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Ana Catarina quer ser campeã da Europa para "dar um impulso" ao futsal feminino

27 jun, 2022 - 06:35 • Inês Braga Sampaio

Três anos após a desilusão do primeiro Europeu de sempre, Portugal volta a Gondomar para tentar corrigir a rota. Em entrevista exclusiva à Renascença, Ana Catarina explica o que correu mal em 2019, as razões para acreditar na seleção nacional em 2022 e o que significa ser a melhor guarda-redes do mundo.

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Ana Catarina viveu a desilusão de 2019. O primeiro Europeu de futsal feminino da história jogava-se em Portugal e entre a comitiva da seleção corria uma palavra apenas: ganhar. Até que chegou a final e a Espanha destruiu o sonho português sem piedade. Três anos depois, a lição está aprendida, mas o sonho mantém-se: conquistar o Euro e dar novo impulso ao futsal feminino em Portugal.

É esse o objetivo de Ana Catarina, que ainda se lembra bem do choque de 2019 – de uma seleção tão envolta na expectativa da conquista, rodeada de bocas que cantavam vitória, que os dois golos em três minutos da Espanha provocaram uma derrocada psicológica que desabou numa dura derrota por 4-0.

É uma ferida que ainda não sarou para a guarda-redes do Benfica e da seleção nacional, que sonhava com a conquista do Euro não só por si e por Portugal, mas também pelo que a vitória poderia ter contribuído para o futsal feminino nacional. Uma cruz que Ana Catarina carrega e que espera, agora, poder tirar das costas.

"Crucifiquei-me muito por não termos ganho o outro Euro. Eu achava, na altura, que, se ganhássemos, poderíamos mudar a realidade do futsal feminino em Portugal. Se calhar, continuo um bocadinho com esse pensamento. Aproveitando, também, a onda que foi os 'play-offs' [do campeonato], que tiveram muita gente nos pavilhões, juntando-se agora Portugal conquistar um Euro, acho que poderia ajudar a dar um impulso ao futsal feminino", declara em entrevista à Renascença.

"A festa já estava toda preparada"


Ana Catarina revela que as próprias jogadoras já conversaram sobre o choque da final de 2019. No final de contas, admite que a expectativa que se gerou em torno de uma vitória que se assumia certa de Portugal acabou por prejudicar a equipa.

"O cenário estava pronto para que ganhássemos e a palavra que se dizia mais era 'ganhar' e, se calhar, faltou um bocadinho aquela noção de que podemos ganhar, efetivamente, somos candidatas, mas faltou perceber que vamos passar dificuldades e não vai ser assim tão simples quanto nós achamos. A festa já estava toda preparada, mas, se calhar, esquecemo-nos um bocadinho que faltavam 40 minutos, para que o resultado fosse outro", recorda a guarda-redes.

Agora, novamente em Gondomar, palco da última edição, e com três equipas em repetição – que seriam quatro, não tivesse a Rússia invadido a Ucrânia e sido expulsa das competições da UEFA; a vaga que se abriu na Final Four do Europeu foi ocupada pela Hungria – Ana Catarina não hesita: "Tem de ser desta."

"Os cenários estão todos a repetir-se. Voltarmos a Gondomar, voltarmos com o Euro, a Final Four só é diferente no sentido em que não está lá a Rússia, está a Hungria. Portanto, acho que todos os cenários se estão a repetir para que o resultado possa ser a única coisa de diferente", salienta a guardiã.

O primeiro jogo de Portugal no Europeu é a meia-final, diante da Hungria, que foi repescada após a exclusão da Rússia. Ana Catarina pede "cautela" frente às magiares, no entanto, frisa que "é para ganhar, obviamente".

"Não vou ganhar um Euro sem ganhar à Hungria. No outro Euro, os nossos jogos de preparação foram contra a Hungria, antes de jogarmos contra a Ucrânia na meia-final. Lembramo-nos que era uma equipa muito física. Pode baixar um bocadinho linhas e, se calhar, atrasar o primeiro golo, e isso pode tornar as coisas um pouco mais complicadas, mas o foco tem sido agora em nós. Esse é o caminho a seguir."

Se derrotar a Hungria, Portugal terá à espera Espanha ou Ucrânia. As espanholas são favoritas, pelo que a probabilidade de a final de 2019 se repetir é alta.

Três anos depois, contudo, seleção portuguesa está mais bem preparada. A maioria do grupo mantém-se, agora "com mais experiência, com mais andamento, com mais anos disto", além de "um bocadinho de juventude, que também pode trazer alguma irreverência". É coletivamente, no entanto, que a experiência pode ajudar a que o desfecho, desta feita, seja diferente, considera Ana Catarina.

Entre a experiência acumulada, contam-se os "play-offs" de apuramento do campeão nacional, em que participaram 13 das 14 jogadoras convocadas. Jogos que proporcionaram à maioria das jogadoras da seleção todas as situações de "stress" que podem viver durante o Euro: "Expulsões, cinco para quatro, prolongamentos, penáltis, estar por cima do jogo e acabar por entrar em desvantagem, ter de dar a volta, estar a ganhar e acabar a perder e ter de dar a volta outra vez."

O "peso" de ser a melhor de todas


A própria Ana Catarina está mais experiente. Em 2019, tinha um prémio de melhor guarda-redes do mundo (2018). Agora, tem três (também ganhou em 2020 e 2021).

"É um peso que carrego cada vez mais às costas", confidencia.

"Já este ano no Benfica carreguei esse peso. Mas é uma pressão que eu gosto, também, de ter. Mesmo antes de ter todas essas distinções, eu já punha pressão em mim, já exigia de mim, e até sou capaz de ser a pessoa mais exigente comigo. Gosto de sentir essa pressão, porque me faz trabalhar sempre mais", acrescenta.

Pressão volta, portanto, a ser a palavra de ordem em Gondomar, três anos depois, ainda que de forma mais comedida e com a plena consciência de que as candidaturas a títulos não são carimbos de favoritismo, mas sim aquilo que se faz dentro das quatro linhas. Um exemplo para todas as jogadoras da seleção nacional, Ana Catarina sabe bem lidar com o brilho por vezes ofuscante dos holofotes.

"Uma pessoa já leva uns 16, 17 anos de carreira e já passei por praticamente todo o tipo de situações. Uma pessoa, hoje em dia, se estiver no pavilhão e estiver a ser insultada, já lida muito melhor com isso do que antigamente. Se não estiver tão bem num jogo e for criticada, já lida muito melhor com isso. A experiência ajuda-nos a controlar mais essas situações, a ser mais seletiva naquilo que realmente importa e a manter o foco. É mais fácil de lidar hoje em dia", confessa.

Experiência, maturidade, pressão, ganhar. São palavras que Ana Catarina leva para o Europeu, onde as suas luvas guardarão o sonho de toda a equipa. O da guarda-redes do Benfica é dar novo impulso ao futsal feminino português – algo que conta ajudar a fazer não só na quadra, mas também fora dela.

Ana Catarina elogia, desde logo, a aposta continuada do Sporting e do Benfica, "uma grande ajuda", e aplaude o esforço do Nun'Álvares, que esta época venceu a Taça de Portugal e disputou o título de campeão com as encarnadas até ao fim. Investimento premiado com a chamada de cinco jogadoras para o Europeu.

"Há que bater palmas àquilo que o Nun’Álvares fez este ano a nível de investimento e, também, a nível de marketing. Olhando para a dimensão do Nun’Álvares e vendo a dimensão do Benfica e do Sporting, eles conseguem fazer, se calhar, a nível de marketing, muito mais coisas do que os clubes grandes", assinala.

É isso que Ana Catarina quer e de forma regular, não apenas por ondas – não só dos clubes, mas também da Federação Portuguesa de Futebol: "Mais divulgação."

"Dava para dizer diversas coisas, tenho 500 ideias. Podes ir para o YouTube e pôr lá o resumo dos jogos, no canal da Federação. Podes fazer cartazes de jogos, imensas coisas", enumera a guarda-redes, que defende as balizas do Benfica e da seleção com o mesmo afinco com que promove o crescimento do futsal feminino.

Um passo decisivo nessa direção, conforme explicou a Bola Branca, será a conquista do Euro 2022, no Pavilhão Multiusos de Gondomar. O primeiro jogo de Portugal está marcado para sexta-feira, às 21h30. Caso vença, a seleção nacional medirá forças com Espanha ou Ucrânia, no domingo, a partir das 18h00.

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  • Nelo Night
    30 jun, 2022 Portugal 13:42
    Entrevista interessante. Parabéns

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