Chão de Boticas esconde tesouro. Lítio é riqueza para uns mas desgraça para as povoações

15 jan, 2019 - 11:00 • Olímpia Mairos

Uma multinacional inglesa tenciona construir uma mina de lítio, a maior a céu aberto da Europa, mas que vai ficar a 500 metros das casas. Os trabalhos de prospeção já começaram e há buracos por todo o lado.
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As populações de Romainho, Muro e Covas, da freguesia de Covas de Barroso, no concelho de Boticas, andam com o coração nas mãos. O chão que pisam todos os dias esconde um tesouro valioso chamado lítio, que “vai criar riqueza para fora, mas pode ser a ruína das aldeias”.

A maior reserva de lítio da Europa foi descoberta no Vale de Cabrão, a 500 metros das povoações, e é ali que pode nascer a maior mina a céu aberto do continente europeu.

A área abrangida pela exploração é superior a 542 hectares, o equivalente a 542 campos de futebol. A mina vai laborar 24 horas por dia, todos os dias do ano, e vai interferir com a vida das 150 pessoas que vivem na freguesia.

É um projeto da multinacional inglesa, a Savannah Resouces, que prevê um investimento na ordem dos 500 milhões de euros, e que deverá entrar em produção em 2020, para produzir, estima-se, 175 mil toneladas por ano de espodumena de lítio, um mineral “inerte, usado para produzir sais de lítio”, usados nas baterias.

As populações, que contam com o apoio do presidente da Câmara de Boticas, temem que, com a exploração da mina, se verifique “uma destruição da paisagem e do património arquitetónico, devido às explosões, do habitat de espécies ameaçadas, como o lobo ibérico ou o mexilhão-de-rio, a criação de uma cratera de centenas de metros de profundidade na rocha, que nunca poderá ser recuperada”.

Alguns populares que residem junto ao vale, considerado Património Agrícola Mundial pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), garantem que, se a mina for por diante, vão deixar a aldeia onde moram.

À Renascença, o porta-voz da empresa britânica que vai construir o projeto explica que a mina do Barroso “é de extrema importância para o país e para o mundo. Vai ajudar a mitigar os impactes negativos emergentes das alterações climáticas a nível mundial, criar riqueza para Portugal e promover o emprego na região”. E assegura que o projeto não será um perigo para a saúde das as populações.

Atualmente, está em curso o estudo de impacte ambiental e a Savannah Resouces pretende que o Governo classifique a mina do Barroso como PIN (Projeto de Interesse Nacional). A decisão pode ser tomada a 21 de janeiro. Populações e autarquia não querem que tal aconteça.

“Vou ter que sair daqui para fora”

Lucília Loureiro tem 58 anos, é natural de Romainho e não conhecia o lítio nem sabia que existia na sua terra. Quando ouviu falar do minério e que projetavam construir no vale de Cabrão uma mina a céu aberto foi investigar e ficou preocupada. E assim se mantém - apreensiva e com medo - porque, diz, o lítio, “é uma coisa que vai dar cabo da aldeia. Vão fazer muito pó e o ar vai ficar poluído e vai poluir as águas também. Além disso, vai haver muito barulho”.

Lucília explica que já venceu um cancro e não quer arriscar. “Eu, tão depressa isto começa mesmo a sério, vou ter de sair daqui para fora. E é o que nos vai acontecer a todos”, lamenta.

A habitante de Romainho diz que “é muito triste trabalhar uma vida inteira para fazer a casinha, que ainda mesmo hoje não está acabada, e ter que a deixar”. “Vivemos aqui num sítio sossegado e agora vieram estragar a nossa vida. É muito triste virem os de fora fazerem pouco dos que cá estão”, conclui, com a voz embargada, pela revolta que sente dentro.

Património Agrícola Mundial em risco

Covas de Barroso é uma freguesia com património histórico, cultural, social, ambiental e natural. Um dos elementos desse património é o mosaico agro-silvo-pastoril presente no território, recentemente reconhecido pela FAO como relevante para o património agrícola mundial.

Horácio Afonso, de 73 anos, natural de Covas, não tem dúvidas que tudo isto se vai perder. A classificação, a paisagem e a atividade agrícola. “Aqui faz-se tudo de acordo com a tradição, o que torna os produtos mais biológicos. As pessoas vivem do que tiram da terra. E depois, vivem de quê?”, questiona.

Horário afirma que “o pó que vai circular pelo ar vai poluir e contaminar tudo”. E explica que “o pó vai trazer muitos metais pesados e não há inertes nenhuns que não tenham radioatividade e isso é uma coisa que ofende muito a saúde”. Horário teme ainda a “poluição das águas dos rios para o tratamento do lítio, a secagem e poluição do solo, a deterioração da saúde e a desvalorização da região agrícola”.

“Não há contrapartidas nenhumas. O que queremos é eles fora daqui”

Carlos Gonçalves tem 54 anos. É o maior produtor de mel do concelho de Boticas. Só este ano produziu cinco mil quilos do produto, mas agora teme ter que deslocar as 400 colmeias de abelhas para outro local.

“A mina a céu aberto, com 500 a 600 metros de diâmetro e 120 a 150 metros de profundidade, apanha este monte, vai poluir o monte todo, as águas, o ar e a vegetação. Como as abelhas vêm buscar o pólen e o néctar às flores, ao estarem as plantas poluídas, vai afetar a qualidade do mel”, explica o apicultor, acrescentando que a solução será “deslocar os apiários”.

Carlos, tal como os habitantes da freguesia, fez “há muito anos a opção de viver na aldeia” e não quer sair por causa de uma mina. E não aceita qualquer contrapartida. “Não há contrapartidas nenhumas. O que queremos é: eles fora daqui”, afirma o habitante de Covas, acrescentando que “vêm cá com os milhões e os meios milhões, mas não há dinheiro nenhum que pague o sossego, a paz e a saúde, que é o mais importante”.

O produtor de mel possui também uma exploração de cavalos e queixa-se que as prospeções que estão a realizar estão a criar impactos negativos na paisagem e na qualidade de vida das populações. “Já abriram para aí uma série de buracos, para aí uns 200, e o barulho das máquinas e o corrupio de carros incomodam e muito”, refere.

No local onde a mina vai ser implantada é visível a decapagem de alguns terrenos e a abertura de várias crateras. E os habitantes queixam-se da destruição de terras pela prospeção agressiva a que têm sido sujeitas.

Unidos em defesa de Covas, contra a destruição do território

Aida Fernandes tem 40 anos. Nelson Gomes, 42. O casal tem duas filhas e um grande amor à terra. São agricultores e produtores de gado. Vivem angustiados com o futuro porque temem pela “destruição do território”.

“A partir do momento que se vai fazer uma mina a poucos metros das nossas casas, em que querem fazer não só a exploração como a transformação de todo o material existente no local, ficamos preocupados”, conta Aida.

“O nosso dia-a-dia vai alterar-se e vamos ter muito pó na exploração. Tencionam reduzir a pedra a micropartículas e estas vão-se espalhar com mais facilidade pelo ar e vão chegar mais rápido até nós e, também, vai ser muito o barulho”, acrescenta.

A habitante de Covas acusa ainda a empresa que está a fazer as prospeções de fazer tudo à margem das populações, sem informações nem explicações concretas sobre o que pretendiam fazer.

“Pediam para fazer pequenos buracos, coisas simples, diziam eles, mas, quando as pessoas se aperceberam, já estava tudo destruído e as pessoas temeram que, se os mandassem parar, iriam ser colocadas em tribunal. A empresa mesma fez essa sugestão que, caso não os deixassem avançar, corriam esse risco e as pessoas entre serem expropriadas ou serem postos em tribunal, sentiram-se assustadas.

“As pessoas foram levadas, porque a empresa dizia que já tinha um contrato de exploração, que tinha um estudo de impacte ambiental”, acrescenta Nelson. Nelson é o presidente da recém-criada Associação Unidos em Defesa de Covas de Barroso que visa travar a mina de lítio.

“O que pretendemos mesmo é parar a mina porque seria a destruição total da nossa aldeia, de todo este património que temos. Não tem cabimento uma exploração desta natureza, fazer uma mina a céu aberto, com 500 por 600 metros, com 150 metros de profundidade, seria a destruição total”, afirma à Renascença.

E prossegue: “desfazer essa rocha toda e moer tudo a pó, para nós seria um desastre total. Nunca mais isto fica igual, até porque o buraco nunca mais é tapado. E temos um rio que passa mesmo aqui no meio, onde querem construir a mina com água da melhor qualidade”.

Para informar, reivindicar mais informação e tentar impedir o projeto, foi também lançada uma petição online “pela preservação do ambiente, património e a saúde e qualidade de vida em Covas do Barroso”, com o objetivo de levar o assunto a debate na Assembleia da República.

“Não estão salvaguardadas as questões ambientais e de saúde da população”

O presidente da Câmara de Boticas queixa-se de a autarquia ter sido colocada à margem de todo o processo relacionado com a mina do Barroso.

“O processo iniciou-se em 2004, com a emissão de um parecer por parte da DGEG (Direção Geral de Energia e Geologia). E a Câmara Municipal de Boticas também concordou na altura para exploração de feldspato e quartzo, no lugar que eram 120 hectares. A partir daí a Câmara deixou de ter comunicações”, explica Fernando Queiroga.

Segundo o autarca, “houve aumento da área de prospeção e pesquisa sem comunicação” e, em maio do ano passado, quando se deslocou ao terreno, alertado pela população, verificou que “a empresa optou por fazer decapagem completa de tudo o que é terra vegetal”.

A empresa “fez 105 plataformas com cerca de 100 metros cada e só aí já foi uma situação de abuso, porque aquele sítio está classificado como reserva agrícola e reserva ecológica nacional”, denuncia Queiroga. O presidente da autarquia de Boticas afirma ainda que “não estão acauteladas as preocupações da população”.

“Não é possível fazer trabalhos de prospeção a 20/30 metros de casas de habitação sem falar com as pessoas. Aliás, a questão dos próprios terrenos, a população também foi enganada, porque foi-lhe pedido autorização para fazerem uns pequenos furos e pura e simplesmente vedaram caminhos públicos e o acesso a essas próprias propriedades foi vedada, porque tiveram uma intervenção abusadora”, denuncia o autarca.

No próximo dia 21 de janeiro o autarca vai participar numa reunião na AICEP, onde vai ser analisado se o projeto é de interesse nacional e antecipa à Renascença que o seu parecer “é contra, porque não houve uma informação prévia, quer ao município quer à própria população, do projeto da mina”.

“Aliás, falta também o estudo de impacte ambiental e sabemos que a linha de salvaguarda das populações tem que ser 500 metros e, neste momento, há trabalhos a serem feitos a menos de 200 metros”, realça o autarca.

Fernando Queiroga afirma que “não estão salvaguardas quer as questões ambientais, quer as questões da própria população, da saúde e do bem-estar da população e, depois, também há aqui a questão do mexilhão de água doce”.

Trata-se de um mexilhão raro, o mexilhão-de-rio, que inviabilizou a construção da barragem de Padroselos e que, segundo o autarca, “se este investimento for avante, esta espécie também será dizimada, porque é o rio Covas precisamente onde há grande parte desta espécie”.

O ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Pedro Matos Fernandes, já garantiu que não haverá exploração de lítio em Boticas, sem avaliação do impacto ambiental, explicando que o Governo encara aquele negócio “sempre numa perspetiva de acrescentar valor”. Uma posição que, “de certa forma”, deixa o autarca “mais tranquilo”.

“Não há qualquer ameaça para a saúde da população, vida selvagem ou meio ambiente”

O porta-voz da Savannah Resouces, José Pedro Luís, em declarações à Renascença explica que “o que se pretende fazer é uma unidade de exploração mineira a céu aberto, semelhante a outras já existentes na região, maior, mas em nada diferente do ponto de vista operacional e técnico. Terá uma área de escavação dividida em várias zonas e cuja exploração será feita de uma forma faseada e não simultânea”.

“Haverá uma instalação industrial que irá perimir beneficiar o recurso natural e será realizado o processo da concentração de espodumena e também haverá instalações administrativas, sociais e de apoio”, acrescenta.

José Pedro Luís classifica o projeto de extrema importância para o país e para o mundo e explica que “o lítio presente na espodumena, que será retirada da mina do barroso, pode permitir a construção de até 500 mil baterias para novos veículos elétricos, todos os anos”.

“Na prática, se pensarmos, estaremos a retiram 500 mil veículos com motor de combustão das estradas de todo o mundo, por ano, colocando veículos elétricos. Só isto dá para perceber um pouco o relevo ambiental deste projeto”.

A mina do Barroso será também, no entender da Savannah, “uma oportunidade económica para Portugal, uma vez que o lítio é um mineral muito procurado. Para além dos benefícios da exportação de concentrado de espodumena, estamos a falar de um projeto que prevê um investimento muito significativo e que vai, normalmente, permitir um aumento significativo das receitas fiscais de Portugal”, detalha José Pedro Luís.

Segundo o porta-voz da empresa à região do Barroso, o projeto vai dar emprego e ajudar a fixar as populações. Adianta que se prevê “a criação, de forma direta, de cerca de 300 postos de trabalho, a longo prazo, posto de trabalho a tempo inteiro, e durante a fase de construção outros 300 postos de trabalho. No que respeita a postos de trabalho indireto na região, prevemos um número que se situa entre os 500 e os 600”.

“Estamos a falar de um impacto direto, em cerca de 1. 000 trabalhadores que, na prática, representarão 1. 000 famílias e que, certamente, isto ajudará a revigorar a região de Boticas e ajudará a reequilibrar a demografia local, quer retendo jovens que passarão a trabalhar localmente, quer voltando a recuperar e a atrair pessoas para a região”, sublinha.

José Pedro Luís sossega as populações e assegura que “a espodumena é um mineral que contém o lítio a ser explorado na mina do Barroso, é inerte, não é reativo e não é tóxico, pelo que não representa qualquer ameaça para a saúde da população, vida selvagem ou meio ambiente”.

Atualmente está a decorrer o estudo de impacte ambiental e depende desse estudo a aprovação ou não do projeto da mina por parte do Governo português.

“Este estudo de impacte ambiental, que apresentará resultado dos estudos e também as ações que a empresa irá implementar para mitigar esses riscos, é essencial para que as instituições governamentais viabilizem ou não o projeto”, conclui o porta-voz da Savannah que gostaria de ver a mina classificada com Projeto de Interesse Nacional.

Comentários
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  • Saraiva
    20 jan, 2019 14:13
    Vamos embora, há que esburacar isso tudo e extrair o que há para extrair. Portugal precisa dessa receita e não são 150 bimbos que vão impedir o progresso. Se for preciso amanda-se a policia de choque e... bastonada no lombo dos bimbos.
  • jose Geraldes
    18 jan, 2019 00:30
    E curioso como em Portugal se faz tudo sem o consentimento das pessoas, desde a INVASAO DA PROPRIEDADE PRIVADA, Destruicao da Paisagem e Culturas, sem o minimo respeito pelos habitantes das aldeias !! Esta uma pratica antiga que hoje nao e TOLERAVEL, pois trata-se de um ABUSO da autoridade e desrespeito pelas Pupulacoes que vivem na regiao, ate quando ??? A INVASAO da propriedade e PUNIVEL POR LEI, so lamento que o presidente da CM de Boticas nao tenha ainda tomado as medidas adequadas a situacao interditando a area, ate que os trabalhs sejam licenciados e os bens dos Cidadaos Acautelados ! Ou sera que em Portugal nao existe LEI para travar todos estes abusos ???
  • Uuuuu
    17 jan, 2019 Por aí 19:37
    Claro um trabalho desses passa despercebido a qualquer um!
  • Ouça
    17 jan, 2019 CBB 19:21
    Nunca a escola esteve tão distante da aldeia nem tão longe do centro de saúde! Estas são alguns exemplos das verdades ouvidas neste audio!!!!
  • Jose
    16 jan, 2019 Bedford 17:08
    FORÇA POVO NAO DEIXEM QUE ACABEM COM O VOSSO LAR LUTEM CONTRA TUDO ELES QUE FAÇAM BURACOS NA TERRA DELES