo percecionou, interpretou, que Magalhães é uma marca em termos mundiais, é uma marca poderosíssima”, diz à Renascença o antigo autarca, agora presidente da Estrutura de Missão para os 500 anos da viagem de circum-navegação.

Sabrosa é tida por muitos como a terra-natal de Fernão de Magalhães, mas outros municípios reclamam o estatuto. José Marques evita polémicas: “O importante é que Fernão de Magalhães é português e é uma figura incontornável da história da expansão marítima, dos descobrimentos, de um legado que é universal."

Ainda assim, o presidente da Estrutura de Missão para os 500 anos da viagem de circum-navegação comandada por Fernão Magalhães, lembra que existe em Sabrosa a Casa da Pereira, que, reza a história, terá sido a casa de Magalhães e que ostenta o brasão de armas da família. A pedra do brasão terá sido picada como retaliação do rei D. Manuel, por crime de traição à pátria.

"É secular a associação de Sabrosa a Fernão de Magalhães e a comunidade sabrosense sempre teve Magalhães como referencial na sua memória coletiva, na sua cultura. Há aqui um conjunto de elementos que colocam Fernão Magalhães aqui, desde a toponímia, ao hino e aos textos de Miguel Torga, em que o escritor fala de Fernão de Magalhães como o seu conterrâneo”, nota José Marques.

100 iniciativas em três anos

Mobilizar todo o país e projetar o “feito de Magalhães no futuro, inspirar as novas gerações, sublinhar o papel de Portugal e dos portugueses de ontem e de hoje, na valorização do conhecimento, na construção de uma visão cosmopolita e tolerante, promovendo os valores da sustentabilidade e da cooperação como pilares de uma nova agenda internacional” é um dos grandes objetivos do presidente da Estrutura de Missão para os 500 anos da viagem de Magalhães.

“A estrutura de missão desenhou uma matriz estratégica alicerçada em três eixos que são representativos dos três eixos da viagem: o conhecimento e a valorização do conhecimento; a economia e o eixo da cooperação; e o diálogo intercultural e inter-religioso”, explica José Marques.

Neste quadro, Marques garante que no plano das comemorações não vão faltar iniciativas espalhadas pelo território, quer no contexto nacional quer no contexto internacional, envolvendo os agentes locais, os vários setores da sociedade, com enfoque cultural e educativo, no domínio da investigação e da ciência, da tecnologia e da economia.

“Estruturamos e desenhamos um lastro de mais de 100 projetos que, de alguma maneira, pretendem ser âncoras e referenciais de inspiração, para que a sociedade civil se envolva, para que as comemorações possam ser apropriadas pelas comunidades, para que, no fundo, as comemorações sejam de todos”, contextualiza.

A ideia dos promotores das comemorações passa por "uma estratégia partilhada, uma atitude colaborativa", pelo que a matriz definida para as comemorações é a promoção de uma "semana de Magalhães" em cada um dos municípios de Portugal, ao longo destes três anos. O processo está em marcha.

O programa das comemorações quer envolver toda a comunidade educativa e, por isso, já na sexta-feira, 1 de março, vai ser feita a apresentação pública do programa do Ministério da Educação, em Vila Real.

José Marques avança que há vários projetos delineados e destaca a construção da "rede de escolas magalhânicas", bem como várias dinâmicas para desenvolver com os cursos de formação profissional. Neste momento, diz, já existem ações em curso que têm a ver com sabores e aromas das viagens de Magalhães.

“Veja-se o alcance que nos cursos de hotelaria e turismo esta temática comporta e as interações que tudo isto pode estabelecer mesmo com as respetivas comunidades educativas e com os territórios e a oportunidade que isto acaba também por proporcionar no contexto dos festivais gastronómicos, de interações inclusivamente com os países da rota, com a 'rede das cidades magalhânicas'”, observa o presidente da estrutura de missão.

“Tem um outro projeto que, eu acho, tem uma designação extraordinária que é 'Há mais mundo com os cursos profissionais’. Se Magalhães acrescentou uma importante fatia de conhecimento ao mundo e no mundo, os cursos de formação profissional, para cada um dos seus alunos, é uma janela de oportunidade para acrescentar fatias de conhecimento e, portanto, novos mundos”, explicita José Marques.

Rota de Magalhães a Património da Humanidade

A candidatura da Rota de Magalhães a Património Cultural da Humanidade da UNESCO é outro dos projetos a ser desenvolvido no âmbito da Rede Mundial das Cidades Magalhânicas, com o envolvimento da Rede Mundial das Universidades Magalhânicas. Em 2016, o bem “Rota de Magalhães - Primeira Volta ao Mundo” foi incluído na lista indicativa de Portugal ao Património Mundial da UNESCO.

A candidatura, explica José Marques, “exige uma cooperação muito estreita, colaborativa e plural” entre os países envolvidos, designadamente Portugal, Espanha, Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Filipinas, Indonésia e Cabo Verde. "É de grande complexidade e exigência, pois implica muita pesquisa, inventariação e sistematização de toda a informação e documentos existentes sobre o Bem.”

“É uma maratona, é um processo complexo que obriga cada um dos países a ter na sua lista indicativa esse projeto e, neste quadro, não há datas precisas para formalizar a candidatura”, explica o presidente da estrutura de missão, sublinhando que “há uma intenção de neste período das celebrações fazer um esforço coletivo de preparar a candidatura e a referenciação na lista indicativa de cada um dos países e de criarmos as condições para a candidatura à UNESCO. Neste contexto, se não em 2022, muito próximo de 2022 pensamos que possa estar já amadurecida esta candidatura”.

O processo está em marcha e “já no próximo mês de abril vai haver uma reunião muito importante, nas Canárias, da rede de universidades, onde o programa de trabalhos está muito centrado na operacionalização de todos estes processos que são extremamente exigentes ao nível de cada um dos países que querem entrar na primeira fase do processo de candidatura”, adianta.

Se a iniciativa tiver sucesso, será o primeiro bem transnacional global. E há também a vontade de envolver as universidades destas cidades magalhânicas em rede mundial.

O programa das celebrações destaca o “inegável contributo da circum-navegação para o processo de globalização” e aposta na diplomacia económica e internacionalização, prevendo-se a criação do Passaporte de Negócios Magalhães, que vai acreditar empresas, para estabelecer contactos comerciais ou de investimento com países da "Rota Magalhães”.

Como legado das celebrações, e para dar ao país um “centro de referência sobre o evento de importância mundial que foi a primeira viagem de circum-navegação”, vai ser criado um Centro de Interpretação sobre a viagem de circum-navegação, a instalar “num edifício patrimonial a recuperar”.

Ficará, assim, a “memória palpável e permanente das comemorações para o futuro e para a formação histórica e cívica das novas gerações, bem como para a sinalização, no território nacional, das memórias dos Descobrimentos Portugueses e da Diáspora”, adianta José Marques.

NASA como parceira e o desejo de levar o Papa à Baía de San Julián

Os 500 anos da primeira viagem completa em torno do globo, concretizada entre 1519 e 1522, têm comemorações à escala global e contam com a parceria da NASA, numa perspetiva de partilha de conhecimentos.

“Os Descobrimentos deram novos mundos ao mundo. A NASA é o equivalente moderno. É ela que faz a monitorização ambiental do planeta”, refere José Marques, contando que “Fernão de Magalhães foi e é uma inspiração para a NASA, sobretudo nos grandes desafios, nas novas fronteiras de exploração científica e do conhecimento”.

“Aliás, a NASA, neste momento, está a celebrar os 50 anos da chegada do homem à lua e faz uma analogia sobre o papel de Portugal, dos portugueses e da Europa no desenvolvimento do conhecimento do mundo nos sécs. XV e XVI e o que acontece atualmente, com o desenvolvimento da exploração do cosmos, a navegação que se faz pelo oceano cósmico”, acrescenta o responsável pelas comemorações.

Através da Rede de Cidades Magalhânicas está a tentar-se que o Papa Francisco vá, em 2020, à Baía de San Julián, na Argentina, celebrar uma missa, 500 anos após a primeira aí rezada pela expedição de Magalhães.

“É um sonho, sobretudo da Argentina e também das Filipinas, cujas suas histórias estão muito associadas à expansão do catolicismo que, em abril de 2020, se realize a missa com a presença do Papa”, adianta José Marques, precisando que “para os argentinos, a Baía é um local importantíssimo e é ali que todos os anos se comemora o dia em que se celebrou a primeira missa em território da Patagónia”.

O presidente da estrutura de missão acrescenta ainda que também nas Filipinas há um referencial muito forte associado ao Sto Niño de Cebu, imagem representativa do Menino Jesus que o explorador português terá oferecido a Rajah e sua esposa, após chegar àquela ilha, em 1521. Há ainda um outro elemento, que é o símbolo da cidade de Cebu: nada mais nada menos do que a cruz de Magalhães”.

Celebrar para preservar a casa da humanidade

O presidente da Estrutura de Missão para os 500 anos da viagem de circum-navegação comandada por Fernão Magalhães considera que esta celebração é uma oportunidade para fazer a ponte entre o passado e o presente com uma projeção no futuro.

“Há todo um legado que Magalhães comporta, mas realço sobretudo a percepção que nos permitiu ver o mundo como um mundo de diversidade humana e de diversidade natural e como a casa da humanidade. E, como casa da humanidade, é importante que hoje, no contexto das comemorações, possamos refletir com a história para nos projetarmos no presente e no futuro”, defende.

“Se esta é a casa da humanidade, temos que olhar para os desafios que tudo isto comporta no capítulo da sustentabilidade da nossa casa, da preservação, da tolerância, do diálogo intercultural e inter-religioso, porque é muito importante que todos os que nela habitam se sintam bem”.

José Marques manifesta ainda o desejo de que as comemorações, ao darem a conhecer o navegador português, possam “inspirar os mais jovens na busca da valorização do conhecimento, da tecnologia, da inovação, do empreendedorismo, da superação, da preservação da casa comum e das relações entre os povos”.

Fernão de Magalhães (1480-1521) notabilizou-se por ter organizado e comandado a primeira viagem de circum-navegação ao globo, ao serviço do rei de Espanha.

A viagem, a bordo da nau Victoria, começou a 20 de setembro de 1519, em Sanlúcar de Barrameda, na província de Cadiz, na Andaluzia, e terminou a 6 de setembro de 1522, no mesmo local. Fernão de Magalhães foi o primeiro europeu a atravessar o estreito entre os oceanos Atlântico e Pacífico, a sul da América do Sul, que viria a ficar conhecido pelo seu apelido.

O navegador não terminou a expedição, uma vez que morreu nas Filipinas, em 1521, aos 41 anos. A viagem foi concluída pelo "número 2" da expedição, o navegador espanhol Juan Sebastián Elcano.

As comemorações dos 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães decorrerão entre 2019 e 2022 e a estrutura de missão é presidida por José Manuel Marques, integrando dez elementos designados por vários ministérios da Cultura aos Negócios Estrangeiros, da Defesa Nacional à Educação e à Ciência.

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  • Agrupamento de Escol
    25 jun, 2019 Carcavelos 18:40
    Seria interessante destacar que Fernão de Magalhães terá estado nas Molucas do Sul (embora não nas do Norte) em 1512, integrando a armada de António Abreu (conforme documentação credível do séc XVI), pelo que completou a sua circum-navegação quando morreu nas Filipinas em 1521 (que já estão a ocidente das Molucas do Sul). Desculpem, mas também não entendo onde foram buscar a ideia de que Juan Sebastián Elcano era o "número 2 da expedição", pois decerto não o era, nem sequer era o capitão de qualquer dos navios à partida de Sevilha....