​Béla Guttmann chegou a Portugal há 60 anos

01 nov, 2018 - 10:30

O lendário treinador chegou para o FC Porto a 1 de novembro de 1958. Foi campeão nas Antas e na Luz e bicampeão europeu pelo Benfica. E lançou uma "maldição" que dura até hoje.
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Natural de Budapeste, Béla Guttmann, húngaro de origem judaica, tinha 59 anos quando, a 1 de novembro de 1958, chegou a Portugal para treinar o FC Porto. Antes, numa história de vida cheia, sobreviveu ao Holocausto: esteve durante meses escondido num sótão nos arredores de Budapeste e fugiu de um campo de trabalhos forçados. Bola Branca recorda um treinador que marcou a história do futebol nacional e, em particular, do Benfica.

Guttmann oi jogador de futebol. Era ponta-de-lança. Chegou à seleção húngara e atuou em clubes húngaros, austríacos e norte-americanos. Nos Estados Unidos foi também professor de dança em Nova Iorque e homem de negócios. Vítima do escândalo da Bolsa de Nova Iorque em 1929, regressou pobre à Europa tornando-se treinador de futebol. Treinou na Áustria, Holanda, Hungria, Roménia, Itália, Chipre, Argentina, Brasil, Uruguai, Suíça e Grécia.

Em 1958, o FC Porto contratou-o para recuperar os êxitos de Yustrich, depois de uma má experiência do emblema azul e branco com o brasileiro Otto Bumbel. Guttmann tinha ganho títulos na Hungria, Roménia e Brasil e era um nome sonante. No Porto, bastou uma época para ganhar o campeonato nacional e, quando o clube celebrava, para surpresa dos dirigentes nortenhos, o treinador húngaro já tinha casa alugada em Lisboa e um compromisso com o Benfica. Assinou um contrato com números muito altos para a época e exigiu uma cláusula com prémio de 200 contos se o Benfica vencesse uma Taça dos Campeões Europeus. E venceu duas.

Guttmann e José Águas com troféu da Taça dos Campeões Europeus. Foto: SL Benfica

A maldição de Béla Guttmann

Béla Guttmann foi campeão europeu pelo Benfica em 1961 e 1962 e saiu abruptamente do clube encarnado após recusa de insistentes exigências de aumento salarial e do prémio pelas conquistas europeias. Terá sido essa a razão da célebre maldição do húngaro. Béla Guttmann terá dito à direção do Benfica que nunca ganharia um troféu europeu nos 100 anos seguintes. António Simões, lançado por Béla Guttmann no Benfica, tem uma interpretação para o alegado desabafo do treinador húngaro.

“Depois das duas conquistas, é obvio que, sendo um homem astuto e muito interessado em dinheiro, pediu para renovar contrato por verbas difíceis para o Benfica cumprir. E como se sentiu magoado por não lhe responderem ao contrato e à verba que pediu, depois de tanto sucesso, surgiu o tal desabafo. Há alguma especulação sobre isso, mas no fundo tem a ver com a personalidade de Béla Guttmann”, sustenta Simões.

Até hoje, o Benfica já esteve sem Béla Guttmann em sete finais europeias e não venceu.

Os números exigidos pelo húngaro eram incomportáveis, depois da segunda conquista europeia consecutiva. “A verba pretendida por Béla Guttmann era anormal. Fui campeão europeu aos 18 anos em 1962 e tinha um contrato de 50 contos por ano. Eusébio e Coluna não ganhavam isso mas ganhariam uns 100 contos por ano. Quando se pede 200 contos por um prémio, não é compatível com as condições financeiras do clube. Mas Guttmann era assim”, reforça António Simões.

Guttmann não dava tréguas aos adversários. Foto: SL Benfica

A cartilha do "Mago" húngaro

Béla Guttmann treinava os jogadores para o futebol e para a vida. Para além do lado de treinador disciplinador e de discurso avançado para a época, António Simões revela, também, aspetos que influenciavam o lado social dos jogadores que orientava.

“A meio da semana, dizia-me para colocar o dinheiro no banco, respeitar a família, ter relações sexuais apenas uma vez, beber não mais que uma cerveja, dormir bem, comprar casa, etc. Eu tinha 18 anos e ouvia isto todas as semanas. Só me fez bem e jamais esqueço. Aqui está outro aspeto importante e sempre atual para os jovens que no futebol querem ter sucesso e ganhar dinheiro. Este homem, que marcou uma época e teve um sucesso extraordinário, será sempre um treinador atual”, considera António Simões.

Depois de deixar o Benfica, após o segundo título europeu em 1962, Béla Guttmann regressou à Luz três anos depois, mas sem sucesso. Perder, nessa época de 65/66, o título para o Sporting custou-lhe a saída.

Regressaria a Portugal para terminar a carreira de treinador, em 1973/74. Chegou com o mesmo entusiasmo do primeiro dia e sem esconder o carinho por Portugal, pelos portugueses e admiração pelos jogadores nacionais. “Muito satisfeito, porque encontro aqui gente e jogadores muito bons”, referiu à chegada, numa entrevista à RTP.

Béla Guttmann orientou o Porto até junho de 1974. Terminou em quarto no campeonato, e despediu-se do clube e do futebol aos 75 anos. Seis anos depois faleceu em Viena, onde está sepultado.

Em homenagem ao húngaro, o Benfica, em 2014, inaugurou uma estátua de bronze na porta 18 do estádio da Luz.

Béla Guttmann, um nome lendário do futebol português, chegou pela primeira vez a Portugal, há 60 anos

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