Porto, o hub tecnológico de Portugal que está "a ajudar o futuro a arrancar"

11 mar, 2019 - 06:30 • Daniela Espírito Santo , ​​Marília Freitas​

Cidade atrai cada vez mais empresas estrangeiras em busca de gente qualificada para cargos de IT, que não têm problemas em investir na formação para o conseguir.
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Gonçalo Marques é “rockstar developer” na área das tecnologias de informação (IT). Nasceu em Lisboa, cresceu em Coimbra, estudou em Aveiro mas foi no Porto que acabou por escolher fixar-se. “Decidi vir para o Porto porque há muitas coisas a acontecer na minha área, há muito emprego, muitos eventos e pessoas. Há pessoas à volta com quem possamos aprender e evoluir”, assegura, feliz com a dimensão da cidade.

“É uma cidade pequena, próxima, caminhável. É possível atravessar o Porto a pé numa hora. Não é uma mega cidade, mas em termos de IT tem quase tudo”, conta à Renascença.

Francisco Martins, também “rockstar developer” na Critical Techworks, defende o mesmo. “Tem-se notado um crescimento que não dá sinais de querer parar. Há cada vez mais empresas que apostam no setor da engenharia no Porto. Reconhecem o nosso valor.” O Porto, define, é "uma cidade que ajuda o futuro a arrancar".

Uma cidade “business-friendly”

A cidade vive agora animada por novas “iniciativas empresariais”, que funcionam como uma espécie de efeito bola de neve. Juntas, aponta a InvestPorto, criam “um ambiente business-friendly, estimulante, competitivo e facilitador”, que faz com que mais empresas queiram vir para Portugal, particularmente para o Porto, em detrimento de outras cidades europeias.

Segundo os dados mais recentes do gabinete criado em 2015 pelo município para “promover a atração de investimento para a cidade”, a instalação de pólos tecnológicos de grupos internacionais “tem vindo a acelerar”.

“Desde a sua criação, [a InvestPorto] apoiou direta e ativamente mais de 260 projetos de investimento, dos quais 60% são de origem internacional, oriundos de 33 países distintos”, explica à Renascença Pedro Lobão, do departamento municipal de comunicação e promoção.

E desengane-se quem acha que estas empresas investem, sobretudo, no turismo. As principais áreas de atividade são mesmo as Tecnologias de Informação e Comunicação (cerca de 32%), seguida do imobiliário (20%). O turismo acaba por representar apenas 10% dos projetos de investimento acompanhados pelo gabinete municipal.

O Porto, aponta o mesmo gabinete, destaca-se “na oferta de recursos qualificados, nas excelentes infraestruturas, no ecossistema empreendedor, na interculturalidade e na reconhecida qualidade de vida”.

Já dados fornecidos à Renascença pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) parecem confirmar esta tendência de crescimento portuense: o número de empresas com atividades de tecnologia da informação e da comunicação localizadas no Porto passou de 2469 em 2015 para 2770 em 2017. O número de pessoal ao serviço dessas empresas também cresceu: de 13941 em 2015 para 17146 em 2017, um crescimento superior a três mil empregos.

Nathalie Risacher visitou três países – Roménia, Polónia e Espanha – antes de escolher Portugal. O Porto foi a cidade de eleição.

“Foi uma escolha fácil, ‘aterrámos’ no Porto primeiro por causa da dinâmica do ecossistema de inovação”, salienta a diretora-geral da Natixis em Portugal, um banco de investimento francês que ali abriu um centro de tecnologia de informação no final de 2016.

Em Portugal, Nathalie viu um sem número de vantagens para uma operação em tecnologias de informação (IT) fora de “portas”, fora de França. “Está a duas horas de avião de Paris, com uma hora de diferença. A proximidade cultural também foi importante e a língua foi um fator-chave. Aqui, as pessoas falam muito bem inglês e também algum francês.”

A experiência, embora recente, está a correr tão bem que pretendem chegar aos 700 funcionários até ao final deste ano. “É um investimento a longo prazo. O meu plano é ficar aqui enquanto puder", remata.

Os “culpados” da internacionalização? Comida, bom ambiente e a Blip

O Porto nem sempre foi um paraíso para quem trabalha na área da tecnologia. Que o digam os fundadores da Blip, três engenheiros informáticos que decidiram formar uma empresa de IT em 2009 e que acabariam por ser os “pais” da internacionalização das tecnológicas portuenses.

Adquirida em 2012 por um grupo de apostas desportivas online, a Blip foi “uma das primeiras em Portugal a ter este tipo de colaboração” com um grupo internacional, abrindo caminho para os inúmeros exemplos que se seguiram e que acabariam por compor o mercado atual.

“Somos culpados no bom sentido. Os nossos fundadores queriam que a casa onde as pessoas estivessem a trabalhar fosse a sua segunda casa, que a Blip fosse uma extensão do conforto que eles tinham em casa”, diz Ângelo Valente à Renascença.

Pelo caminho, traçaram as expetativas de quem agora trabalha na área. “O talento que sai das universidades não é muito fácil de encontrar ao preço a que nós o temos disponível”, salienta o porta-voz da empresa, um dos vários, enquanto explica as razões que tornam o Porto num “hub” muito atrativo para os grandes grupos estrangeiros.

“Há coisas que acabam por influenciar, como o bom tempo quase o ano todo, a comida, as pessoas, o facto do Porto estar na moda... Tudo isso contribuiu para que estejamos na mó de cima e que muitas empresas queiram vir para cá.”

O lugar perfeito é na baixa

Escolhida a cidade, o desafio seguinte tem a ver com a localização. Quando as empresas que se fixam querem empregar centenas de pessoas e manter-se no centro, encontrar o edifício perfeito pode ser uma verdadeira luta.

No caso da Natixis, que ocupou um antigo centro comercial no Campo 24 de Agosto, o processo foi atípico, também graças a alguma dose de sorte.

“Para nós, é muito importante estarmos localizados no Porto. Tivemos muita sorte em encontrar este edifício. Começámos à procura em 2016 e o processo demorou nove meses. Foi como um bebé”, brinca Nathalie Risacher.

Já a Critical Techworks está a usar provisoriamente um edifício na rua do Campo Alegre, enquanto espera para se fixar nos antigos CTT, em plena Avenida dos Aliados, fruto de um contrato de aluguer de 15 anos firmado com a autarquia.

“Surgiu a oportunidade de podermos alugar esse edifício e agarrámo-la. Houve um grande interesse e um grande apoio por parte da Câmara Municipal do Porto”, explica Madalena Marinho, do departamento de recursos humanos.

As obras começam em fevereiro e a empresa acredita que pode vir a ocupar os cinco andares do espaço no final do ano. “O nosso objetivo é celebrar o Ano Novo no terraço”, garante a responsável.

A Blip, que chegou a ter um edifício lá perto, no quarto piso do Edifício Trindade Domus, mudou-se para o Bonfim no final de 2016, para poder crescer em número de colaboradores – deverão chegar aos 290 até ao final do ano.

O espaço escolhido foi uma antiga oficina da Peugeot, com cerca de 5.800 metros quadrados, para ganhar mais espaço sem sair do Porto. “Estarmos a ir para fora da cidade, para locais com menos infraestruturas, com mais dificuldades de acesso não faria grande sentido.” Até porque a cidade "está no ADN da Blip".

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