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Entrevista Renascença

Guga quer dar o salto, mas só troca o Rio Ave por um grande

03 jun, 2022 - 10:00 • Pedro Castro Alves com Redação

Depois de uma inesperada descida à II Liga, Guga ajudou o Rio Ave a renascer com o título de campeão do segundo escalão. Em entrevista a Bola Branca, o médio fala das dificuldades da época, o objetivo da seleção e as opções no mercado de transferências.

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Aos 24 anos, e depois de ter sido uma das figuras da II Liga ao serviço do Rio Ave, Guga assume o objetivo de "dar o salto" na carreira.

No entanto, em entrevista à Renascença, o médio português diz que, em Portugal, só deixa o clube por um dos grandes, incluíndo o Sporting de Braga nesse lote.

Natural do Algarve, Guga fez toda a formação no Benfica, mas nunca se estreou pela equipa principal, devido a uma grave lesão. Depois de uma passagem pela Grécia, cedido pelas águias ao Panetolikos, desvinculou-se do Benfica para reforçar o Famalicão.

Após uma época e meia no Minho, seguiu para o Rio Ave, onde não conseguiu evitar a "descida inesperada" à II Liga. Teve oportunidade de sair, mas optou por ficar e hoje considera que tomou a melhor decisão.

O Rio Ave terminou esta época como campeão do segundo escalão e Guga foi uma das grandes figuras, com três golos e oito assistências em 40 jogos disputados.

Que avaliação faz da época do Rio Ave? A equipa começou por jogar um futebol muito ofensivo, mas a determinado momento da época foi obrigada a mudar e ficou mais consistente defensivamente. Houve, de facto, um momento de mudança?

É verdade que tivemos uma entrada muito forte no campeonato, com algumas goleadas, jogos muito bem conseguidos. Depois as equipas começaram a observar-nos e começou a ficar mais complicado, com os adversários a apostarem mais no contra-ataque e nós com iniciativa de jogo.

Houve uma altura em que marcávamos golos, mas também sofríamos alguns. Isso ditou algumas derrotas, duas delas em casa, com Mafra e Viseu, porque estávamos a expor-nos muito e a desleixarmo-nos um pouco na parte defensiva.

O nosso treinador, com mérito, arranjou uma forma de equilibrar a equipa. Começámos a defender com mais um homem lá atrás, a equipa ficou mais equilibrada. Continuámos a sair com muitos para a frente, mas lá atrás a equipa estava mais protegida. Resultou numa segunda volta com menos golos marcados, mas foram raras as vezes em que sofremos. Fizemos 40 pontos na segunda volta, contra os 30 da primeira, e foi muito resultado pela evolução na parte defensiva.

Quais são as suas expetativas e do Rio Ave no regresso à I Liga?

A nível de clube, acho que o mais importante é fazer uma época estável, manter-se na I Liga, fazer uma época tranquila, para na seguinte voltar a ser um Rio Ave de ambições europeias.

A nível individual, tenho a ambição de dar um salto na minha carreira. O clube também tem essa intenção, por isso, se chegar uma boa proposta para mim e para o clube vamos sentar-nos e ver o que poder ser melhor.

Caso não aconteça, estou num clube de que gosto muito e que me dá todas as condições para evoluir.

Tem mais dois anos de contrato com o Rio Ave e ambição de dar um passo em frente na carreira. Que projeto é que o poderia aliciar nesta altura?

A nível nacional, para sair do Rio Ave, teria de ser "top-4". Não desprezando os outros clubes, mas o Rio Ave, para mim, é um clube de "top-6". Apesar de na próxima época isso ser difícil, o Rio Ave vai ter uma época tranquila.

Mas olho também com muita ambição para o estrangeiro. Há sempre clubes interessantes, com projetos interessantes. Vamos ver o que é que vai chegar neste mercado.

"Top-4" em Portugal limita as suas opções. Nesse "top-4" está o Benfica, onde fez a sua formação e chegou à equipa B. Tem como objetivo voltar ao Benfica?

Não olho como um objetivo definido. Claro que se aparecesse o convite, aceitaria de muito bom grado, mas também sei que é difícil. O clube está a fazer uma aposta grande em voltar a ser campeão, há jogadores noutros países com ambição de voltar.

Mas não tenho objetivo definido de voltar a determinado a clube. Benfica, Porto, Sporting e Braga são clubes grandes e eu quero jogar para ganhar e conquistar títulos, se possível.

O Rio Ave desceu de divisão, mas manteve muitos dos jogadores que estavam no plantel na I Liga, incluíndo o Guga. A perspetiva de jogar com regularidade, num clube que iria lutar pela subida, foi um aliciante para ficar e agora abrir novas portas?

Sim, como não é segredo para ninguém, eu tive oportunidade de sair no começo da época, mas falaram comigo e disseram que precisavam de mim. Eu percebi e também quis ficar. Claro que agora digo que a melhor coisa que me aconteceu foi ter ficado no Rio Ave.

O treinador apostou muito em mim, deu-me coisas ao meu jogo que me estavam a faltar, coisas que podem ser bastante vantajosas para o meu futuro. E, sim, fazendo uma época regular, com golos e assistências, fico mais próximo de dar o salto que quero dar na minha carreira. Se der esse salto é muito graças ao clube e ao treinador.

O Guga tem uma carreira marcada por lesões complicadas, com muito tempo de recuperação. Acredita que poderia estar noutro patamar, não fossem esses problemas físicos?

As lesões apareceram numa altura em que eu estava numa evolução muito grande. Tinha feito 18 anos, tinha chegado do Europeu, tinha iniciado percurso na equipa B, estava a treinar com a equipa principal do Benfica.

Havia a possibilidade muito grande de integrar a equipa principal, mas infelizmente apareceu uma lesão. Fiz a recuperação, mas no primeiro jogo em que voltei tive uma recidiva. Tive mais 10 meses de recuperação.

Não gosto de dizer que se não fossem as lesões estaria em determinado patamar. Mas se as lesões não tivessem aparecido, muito provavelmente teria jogador pela equipa pripcinpal e, quem sabe, estaria noutro patamar. Foram momentos difícieis, mas que me fizeram crescer.

Falou há pouco da importância do Luís Freire, mas há mais algum treinador que o tenha marcado de forma especial?

Sim, o Luís Freire é um deles, mas todos me marcaram, uns de forma positiva e outros de forma negativa. Mas há um treinador que eu tive na formação, o Renato Paiva, com quem tive a sorte de trabalhar dois anos. Foi um treinador que deu muito ao meu jogo. Gostei muito de trabalhar com ele.

Renato Paiva saiu do Benfica e saiu para o estrangeiro, para a América do Sul, e não teve oportunidade, como tem acontecido em alguns casos no Benfica, na equipa principal. Considera que o caminho do Renato Paiva poderia ter passado pela equipa principal do Benfica?

Essa pergunta é difícil de responder, porque quem faz essas avaliações são os diretores do Benfica, mas sempre foi um treinador que mostrou muita competência por onde passou. Teve percurso na equipa B, a nível nacional não teve o coniite que desejava e fez muito bem em ir para fora.

Teve a sorte de ser campeão num clube que nunca tinha sido campeão [Independiente del Valle, do Equador]. Agora tem oportunidade no México [Léon] e vai correr bem, de certeza. Vamos ouvir falar dele, mais tarde ou mais cedo, porque é muito competente e gosta de um futebol muito ofensivo.

O Benfica escolheu um treinador estrangeiro [Roger Schmidt] para a próxima época, o que não tem sido comum nos últimos anos. Como avalia esta escolha?

Daquilo que eu sei é um treinador que gosta de futebol ofensivo, de pressão alta e é a isso que o Benfica tem habituado toda a gente. Espero que tenha muita sorte. O futebol português é muito difícil, porque as equipas estão muito bem preparadas taricamente. Acredito que seja um desafio à altura.

O Guga é um dos capitães do Rio Ave, ao lado de nomes como Ukra e Vítor Gomes. Como é ser capitão de um clube, ainda tão jovem, com jogadores tão experientes?

Fui apanhado de surpresa no início da época. Foi uma escolha do treinador e da direção. Tinha chegado ao clube há seis meses e viram em mim alguém de confiança para "comandar" o balneário e o grupo de trabalho.

Também tive a sorte de apanhar dois excelentes colegas a exercer esse trabalho, como são o Ukra e o Vítor Gomes. O Vítor, pela sua experiência, o Ukra, pela sua irreverência e alegria no trabalho. Aprendi muito com eles e acabo o ano a sentir que sou mais líder do que era.


Sente que ficar no Rio Ave, apesar das possibilidade que teve para continuar noutro patamar, foi a decisão certa?

A descida foi algo de inesperado. Eu poderia ter saído no início da época para outro lado e, se calhar, não iria ter a importância que tive no clube.

Acabar o ano a subir de divisão e a ser campeão é algo que me dá uma projeção muito grande. Neste momento sou melhor jogador por ter ficado. Se não ficasse poderia ter ido para uma equipa em que poderia não jogar tanto.

Foi internacional pelas seleções jovens de Portugal e está numa fase de consolidação. Tem a seleção nacional como objetivo?

Antes da seleção tem de vir o salto para um clube de maior ambição, porque mesmo estando bem no Rio Ave sabemos que é difícil ser chamado, porque há jogadores noutros clubes maiores a ter grande rendimento e o normal é as escolhas recaírem sobre esses jogadores.

O primeiro objetivo é ir para um clube de maior dimensão. Se estiver bem no meu clube, a chamada à seleção poderá ficar mais próxima. Mas o primeiro objetivo é dar salto para um clube maior. A seleção poderá vir por acréscimo.

Partilhou balneário com alguns jogadores que têm lugar na seleção nacional, atualmente, como Rúben Dias, Renato Sanches, João Félix. Com que sentimento os vê lá? Funciona também como motivação?

Olho para eles como um exemplo. São jogadores que sempre mostraram qualidade. Uns tiveram um percurso mais rápido do que outros, nem todos chegam lá aos 18 anos.

O meu caminho não foi tão rápido, mas poderá surgir mais tarde. Resta-me continuar a trabalhar para alcançar os mesmos objetivos ou objetivos semelhantes.

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