Entrevista

Gorbachev, o reformista que de tanto querer mudar o poder o perdeu

09 nov, 2018 - 17:00 • Tiago Palma

Para alguns vilão, para outros herói. Está, a par de Ronald Reagan, intimamente ligado ao fim da Guerra Fria. Mas as reformas que implementou levaram a conflitos internos no regime soviético e ao fim da URSS. À Renascença, o biógrafo de Gorbachev, William Taubman, fala de um homem "corajoso" que só queria "humanizar" os soviéticos.
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Mikhail Gorbachev representava o ideal comunista. É filho desse ideal. Nascido e criado numa pequena aldeia do norte do Cáucaso, Stavropol, cedo Mikhail perdeu o pai, em batalha contra as tropas alemãs que invadiram a região, e, assim, cedo também se viu forçado a trabalhar – primeiro, numa cooperativa agrícola; depois, enquanto auxiliar de eletricista.

Ascendeu. E acabaria por estudar na melhor universidade de Moscovo. Foi um estudante exemplar como exemplar foi enquanto eletricista – recebeu até uma ordem de mérito –, regressando a Stavropol já politizado. Tornar-se-ia um líder na Komsomol, a organização juvenil do Partido Comunista da União Soviética, na cidade que o viu nascer. E continuaria a ascensão.

Primeiro, foi nomeado ministro da Agricultura. Depois tornou-se membro do Comité Central, também do Soviete Supremo, a mais alta instância do poder legislativo, e, em seguida, do Politburo, a mais alta associação política da União Soviética.

No dia 11 de março de 1985, e com a morte de Konstantin Chernenko, passaria ele, Gorbachev, a liderar a União Soviética. Tinha 54 anos.

Gorbachev representava o ideal comunista. Mas seria ele, ascendido de Stavropol e enfim líder, a reformar a União Soviética e a determinar o seu fim abrupto.

"Não é um traidor"

O americano William Taubman, autor de “Gorbachev – A Biografia” (Edições Desassossego), em entrevista à Renascença começa por explicar a razão de Gorbachev – “que no liceu até escreve ensaios a louvar Estaline” – ter acabado por se tornar no homem que “destruiu o sistema soviético”. Embora se diga “admirador” da coragem de Mikhail Gorbachev, Taubman reconhece que uma “decisão radical” alteraria tudo, incluindo a própria história da União Soviética.

“Gorbachev sempre foi reformista. Mas, depois, tornou-se um transformador. E, ao invés de corrigir o sistema, resolve alterá-lo.”

Há algo que Taubman, que para esta biografia chegou a encontrar-se e a conversar longamente com Gorbachev, rejeita liminarmente: a acusação feita (a leste) contra o antigo líder, sendo por alguns tido como um traidor da pátria. E defende: “É verdade que muitos russos culpam Gorbachev pelo colapso da União Soviética. Curiosamente, na altura, muitos ficaram satisfeitos com o colapso. Hoje, em retrospetiva, talvez olhem para trás e pensem que o período soviético foi um bom período. As tentativas de reforma de Gorbachev levaram-nos a perder o império que tinham, o estatuto de grande poder que tinham. E é verdade que ao colapso se seguiram grandes dificuldades económicas. É verdade... Mas Gorbachev não é um traidor. Nunca quis destruir a União Soviética. Antes pelo contrário, ele queria apenas modernizá-la, humanizá-la.”

Ao contrário do que seria previsível, pois aquele era o tempo da Guerra Fria, os inimigos de Mikhail Gorbachev não estavam no exterior, no Ocidente, mas, sim, no interior do próprio Partido Comunista da União Soviética. Quis Gorbachev agradar a todos internamente, ao mesmo tempo que se relacionava, além fronteiras, e procurava acordos e consensos com lideres estrangeiros, fora do Bloco de Leste e rasgando por completo com a Doutrina da Soberania Limitada, ou Brejnev, que defendia a união entre países e partidos socialistas.

Inimigos e aliados

Comecemos pelos inimigos, os conservadores do partido, como o vice-presidente da União Soviética, Gennady Yanayev , ou o então chefe do KGB (serviços secretos soviéticos), Vladimir Kryuchkov. Chegaram a tentar depô-lo em 1991, naquele que ficou conhecido como o Golpe de Agosto.

“No começo, os seus inimigos eram comunistas da linha-dura. Mas ao fim de pouco tempo os seus próprios aliados, os liberais, ficaram impacientes com ele, queriam que ele fosse mais além nas reformas. Mas a linha-dura achava que ele já tinha ido longe demais. Perto do final, ele viu-se entre os dois extremos. E, mesmo no final, em 1991, estava isolado, praticamente não tinha apoio no partido. Gorbachev teve sempre medo das suas próprias reformas. Ele sabia o que tinha acontecido com Nikita Khrushchov, o reformista que o antecedeu que acabou por ser afastado. Então, ele foi sempre muito cauteloso. Há uma expressão de Maquiavel que se aplicaria aqui: mantém os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda. Ele manteve-os. Mas acabou atraiçoado”, recorda.

Falemos dos aliados. Para William Taubman, mais do que Margaret Thatcher, Helmut Kohl ou François Mitterrand, o grande líder do Ocidente com quem Gorbachev tem desde logo “química” é o Presidente americano Ronald Reagan.

“Foi uma surpresa. Porquê? Porque Gorbachev era o líder comunista e Reagan era o conservador Presidente americano. Mas entenderam-se bem, sim. Essa química entre os dois foi crucial para o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, assinado em 1987. No entanto, eles podiam até ter ido mais longe. Estiveram mesmo muito perto, na Cimeira de Reiquiavique – uma cimeira que considero um milagre – de chegar a acordo quanto à abolição das armas nucleares. Só que esta posição não foi partilhada por outros lideres nem por muitos conselheiros de Gorbachev e de Reagan.”

Uma epifania e o fim da Guerra Fria

Mas nem só de química entre lideres se fez o acordo. O acidente nuclear de Chernobil pesou de sobremaneira. “Foi um momento de viragem, porque ele [Gorbachev] conseguiu ver os estragos causados por uma só central nuclear. E disse a si mesmo: ‘Se uma fez isto, então o que fariam várias bombas...’ Chernobil foi um choque para ele, porque o setor nuclear e os cientistas nucleares pareciam ser a nata da nata do sistema soviético. Gorbachev convenceu-se aí que tinha de radicalizar as suas reformas, sobretudo através de reformas políticas como o Glasnost, mas também económicas, como a Perestroika.”

As reformas, a abertura ao exterior que as reformas trouxeram e o entendimento com Reagan conduziriam ao fim da Guerra Fria. “A Guerra Fria era perigosa e era dispendiosa para a União Soviética. Mas ninguém esperava que terminasse tão depressa como terminou. Muita gente ajudou a que terminasse, Reagan, a senhora Thatcher, mas o mais importante foi Gorbachev. Ele foi a chave, a figura central.”

"Gorbachev e Putin são opostos. Trump é um trapaceiro"

Hoje, as relações entre a Rússia e os Estados Unidos, entre Donald Trump e Vladimir Putin, são confusas. Ao mesmo tempo que se investiga a alegada ingerência russa na eleição do atual Presidente americano em 2016, ao mesmo tempo que os dois líderes se encontraram para uma cimeira bilateral em julho, em Helsínquia, a verdade é que recentemente, em outubro, Trump anunciou com a seguinte frase acusatória o abandono do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio: “A Rússia não tem, infelizmente, honrado o acordo, por isso vamos pôr-lhe um fim e sair.”

Que semelhanças há entre os lideres de então, que firmaram um acordo, e os do presente, que o pretendem rasgar? William Taubman hesita. Mas acaba por responder.

“São totalmente diferentes. Gorbachev e Putin são opostos. Putin está a reverter tudo o que Gorbachev fez de bom. É curioso ver que, no começo, ele ficou satisfeito com Putin porque Putin substitiu [Boris] Ieltsin, que ele odiava. No começo ele pensava que Putin traria estabilidade e ordem. Pensava que Putin era um democrata. Mas não era. Ao longo do tempo, Gorbachev tornou-se mais e mais crítico de Putin. Quanto a Reagan, apesar de conservador, era um homem muito razoável, encantador, um homem bom. Ao passo que Trump, e digo-o como americano que sou, é um trapaceiro. Agora, aguardemos pelos resultados da investigação que [o diretor do FBI] Robert Mueller está a conduzir [à alegada ingerência russa nas eleições americanas]. Mas temo que Trump tente encerrar a investigação antes sequer de esta terminar”, lamenta o biógrafo.

Um político com causas

Na noite de 25 de dezembro de 1991, a bandeira soviética foi retirada do Kremlin. O regime havia sido afastado e com ele afastou-se Gorbachev. Quis regressar à política. Tentou-o em 1996, na eleição presidencial; conquistou menos de 1% dos votos. "Porque é que ele concorreu em 1996? A mulher pediu-lhe que não o fizesse. Os conselheiros também. Mas ele fê-lo. Acho que queria, uma vez mais, desenvolver e implementar as suas políticas reformistas." Tentaria uma e outra vez regressar, sem nunca o conseguir.

Mas foi sempre político, a vida toda. Mesmo afastado do política ativa. Como explica William Taubman: “Ele foi o único político na História da Rússia que, tendo o poder absoluto, arriscou perdê-lo para seguir os seus valores morais. Isso é admirável. Mas, claro, no final, ele perdeu o seu poder. Ele esperava isso? Não. Mas sabia que estava a arriscá-lo. Eu acho que ele era um político com causas. Ele tinha de ser um político para chegar ao poder e manobrá-lo. Foi um político brilhante, especialmente enquanto operou no velho sistema. Mas assim que criou um sistema novo, democrático, já não foi um político assim tão bom. Desde 1991, quando perdeu o poder, ele usou a fama granjeada para partilhar os seus valores. E foi até hoje um político.”

Mikhail Gorbachev tem 87 anos. É o único antigo líder da União Soviético ainda vivo.

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