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Custo de vida em Portugal assusta os emigrantes na Alemanha

10 jul, 2024 - 16:46 • Luís Aresta

Comunidade portuguesa de Gutersloh sente-se bem integrada. Falta um pároco que reze a missa em português.

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É domingo à tarde e alguns portugueses na Alemanha cumprem o ritual da “sueca”. Na Associação Portuguesa de Gutersloh (APG) ainda se discute o insucesso da seleção no europeu de futebol e o que foi ou não foi o contributo de Cristiano Ronaldo.

“Tanto cruzamento para a área de França e nem um cabeceamento” diz um emigrante, “o Ronaldo devia pendurar as botas e pronto” atira outro, nada perturbado com a presença do microfone da Renascença.

O presidente da associação portuguesa de Gutersloh é Júlio Romano, que não perdoa a maldade que o município local lhe fez. Prometeram-lhe 800 bilhetes para o treino da seleção, mas feitas as contas não foi assim. “Entregaram-me um maço de bilhetes e já não eram 800, mas apenas 560. Guardei os bilhetes em casa, fui para Portugal, quando regressei conto os bilhetes e afinal eram só 560. Liguei, protestei e disseram-me que não podiam dar-me mais bilhetes. Sabe como é o povo, foi este, foi aquele. Tive de chamar os sócios para explicar tudo. Isto parecia uma assembleia geral”, diz, na intenção de deixar claro que a rábula não foi da sua responsabilidade.

Júlio Romano chegou ainda criança à Alemanha, em 1973. O pai viera um ano antes abrir caminho. Foi em Gutersloh que ouviram do 25 de abril de 74. “Ouvíamos a rádio naqueles transístores pequenos, era só ruído [imita os sons das frequências de onda curta, mal captadas] até para ouvir os relatos ao domingo era um problema, mas lembro-me bem do 25 de abril. Mesmo na televisão alemã falaram na ‘revolução dos cravos’ e o meu pai, que era contra o Salazar, gritou que derrubaram o governo!”.

Memórias que Júlio Romano guarda há 51 anos, tanto quanto o tempo que leva de emigrado.

Gutersloh parece uma cidade pequena, mas tem acima de 100 mil habitantes; cerca de 500 são portugueses, aqui e ali alvo do olhar desconfiado de um ou outro germânico. Júlio Romano entende a apreensão.

“O alemão gosta do estrangeiro, não gosta é das políticas que subsidiam os que não trabalham. Há quem chegue aqui e receba sem trabalhar. Por estes dias já ouvi na rádio que isto vai mudar, que o governo vai castigar mais quem pode e não trabalha e premiar aqueles que podem e querem trabalhar”.

Apesar de alguns alemães manterem desconfiança para com os imigrantes e de aqui e ali surgirem sinais de exclusão, os portugueses estão bem integrados na Alemanha.

A 10 quilómetros de Gutersloh, o presidente do município de Rheda, Theo Mettenborg observa uma comunidade interessada nas decisões políticas e que interage com as restantes culturas, como é possível constatar na festa multicultural que ali se realiza todos os anos.

“É uma parte importante da vida da nossa cidade. São sempre bem-vindos na nossa terra. Os portugueses são boa gente. E vejo uma comunidade interessada na situação política, na nossa cidade e na região” declara o autarca.

Rheda e Gutersloh são cidades vizinhas. Em muitas das estradas municipais há vias paralelas destinadas à circulação de bicicletas e é normal encontrar casais no seu ciclo-passeio diário, num cenário em que industria e agricultura convivem lado a lado.

Na agricultura são poucos os portugueses a trabalhar. Alguns têm as suas próprias empresas de comércio, construção ou serviços. Outros trabalham na indústria. Com a sua maior unidade de fabrico em Gutersloh, a multinacional Míele tem gerado apreensão também entre os emigrantes portugueses.

“A central é cá está um bocadinho a abanar. Felizmente a maioria dos nossos emigrantes que lá trabalham já estão perto da reforma. Os que lá estão já há muitos anos, pouco o vai afetar” esclarece o presidente da APG.

A incerteza é o que há de mais certo para quem a trabalhar para os outros. Para os portugueses que há mais tempo estão em Gutersloh, o regresso definitivo a Portugal começa a ser uma miragem. Sobretudo quando se olha para o que se ganha e o que se gasta, na Alemanha e em Portugal.

“Faço a comparação aos preços e ao que se ganha aqui e lá em baixo” – entenda-se, em Portugal. “O meu filho tem em Gutersloh a Casa Romano onde vende bebidas e outros artigos espanhóis e portugueses, sobretudo produtos portugueses que consegue vender aqui mais barato do que em Coimbra, digo Coimbra porque sou dessa zona. Dou comigo a pensar como conseguem sobreviver a isto, lá em baixo. Gasolina, gasóleo, lá ao preço daqui e ganham muito menos do que nós”, constata.

O custo de vida assustador em Portugal não impede o emigrante e reformado Júlio Romano de “descer” até às origens, a Pampilhosa. “Olhe que não é a da Serra, é a da Mealhada, a do bom leitão” esclarece. A conversa vai por aí fora e chega à religião.

“Vamos todos os anos a Fátima. Quando entramos no Santuário acaba-se o pio, como costumo dizer. É uma coisa do outro mundo, vêm-me as lágrimas aos olhos, sim senhor”. Pergunto como é a prática religiosa entre os emigrantes portugueses em Gutersloh. “Há sinais de que os mais novos querem voltar a ir à missa; os meus netos vão à missa apesar de a celebração ser feita na língua alemã”. Júlio Romano e a comunidade portuguesa nesta região lamentam a falta de um pároco português.

“Ali à esquerda, deve ter reparado, há uma cruz. Benzo-me sempre que por ali passo, a agradecer a Deus tudo quanto me tem dado, mas sim, falta aqui mais qualquer coisa”. Essa falta que Júlio Romano e os portugueses sentem, é de uma palavra na língua materna que lhes aqueça a alma. O corpo, esse vai-se mantendo quente, com o trabalho quotidiano e com a sã convivência entre amigos, que mais não seja no perde e ganha da sueca.

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