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Futebol

Impacto social do Mundial2030 "não pode ser esquecido”, alerta Amnistia Internacional

06 jun, 2024 - 16:55 • João Filipe Cruz

Habitação, discriminação, direitos laborais, liberdade de expressão e segurança dos adeptos. Eis as maiores preocupações da Amnistia Internacional Portugal para o evento que o nosso país vai organizar em 2030.

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"Pode parecer que falta muito para 2030, mas não falta assim tanto". O aviso é de Filipa Subtil, coordenadora de investigação da Amnistia Internacional Portugal, no dia em que a organização divulgou um relatório com preocupações sobre a garantia dos direitos humanos por parte dos países organizadores do Mundial 2030 (Portugal, Espanha e Marrocos) e 2034 (provavelmente a Arábia Saudita).

Em declarações a Bola Branca, a investigadora da organização em Portugal explica que há quatro grandes áreas que preocupam a Amnistia no nosso país: habitação, discriminação, direitos laborais e liberdade de expressão e segurança dos adeptos.

Se na habitação é esperado que a pressão cresça, mesmo que momentaneamente, na altura do Mundial e agudize os problemas que já existem hoje no país, os outros focos de apreensão são sublinhados pela responsável, nomeadamente, o racismo.

"O racismo é um problema que existe, é impossível negar. Temos dados muito concretos. Houve um estudo de 2022 que concluiu que 19% da população de origem africana disse ter sentido discriminação nos 12 meses anteriores", explica Filipa Subtil.

O problema não é o "bem receber" tão típico de Portugal, mas sim o perigo de se desvalorizar o impacto social que advém de receber um evento tão mediático como um Campeonato do Mundo. Sem querer comparar a questão catari com a portuguesa, Filipa Subtil reforça que há caminho por percorrer neste sentido.

"Os residentes em Portugal sabem receber muito bem as pessoas. O que está em causa é que o maior evento desportivo do mundo tem sempre um impacto social, que não pode, nem deve ser esquecido", alerta a investigadora da Amnistia Internacional Portugal.

Mesmo sem a necessidade de construir estádios, a Amnistia alerta para os postos de trabalho que vão nascer do facto de o Mundial passar por Portugal, em setores que dependem muito de imigrantes.

"Há uma expetativa que o Mundial possa criar 26 mil postos de trabalho, que dependem bastante de mão-de-obra migrante. É, no fundo, uma oportunidade para a FIFA cumprir o próprio regulamento e analisar as propostas das candidaturas em termos de mitigação da violação de direitos humanos", explica Filipa Subtil.

A investigadora da Amnistia Internacional Portugal aponta ainda para os episódios de violência associados ao desporto no país e os exemplos de bloqueios à liberdade de expressão. Filipa Subtil lembra o episódio de 2022, à porta do Estádio José Alvalade, em que os adeptos com camisolas distribuídas pela organização, com uma mensagem de apelo ao respeito pelos direitos humanos no Catar, foram impedidos de entrar.

A coordenadora de investigação da Amnistia em Portugal lembra que Portugal, Espanha e Marrocos têm de submeter os "pormenores da candidatura" à FIFA nas próximas semanas, sobretudo em matéria de direitos humanos e, por isso, ainda há tempo, mas não muito.

"Estamos a falar de uma questão de semanas, portanto é importante lançar a questão agora. Pode parecer que falta muito para 2030, mas não falta assim tanto e, em termos de direitos humanos, nunca é tarde para se olhar para esta questão".

O Estádio da Luz, com uma capacidade a rondar os 65 mil espetadores, e o Estádio José Alvalade, ambos em Lisboa, e o Estádio do Dragão, no Porto, estes dois com aproximadamente 50 mil lugares, são os únicos recintos nacionais que correspondem às exigências da FIFA para acolher jogos de Mundiais.

Portugal estreia-se na organização de Mundiais, após já ter recebido o Europeu de 2004, enquanto a Espanha organizou o Euro 1964 e o Mundial 1982, e Marrocos acolheu unicamente a Taça das Nações Africanas (CAN) em 1988, condição que irá repetir 2025.

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