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Entrevista

O herói discreto que salvou milhares em tempo de guerra. “É a fé que me mantém no Sudão”

11 dez, 2018 - 23:28 • Ângela Roque

Eleito “médico do ano” nos Estados Unidos, Tom Catena está há uma década em Nuba, onde atende em média 400 doentes por dia e faz mil cirurgias por ano. À Renascença diz que não se sente “um herói”, que é “a fé em Deus” que o move, e que se algum mérito os prémios que já ganhou têm, será o de chamar a atenção para o sofrimento do povo sudanês, que não pode continuar a ser ignorado.

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ANGELA Roque - Tom Catena  Sudão D11
ANGELA Roque - Tom Catena  Sudão D11

Filho de imigrantes italianos, Tom Catena é natural de Amsterdam, no Estado americano de Nova Iorque, e em pequeno sonhava ser político. Congressista ou, quem sabe, presidente. Formou-se em engenharia, mas o apelo da medicina e da vida em missão falaram mais alto. Foi cirurgião da Marinha americana, e voluntário missionário no Quénia. Está no Sudão há 10 anos.

“Como médico quero estar onde seja mesmo preciso, e no Sudão, em especial nas montanhas de Nuba, não havia um único médico para uma população de mais de 1 milhão de pessoas. Por isso foi uma grande oportunidade de trabalhar numa área onde fazia mesmo falta a minha ajuda”, conta à Renascença, acrescentando que como missionário católico esta também foi uma “escolha lógica”, porque “Cristo diz-nos para ajudarmos os irmãos e irmãs, portanto foi um chamamento muito direto o que senti”.

Enviado para o Sudão pela ‘Missão Médica Católica’ americana, Tom Catena diz que a fé em Deus tem “muita importância” na sua vida. “Foi a fé que me empurrou para ir para as montanhas de Nuba e é a fé que me tem mantido lá. Sem isso acho que não conseguiria ficar 10 anos e querer continuar”. Até porque, apesar do trabalho ser “muito desafiante”, há “muita frustração por todas as coisas que acontecem”.

Acha graça quando lhe perguntamos como se sentiu quando um líder religioso muçulmano lhe chamou “Jesus Cristo”. “Para ser honesto, sinto-me envergonhado por estar a ser comparado ao nosso Salvador”. Mas admite que “foi um bom elogio”, porque “afinal o objetivo de um missionário é sempre mostrar Cristo aos outros”.

“S. Francisco de Assis dizia para se rezar sempre, e às vezes usar palavras. A ideia é que os outros vejam Cristo em ti pelas tuas ações, e então o que disseres fará mais sentido. Eu levo esse conselho mesmo a peito, acho que é uma maneira maravilhosa de encarar o trabalho missionário”.

Tom Catena conta que no início não foi fácil adaptar-se aos ritmos de vida e à miséria no Sudão, e que o isolamento foi um dos maiores desafios que enfrentou. “É difícil interagir numa sociedade a que não estamos habituados, vir de outro lado do mundo onde as coisas se fazem de outra maneira, onde estamos habituados a ter eficiência e a ter as coisas rapidamente feitas, e entramos numa realidade onde isso não é a norma. Especialmente em Nuba, a maior parte das pessoas não recebeu educação, não tem bases, são comunidades rurais e agrícolas. Então, tentei adaptar-me a esse modo de vida, e percebi: 'ok, não estás nos Estados Unidos, aqui é assim que as coisas que se fazem. Tenta adaptar-te a esta realidade, faz o que puderes e avança'.

Foi o que fez. Mas, em 10 anos, assistiu a muitas atrocidades. “No último ano pararam os combates, mas há 7 ou 8 anos, durante a guerra civil, tivemos muitos soldados e civis gravemente feridos, pelos tiros e bombardeamentos. Houve muitas coisas terríveis que tivemos de assistir e cuidar, muitas amputações. Mas eu prefiro estar lá a tratar desses problemas, do que estar noutro sítio qualquer do mundo”, reafirma.

Os números falam por si: Tom atendeu uma média de 400 doentes por dia, e fez mais de mil cirurgias por ano. As fotos que partilha no Facebook, sobretudo na página onde divulga a missão em Nuna, mostram bem os horrores da guerra, que fez das crianças sudanesas as principais vítimas.

Embora a situação militar tenha acalmado, Tom Catena diz que há problemas que subsistem. “Existem todas as doenças tropicais típicas, má nutrição, diarreias. As pessoas têm estes problemas aparentemente simples, mas que sem o devido tratamento se tornam coisas graves”.

Sendo o Sudão um país maioritariamente muçulmano, não tem dúvidas sobre a importância da presença da Igreja católica. “É fundamental”, diz. “Em Nuba haverá 60% de muçulmanos para 40% de cristãos, então a presença dos missionários é muito importante para dizer às pessoas: 'estamos aqui, estamos com vocês, é isto que fazemos como cristãos, é este o nosso papel, tomar conta uns dos outros’. Por isso acho muito importante mantermos presença lá”.

Em Nuba estão irmãs combonianas e alguns, poucos, sacerdotes dos Apóstolos de Jesus, uma congregação criada por padres combonianos no Quénia, onde Tom Catena também fez missão em 1992. No hospital uma das enfermeiras que colabora consigo é uma religiosa queniana.

“Não me sinto um herói”

Em 2017, Tom Catena foi distinguido com o ‘Prémio Aurora para o Despertar da Humanidade’ (o ‘Aurora Prize’, atribuído pela Aurora Humanitarian Initiative, uma organização não-governamental criada em 2015 por três descendentes das vítimas do genocídio na Arménia, e que pretende apoiar projetos de ajuda às populações mais vulneráveis em diversos locais do mundo). Foi uma ajuda fundamental para a missão humanitária em Nuba. Agora, em novembro, foi considerado o “médico do ano” pela americana Mission Doctors Association. Distinções que espera o ajudem a reunir mais ajudas para o Sudão.

“Eu não gosto particularmente de estar debaixo dos holofotes, porque sou um pouco tímido, mas a forma como olho para estes prémios é que são um meio de, em primeiro lugar, mostrar o trabalho que a Igreja está a fazer em África, que é muito importante, e especialmente agora, quando a Igreja nos Estados Unidos está a ser arrasada por tantos escândalos que aconteceram, espero que isto faça luz sobre as coisas positivas que a Igreja está a fazer. Em segundo lugar, também traz luz em relação aos problemas em Nuba. Então, se estes prémios mostrarem ao mundo o que está a acontecer lá, já trarão algum benefício para as pessoas”, diz à Renascença.

Mas, se há quem o considere um herói, Tom não se sente dessa forma. “Não, não sinto. Estou a fazer o que penso que é preciso ser feito, faço o que sinto como natural para mim, este é o meu trabalho: acordar de manhã, ir ver os doentes, cuidar dos que sofrem, se têm feridas, trato-as”.

Esta terça-feira, em Berlim, durante o fórum ‘Aurora Dialogues’, Tom Catena assumiu um cargo de liderança daquela ONG, que o vai obrigar a estar alguns meses longe de Nuba, mas não pensa deixar o hospital Mother of Mercy, onde continua a ser o único médico.

“Fisicamente não estarei lá estes três meses, de dezembro a fevereiro, mas nessa altura voltarei a Nuba para continuar o meu trabalho como médico, Mais tarde no ano sairei de novo outros três meses, e depois regressarei outra vez. Portanto, vejo isto como uma nova fase, um período de tempo em que tentarei amplificar o trabalho que fazemos em Nuba, e também para ajudar esta organização humanitária”.

De uma coisa tem a certeza, vai usar este novo cargo para obrigar a comunidade internacional a olhar a sério para o Sudão, porque “podia fazer muito mais do que tem feito”.

“Através dos canais diplomáticos deviam pressionar mais para haver um acordo de paz, trabalhar a sério com ambos os lados, tentar perceber o lado de quem está em Nuba. Porque é que eles combatem o governo há 34 anos? Como é que pode haver um acordo entre rebeldes e governo? Acho que esta pressão podia ser exercida pelo lado americano e pelo lado europeu, que continuam a ter uma grande influência dentro das Nações Unidas, e não têm feito tudo o que podiam fazer.”

E como está a situação agora no Sudão? “Melhor”, diz, mas ainda instável. “Não há combates há já um ano, mas politicamente está tudo muito tenso. Fala-se em negociações de paz, mas estão ainda longe de chegar a um entendimento. Acho que ainda vai levar tempo até que seja alcançado um acordo de paz”.

“Tom Catena é um homem corajoso e tranquilo”

O padre José Vieira, dos missionários combonianos, conheceu Tom Catena quando ainda estava no Sudão, e chegou a entrevistá-lo para a rede de rádio católicas que fundou naquele país.

“Lembro-me que todos os dias ia à missa. Ia já vestido com aquela roupa verde de médico, e da missa seguia para o hospital’, conta à Renascença.

Diz que o viu, muitas vezes, socorrer situações complicadas, sempre com grande tranquilidade. “Operava ao som de música, e tanto ouvia Schubert como uma rockalhada, era muito eclético no gosto”, conta. Admirava-lhe a serenidade, mesmo quando corria risco de vida.

“Ele atendia muitos rebeldes feridos, e dizia que não tinha medo de o fazer, porque tinha de cuidar deles também”. Mas sabia que as forças governamentais o controlavam, até com drones que passavam junto ao hospital. “Chegou a haver um atentado contra ele, penso que foi em 2014. O quarto dele ficou todo destruído, mas ele não foi atingido”. E isso não o fez retirar. “É um homem que tem posto a assistência humanitária acima de tudo”, e que adaptou a sua vida à missão. “Em 2016, casou com uma natural de Nuba, vi fotografias do casamento tradicional que tiveram”.

“É um homem corajoso e muito tranquilo”, sublinha o padre José Vieira, que conta mais uma curiosidade: o quarto que ficou para o doutor Tom na missão em Nuba “era para umas irmãs portuguesas de uma congregação que trabalham na área da saúda, mas que acabaram por não partir em missão, por causa do recomeço da guerra, em 2011”.

“Um médico, um único hospital, para um milhão de habitantes”, é assim que Tom Catena é apresentado nas reportagens que divulgam o seu trabalho. Sendo americano, a sua história de vida até pode vir a dar um filme, mas à Renascença garante que o que mais lhe importa é que os sudaneses sejam os protagonistas de uma história com um “final feliz”.

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  • fanã
    13 dez, 2018 aveiro 18:16
    Diz-se que a fé move montanhas . Este Médico demonstra ser um filantropo , como ele , movidos por a fé, existem Homens e Mulheres que dedicam as suas vidas ao que de mais Nobre há , combater a miséria mais chocante com altruísmo e abnegação do seu próprio conforto. Triste é que no Século que vivemos , inundados de altas tecnologias , metade da humanidade se encontra na miséria total en proveito dos poucos poderosos da alta finança que tem o Mundo na mão , escravizando e assassinando milhares de seres humanos para proveito proprio . Infelizmente assim foi, assim é e assim será . A raça humana desde os tempos mais remotos , em termos de predação nada ou pouco melhorou , " o Homem é um Lobo para o Homem" !...................... Só uma intervenção "Divina" poderá mudar a condição humana !