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​“Tenho cinco jogadores no Brasil que não podem vir trabalhar”. Nova lei da imigração complica transferências de futebol

10 jul, 2024 - 18:15 • Eduardo Soares da Silva , Inês Braga Sampaio

Mudança na lei obriga jogadores a terem um visto de trabalho para serem inscritos, um processo que pode demorar mais do que dois meses. Clubes explicam o impacto desportivo e financeiro da alteração.

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O Estrela da Amadora contratou cinco jogadores brasileiros, mas ainda não tem a certeza se os conseguirá inscrever a tempo do início da época. As novas regras apresentadas em junho pelo Governo para regular a imigração estão a ter um impacto direto no futebol e a complicar a contratação de jogadores oriundos de países fora da União Europeia.

O Governo deixou cair a chamada “manifestação de interesse”, um mecanismo da Agência para a Inclusão das Migrações e Asilo (AIMA) que permitia a entrada de imigrantes e dispensava a necessidade de um visto.

Agora, e tal como qualquer outro imigrante, os jogadores são obrigados a ter vistos de trabalho para serem inscritos pelos clubes, um processo considerado como "demasiado longo" para as necessidades do futebol profissional.

“Ter uma janela que fecha a 30 de agosto ou não, é igual”, denunci a Bola Branca Paulo Lopo, presidente da SAD do clube da Amadora. “É como se a janela fechasse no fim da época. Não os conseguimos trazer em tempo útil. Antes, os jogadores chegavam com uma carta de chamada, agora não há nenhum privilégio, os jogadores entram no processo normal dos vistos. É impensável.”

As consequências sentem-se a todos os níveis: os jogadores estão contratados e já a receber ordenado, mas ainda não podem treinar.

No caso do Estrela da Amadora, o impacto financeiro pode chegar aos 300 mil euros caso não consiga inscrever os jogadores a tempo do fecho do mercado: “Já os vou pagar a partir deste mês, mas não podem vir trabalhar. É ridículo e não tem justificação”.

Ainda assim, Paulo Lopo foca-se mais nos impactos desportivos. O treinador Filipe Martins fica limitado nas opções numa pré-época que já está em curso: “A perda desportiva é muito maior porque fizemos os plantéis a contar com a prática comum”.

O diretor jurídico do Estoril Praia, João Pedro Correia, está habituado a lidar com a burocracia do futebol. Explica à Renascença que o mecanismo da manifestação de interesse facilitava as inscrições.

“O jogador entrava ao abrigo do visto Schengen, fazia a manifestação de interesse e, com o contrato, tudo era resolvido de forma célere. Agora, o jogador tem de pedir o visto, o que necessita de uma antecedência muito grande. Por fruto das negociações, nem sempre é possível”, explica.

Não há uma previsão exata do tempo que demora a finalizar a burocracia agora exigida, que depende também “de cada consulado e das suas logísticas”.

O dirigente jurídico do Estoril revela que poderá, em alguns casos, ser superior a dois meses. “Nestes termos, é impossível ter os jogadores a tempo de começar a época”, prevê.

Há ainda uma agravante: “Há sempre o medo de não se resolver a situação a tempo e os jogadores não poderem competir até janeiro. É tudo muito complicado, afeta as negociações e passamos a ter de considerar isto em qualquer intenção de contratar um jogador”.

Sem uma alteração na lei, o presidente do Estrela da Amadora acha que é inevitável uma alteração na filosofia de contratações, até porque “os mercados sul-americanos e africanos são fornecedores importantes” dos clubes portugueses.

Isso poderá também ter consequências na competitividade dos clubes na Europa, uma das maiores lutas do futebol português, que esta temporada perdeu uma terceira vaga na Liga dos Campeões para os Países Baixos.

Os clubes e a Liga fazem um esforço enorme para podermos ter boas prestações na Europa, para que o futebol português esteja na elite. Estas situações são o reverso completo do trabalho desenvolvido”, considera Lopo.

Os impactos previstos pelo dirigente chegam até à economia nacional: “Portugal é dos países que mais exporta jogadores para fora. As transferências são importantes para a economia, a importância no PIB é grande. E se não vierem jogadores, não podemos vender tantos. Devíamos ser um exemplo para outras atividades económicas. Se não entenderem o modelo de trabalho, estão a prejudicar. Se para o Estrela o impacto é 200 ou 300 mil euros, para o futebol todo são milhões”.

O dirigente da equipa da Reboleira aponta o dedo ao executivo de Luís Montenegro: “Sinto o Governo perdido nesta matéria, sem perceção exata da importância disto para o futebol".

"O mínimo é um canal aberto para os atletas profissionais, como sempre tiveram, e que nos permita contratar hoje e receber amanhã. Não consigo perceber como é que para o Governo isto não é uma evidência que precisa de ser alterada já”, prossegue.

Também a diretora-executiva da Liga Portugal, Helena Pires, pediu uma “solução urgente tendo em conta que os clubes estão em plena altura de inscrições e teremos, dentro em pouco, clubes que vão entrar já em competições internacionais.”

O campeonato arranca daqui a um mês, mas clubes como o SC Braga e Vitória de Guimarães disputarão as pré-eliminatórias das provas europeias dentro de duas semanas.

Perante o cenário negativo, Paulo Lopo diz que o caso “é para levar até às últimas instâncias”.

“Estou a criar um grupo de presidentes. Se for preciso, nem que vamos todos para a porta do parlamento, equipados a rigor, para entenderem as necessidades. É surreal. Acredito que não será por mal, mas por falta de conhecimento e estratégia. É o futuro de muita gente que está em causa”, conclui.

Contactado por Bola Branca, a secretaria de Estado do Desporto, liderada por Pedro Dias, remete uma resposta para breve.

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  • Petervlg
    11 jul, 2024 Trofa 07:23
    O futebol, não é diferente de outro setor, não deve ter privilégios, o nosso problema é esse, e dar privilégios ao futebol. Até para os próprios jogadores é uma mais valia ter o visto de trabalho, assim sabem que os dirigentes não os vão enganar.

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