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Viva Livakovic, o herói dos penáltis da Croácia que foi criado pelo "avô"

06 dez, 2022 - 09:25 • Inês Braga Sampaio

Dominik Livakovic brilha no Dínamo de Zagreb e na seleção, mas foi sob a orientação de Zelko Njezic-Deda, lendário treinador croata, que aprendeu a ser guarda-redes.

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O novo herói da Croácia chama-se Dominik Livakovic. Tem 27 anos, é guarda-redes do Dínamo de Zagreb e, frente ao Japão, garantiu o apuramento para os quartos de final do Mundial 2022 ao defender três grandes penalidades.

Livakovic é apenas o terceiro guarda-redes a defender três penáltis no desempate num Mundial, depois do português Ricardo (contra a Inglaterra, em 2006) e do compatriota Danijel Subasic (Dinamarca, 2018). Na Rússia, Livakovic assistiu ao feito de Subasic desde o banco da Croácia, que chegaria à final (perdida para a França). Nesse Campeonato do Mundo, não competiu um único minuto.

Quatro anos depois, e do topo do seu metro e 88 centímetros de altura, Livakovic repetiu o feito de Subasic.

"É o que fazemos na Croácia. Viram isso há quatro anos. Continuo a tradição dos meus antecessores", sublinhou o ainda jovem guarda-redes, no final da partida.

O mais curioso é que Dominik Livakovic nem é especialista nos penáltis, conforme conta à Renascença Tomislav Ivkovic, antigo guarda-redes do Sporting que conhece o atual titular da baliza da Croácia "há muitos anos".

"O Livakovic não é especialista de grandes penalidades, mas já defendeu alguns no campeonato e noutras competições. É um homem muito sereno e muito calmo", revela o atual treinador do Borac, da Bósnia e Herzegovina.

Segundo os dados do "Transfermarkt", Livakovic defendeu 14 penáltis na carreira - sete ao serviço do Dínamo de Zagreb, outros sete ao serviço do NK Zagreb -, uma estatística que não contabiliza os defendidos em desempates por grandes penalidades.

Tanto Ivkovic como Livakovic têm ligação ao Dínamo Zagreb, enquanto guarda-redes. No entanto, é a uma pessoa especial que o antigo internacional pela extinta Jugoslávia atribui a escola do novo ídolo croata.

"Ele começou muito novo, com 17 anos, no NK Zagreb. É escola de um senhor treinador que é muito conhecido na Croácia, chamado Deda, que fez dele muito bom guarda-redes", explica.

Ivkovic refere-se a Zelko Njezic-Deda, treinador de guarda-redes que, na Croácia, era uma lenda. Foi um dos primeiros a ver talento em Dominik Livakovic. Contar a história de Dominik é contar a de Zelko, tal é a importância que o próprio guardião lhe reconhece na carreira - tornaram-se família, mesmo sem laços de sangue, e o jovem tratava o mentor por "Avô". Deda significa, em croata, "avô".

"O meu avô esteve comigo desde o início e é o maior responsável por onde eu estou hoje. Ensinou-me muito sobre a vida, como a humildade vem sempre em primeiro lugar. Mesmo hoje em dia, a humildade é o meu principal valor", disse Livakovic ao portal "24 Sata", em 2019.

Foi nesse ano que Dominik e Josip Condric, outro guarda-redes "criado" por Deda, ofereceram um Opel Corsa ao técnico, que não conteve as lágrimas. Foi "a prenda mais bonita" da vida de Deda, segundo o próprio, cujo carro anterior era de 1991.

Zeljko Njezic Deda passou a treinador de guarda-redes do NK Zagreb depois de terminar a carreira, aos 35 anos, devido a lesão. Tornou-se um símbolo do clube e a sua fama era tal que os pais levavam-lhe os filhos para que fizesse deles grandes guarda-redes. Uma das suas inovações foi a caixa de areia: era uma das pedras basilares do seu trabalho, pois "saltando da areia, ganhas velocidade, explosão e reflexos ainda melhores".

Treinou dezenas de guarda-redes, como Tomislav Piplica, antigo internacional bósnio. Andreas Kopke, treinador de guarda-redes da seleção alemã, aprendeu com os métodos de Deda. Manuel Neuer, do Bayern de Munique e da Alemanha, também bebeu da sabedoria do mítico técnico croata.

Foto: Friedemann Vogel/EPA
Foto: Friedemann Vogel/EPA
Foto: Neil Hall/EPA
Foto: Neil Hall/EPA
Foto: Neil Hall/EPA
Foto: Neil Hall/EPA
Foto: Lee Smith/Reuters
Foto: Lee Smith/Reuters
Foto: Abir Sultan/EPA
Foto: Abir Sultan/EPA

Numa entrevista ao jornal "Vecernji List", em janeiro de 2021, Deda contou que, mal Livakovic chegou a Zagreb, para representar o NK, percebeu logo que "seria um dos melhores guarda-redes do mundo". Dominik nunca se esqueceu de quem o ajudou a crescer.

"Mando-lhe várias mensagens e ele, normalmente, liga-me e diz: 'Avô, porque é que estás a mandar-me mensagens? Liga-me'. Eu tenho medo de estar a incomodá-lo. E ele responde sempre: 'Liga-me sempre que quiseres. Tu criaste-me'", recordou Deda nessa entrevista.

Terá sido uma das últimas entrevistas da vida de Zeljko Njezic-Deda. O mítico treinador de guarda-redes morreu a 6 de julho de 2021, enquanto dormia, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. Dominik Livakovic foi uma de muitos que homenagearam um homem que, de acordo com as histórias, nunca reclamou louros - melhor do que uma coroa era ver os guarda-redes que treinara brilhar.

Deda não viu Livakovic brilhar no Mundial 2022, mas Ivkovic sim. O antigo guarda-redes não esquece as origens de Dominik, mais jovem de rosto do que no cartão do cidadão, e acredita que o guarda-redes se tem valorizado tanto no Qatar que já vale "muito mais" do que qualquer clube português alguma vez poderia pagar.

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