​D. Nuno Brás é o novo bispo do Funchal

12 jan, 2019 - 11:00 • Ângela Roque (Renascença) e José Carlos Patrício (Ecclesia)

Escolha do Papa foi anunciada este sábado. O até agora bispo auxiliar de Lisboa diz, à Renascença e à Ecclesia, que o seu coração “já faz parte da Madeira”, onde conhece boa parte do clero. Entrada solene na diocese está marcada para 17 de fevereiro.
A+ / A-
D. Nuno Brás é o novo bispo do Funchal
D. Nuno Brás é o novo bispo do Funchal

A Sala de Imprensa da Santa Sé anunciou este sábado, 12 de janeiro, a nomeação de D. Nuno Brás, de 55 anos, como novo bispo do Funchal. Sucede a D. António Carrilho, que se encontrava naquela diocese desde 7 de março de 2007.

Em entrevista à Renascença e à agência Ecclesia, D. Nuno Brás conta que a nomeação foi “inesperada”, apesar de não ser propriamente “surpresa”. Considera uma vantagem já conhecer boa parte do clero madeirense e ser bispo numa ilha não o amedronta. “Não é sinónimo de claustrofobia, pelo contrário, permite olhar mais longe”, diz.

Bispo e jornalista (chegou a ser correspondente da Renascença em Roma), espera conseguir manter o “vício” de escrever sobre a realidade que o rodeia. E na Madeira sabe que há problemas sociais a que terá de dar atenção, como o drama dos emigrantes que tiveram de regressar da Venezuela.

Visitar Porto Santo, onde nunca foi, será uma das suas primeiras deslocações, e fala da fé dos madeirenses como “uma riqueza” que não se pode “desperdiçar”. Saudades de Lisboa? Diz que terá sempre os fados da Amália para as atenuar.

Como é que acolhe esta nomeação como bispo do Funchal?

Com temor e com confiança. Com temor porque sei as minhas limitações, não vale a pena fingir que sou super-homem, que não sou, ou super-bispo, muito menos. Mas, com confiança, porque foi o Papa Francisco quem me escolheu. Trata-se de confiar no Papa, de confiar sobretudo no senhor Jesus, e acreditar que ele não vai abandonar aqueles que escolhe, portanto é com muita confiança que vou para a Madeira.

Foi uma surpresa esta nomeação?

Foi e não foi. Não foi completa surpresa no sentido de que já vários amigos, várias pessoas vinham ter comigo e diziam que era possível que eu fosse para o Funchal, mas acaba sempre por ser depois um momento inesperado.

Um bispo jornalista, comunicador, como é que espera conquistar os corações das comunidades madeirenses?

Sendo pastor, e estando como pastor, como sucessor dos apóstolos que está, que anuncia o Evangelho, e que procura inserir-se naquilo que é uma história de 500 anos. A diocese do Funchal celebrou há pouco tempo os 500 anos da sua existência, uma longa história de fé, portanto inserindo-me nesta história, respeitando-a certamente, e depois conhecendo as pessoas, estando com elas e anunciando o Evangelho com toda a ousadia e coragem. Quer dizer, se S. Paulo estivesse à espera de conhecer Atenas ou Corinto nunca lá teria ido, portanto eu vou assim também com esta ousadia.

Há uma coisa que é importante, que é o facto de eu conhecer uma boa parte do presbitério do Funchal, porque ou foram meus colegas ou foram meus discípulos, a quem ensinei teologia, e com quem estive nos tempos de seminário. Penso que isso que será importante também para uma maneira de estar e para poder estar com algum à vontade de quem conhece, não a diocese no seu todo, mas grande parte do clero madeirense.

Uma das formas de comunicar a que nos habituou nos últimos anos são as suas crónicas. Ainda recentemente lançou o livro "Cenas de Deus", que reúne algumas delas. Como bispo do Funchal também pretende comunicar dessa forma?

Escrever estas crónicas tornou-se um vício. Mesmo em férias dou por mim a pensar em temas, em modos de abordar assuntos, tornou-se um vício. Vamos ver se o vício se mantém. Terei de fazer uma análise cuidada em relação àquilo que é a realidade da Diocese, em relação aos meios de comunicação de que a diocese dispõe, em relação aos meios de comunicação onde o bispo poderá entrar eventualmente. Quer dizer, não é necessário que estas crónicas sejam no órgão da diocese. Não sei, vamos ver. Mas, sendo um hábito agradável este de escrever, de olhar para a realidade e de escrever sobre ela, talvez sim. Vamos ver o que é que a prudência e o discernimento dizem quando eu lá chegar.

Como é que encara esta particularidade de ir ser um bispo numa ilha? O que é que isso também significa para si?

Significa que há horizontes. Creio que é importante vermos o mar não como uma realidade que separa, mas com uma realidade que une, e neste sentido vou de uma diocese que confina com a diocese do Funchal. Muitas vezes ao longo de toda a minha vida, daqui da diocese de Lisboa olhei o horizonte naquela direção, agora trata-se de olhar o horizonte para outras direções, também para esta daqui do continente, claro, mas para todas as outras direções. Portanto, neste sentido não me parece que o facto de ser uma ilha seja um sinónimo de claustrofobia, antes pelo contrário, é sinónimo de poder olhar mais longe, e nesse aspeto a Madeira, por aquilo que conheço dela, tem muitas e boas perspetivas, muitos e bons miradouros para se ver o horizonte, e isso marca necessariamente também a vida das pessoas. Portanto, este olhar mais longe, sobretudo olhar mais para Deus.

Olhando para alguns aspetos na Madeira, como a entrada dos emigrantes e lusodescendentes vindos da Venezuela, ou para a situação de desemprego, que é o mais elevado no país, como é que vê estes desafios sociais?

Com preocupação, como é óbvio, e com responsabilidade, no sentido de que nós cristãos não podemos nunca ignorar tudo aquilo que está à nossa volta, não vivemos fora do mundo, bem pelo contrário, vivemos nele, mergulhados nele. De uma forma muito particular a situação da Venezuela necessariamente preocupa. Creio que que será importante, antes de mais nada, acolher aqueles, madeirenses ou não, que vindos da Venezuela estão a viver na Madeira. Portanto, em primeiro lugar é necessário acolher aqueles que necessitarem da nossa ajuda. Depois será importante também desenvolver a cooperação com a Cáritas da Venezuela, enquanto instituição credível para apoio às populações madeirenses, e não só, que estão a viver momentos de muita dificuldade. Portanto eu diria: acolher por um lado, e por outro lado ajudar com aquilo que está disponível, como bens materiais, mas enfim, a todos os níveis.

Há experiências que já tenha tido na Madeira que gostasse de partilhar?

Para além daquilo que às vezes é a aflição que é aterrar no aeroporto do Funchal, por causa dos ventos, recordo várias missas novas, em que eu como padre do Seminário acompanhei os novos sacerdotes do Funchal, e isso guardo no coração. E guardo no coração o modo como as pessoas me acolhiam, como uma pessoa de lá, as várias comunidades, as famílias dos sacerdotes, dos seminaristas.

Tenho muita pena de nunca ter ido ao Porto Santo, portanto numa destas primeiras semanas irei certamente visitar aquela comunidade, porque nunca lá fui. De resto, desde o mar até à comida, mas sobretudo este acolhimento e a fé das comunidades madeirenses, isso marca. E as famílias também, perceber famílias cristãs que cuidam dos seus filhos, eventualmente até numa situação de maior pobreza que aquilo que é costume, mas que cuidam dos seus filhos e que transmitem a fé aos filhos e isso parece-me uma realidade muito bonita, uma riqueza que não podemos desperdiçar.

Neste momento em que é conhecida a sua nomeação para o Funchal, quer deixar alguma mensagem à diocese de Lisboa?

A Diocese de Lisboa será sempre a minha diocese do coração. Claro que agora sou madeirense, mas não posso deixar de olhar para a Diocese de Lisboa com muita gratidão. Será sempre a mãe que me gerou para a fé, para o sacerdócio e depois também para o episcopado e, portanto, tenho uma gratidão muito, muito grande, sabendo que levo Lisboa no coração. Enfim, quando tiver saudades hei de ouvir um fado da Amália Rodrigues para matar essas saudades e hei de cá vir, de vez em quando, e tenho a certeza que me sentirei sempre em casa em Lisboa. Embora o meu coração, desde o momento em que soube da nomeação, o meu coração já faça parte da Madeira.


Natural do Vimeiro, no concelho da Lourinhã, D. Nuno Brás nasceu no dia 12 de maio de 1963. Frequentou os Seminários Maiores do Patriarcado de Lisboa (Almada e Olivais), entre os anos 1980 e 1987, e foi ordenado sacerdote pelo Cardeal-Patriarca D. António Ribeiro, a 4 de julho de 1987.

Foi vigário paroquial na Paróquia de Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa, redator, editor e diretor do Jornal Voz da Verdade, reitor do Pontifício Colégio Português, em Roma, formador e depois reitor no Seminário dos Olivais. Ainda em Roma foi correspondente da Rádio Renascença.

D. Nuno Brás era até agora bispo Auxiliar de Lisboa, nomeação que recebeu do Papa Bento XVI em 2011. Integra a Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais da Igreja Católica em Portugal, e mais recentemente, a 13 de julho de 2016, foi nomeado membro da Secretaria para a Comunicação da Santa Sé. Desde março do ano passado que D. Nuno Brás coordena a secção das Comunicações Sociais da Comissão para Evangelização e Cultura, organismo do Conselho das Conferências Episcopais da Europa (CCEE).

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.