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Abel Ferreira quis abandonar o futebol. Hoje está a um passo de fazer história na Libertadores

26 nov, 2021 - 07:19 • Pedro Azevedo

Rui Quinta era coordenador da formação do Penafiel, quando o atual treinador do Palmeiras jogava na formação do clube duriense. Este sábado, Abel Ferreira luta por ser bicampeão da Taça Libertadores.

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Neste sábado volta a haver uma presença portuguesa na final da Taça Libertadores. Abel Ferreira detentor do troféu, comanda o Palmeiras, no jogo decisivo com o Flamengo, marcado para as 20h00 no Estádio Nacional de Montevideu, no Uruguai. É a final da 62ª edição da prova mais importante de clubes da América do Sul, iniciada em 1960.

As duas últimas edições da Taça Libertadores foram conquistadas por treinadores portugueses, curiosamente no comando dos dois emblemas que neste sábado discutem a final. Jorge Jesus venceu pelo Flamengo em 2019. Abel Ferreira triunfou pelo Palmeiras na época seguinte. Neste sábado, na final de Montevideu, Abel Ferreira procura bisar, o que seria inédito para um treinador europeu.

Até ao triunfo de Jorge Jesus em 2019, apenas um técnico europeu tinha conquistado a Taça Libertadores, o croata Mirko Jozic, que passou pelo Sporting, em 1991 pelos chilenos do Colo-Colo. Um treinador português ganhar três edições seguidas da Taça Libertadores é um dos acicates para a final de 2021.

Abel Ferreira está há pouco mais de um ano no comando técnico do Palmeiras. Ergueu a Taça Libertadores em janeiro e a Taça do Brasil em março. Dois títulos que mereceram o reconhecimento do Presidente da República que condecorou o treinador com a Ordem do Infante D. Henrique e da Câmara Municipal de Penafiel que homenageou o treinador com a medalha de ouro da cidade.

Nascido em Penafiel, Abel Ferreira, de 42 anos, começou a jogar no clube da sua terra em 1989. Tinha 10 anos. O defesa direito fez toda a formação no Penafiel, subiu a sénior em 1997. O coordenador da formação do clube penafidelense era Rui Quinta.

“No início nada indiciava que tivesse a carreira que acabou por ter como jogador profissional, mas já tinha algumas particularidades da sua personalidade como prova um episódio ocorrido na altura. Ele jogava a médio centro e o treinador colocou-o a lateral porque achava que as suas características se adaptavam melhor aquela posição. O Abel não aceitou e quis desistir do futebol. Pretendia abandonar, mas conseguimos dar-lhe a volta e foi como lateral que fez a sua carreira de futebolista num percurso que consideramos muito bom. Era já um traço da personalidade que hoje vemos. Uma pessoa de convicções, de caráter forte e com uma ligação à família e amigos. Continua a evidenciar essas ligações”, conta Rui Quinta em entrevista a Bola Branca.

O treinador que acompanhou toda a formação de Abel Ferreira não projetava na altura o futuro que o atual técnico do Palmeiras acabou por trilhar. “Naquela altura não imaginávamos que ele pudesse abraçar a profissão de treinador e com a projeção que conseguiu. Foi crescendo, maturando e sustentando de forma a assegurar o futuro e a vida foi desafiando para que escolhesse a profissão de treinador e todos nós que o conhecemos e gostamos dele ficamos orgulhosos com o que ele tem feito”, acrescenta Rui Quinta.

Foto: Amanda Perobelli/Reuters
Foto: Amanda Perobelli/Reuters
Foto: José Coelho/Lusa
Foto: José Coelho/Lusa
Foto: lusa
Foto: lusa
Abel, à direita, venceu a Taça de Portugal pelo Sporting em 2007 Foto: Nacho Doce/Reuters
Abel, à direita, venceu a Taça de Portugal pelo Sporting em 2007 Foto: Nacho Doce/Reuters

O perfil de Abel Ferreira como treinador

Abel Ferreira em pouco mais de um ano no comando do Palmeiras, para além dos dois títulos alcançados, criou um forte impacto no Brasil através da forma como pensa, treina, prepara e comunica. O treinador tem marcas de perfil decisivas no sucesso que tem obtido.

“O Abel tem demonstrado ao longo deste percurso como treinador um caráter bem vincado. Chegou a uma realidade diferente e acabou por conquistar fundamentalmente os jogadores que o defendem em campo e projetam as suas ideias. Conseguiu de forma clara que os jogadores se alinhassem com as suas ideias e liderança. O contexto do futebol brasileiro é de grande imprevisibilidade com alterações por vezes pouco percecionáveis. Mas o facto é que o Abel acabou por impor a sua personalidade, visão e ideia de jogar e conquistou o mais importante que são os jogadores. O grupo está com ele e isso acaba por qualificá-lo. Não é o que ele sabe, é o que consegue fazer com aquilo que sabe. Nesse aspeto conseguiu chegar a uma realidade adversa e desafiadora e deixar a sua marca num clube que estava carenciado de resultados e acabou por marcar a história dele e do Palmeiras”, analisa Rui Quinta.

A capacidade de alinhar os jogadores com as suas ideias

Quando terminou a formação no Penafiel, em 1997, Abel Ferreira foi lançado na equipa principal e as suas exibições levaram-no em 2000 para o Vitória Sport Clube. De Guimarães transferiu-se para Braga em 2004. Na época seguinte foi reforço de inverno do Sporting e terminou carreira em Alvalade em 2011, aos 32 anos. Um final de carreira de futebolista precipitado por uma lesão no joelho direito.

Como treinador, Abel Ferreira começou em 2011/12 nos juniores do Sporting conquistando o título nacional da categoria. No futebol sénior, treinou Braga B, Braga, PAOK da Grécia e Palmeiras do Brasil. Torna-se neste sábado no primeiro treinador a participar em duas finais seguidas da Taça Libertadores.

É o atual detentor do troféu, depois da conquista da Libertadores 2020, numa final realizada a 30 de janeiro no Estádio Maracanã, no Rio de Janeiro. O Palmeiras venceu por 1-0 com um golo apontado por Breno, no último minuto do período de descontos.

“Acredito que o Abel pode revalidar o título. O jogo tem contornos únicos e uma carga emocional muito grande, mas está tudo em aberto. O adversário tem qualidade, mas num jogo tudo é possível. Na meia final com o Atlético Mineiro conseguiu gerir emocionalmente os seus jogadores e ultrapassar um adversário que estaria em melhores condições de chegar à final. Ele tem demonstrado a capacidade de conquistar os seus jogadores, de os entusiasmar e alinhar na sua ideia. Acredito que possa revalidar o título o que para nós seria um orgulho muito grande. É um amigo que conhecemos desde sempre, é um jovem da nossa terra, é português e gostaríamos muito de vibrar com o seu sucesso”, declara Rui Quinta.

O treinador de 61 anos, deixa uma mensagem a Abel Ferreira a poucas horas da final. “Que se mantenha firma nas convicções que tem e na pessoa que é e que continue focado no que é fundamental para se ter sucesso. Designadamente, capacidade para alinhar os jogadores nas ideias dele, de os entusiasmar e ajudar para que tenham desempenhos extraordinários. Esperamos por ti Abel para que regresses de férias com mais um título que atesta a qualidade do treinador e da pessoa que és”, refere Rui Quinta em discurso direto para o treinador do Palmeiras.

Abel Ferreira assumiu o comando técnico do Palmeiras a 30 de outubro de 2020. Soma 103 jogos oficiais com 54 vitórias, 22 empates e 27 derrotas. O treinador português tem contrato com o Palmeiras até dezembro de 2022.

As diferenças com Jorge Jesus

Na entrevista oficial à CONMEBOL, de antevisão da final da Taça Libertadores, Abel Ferreira foi questionado sobre as diferenças com Jorge Jesus, o treinador que conquistou a prova pelo Flamengo em 2019. Abel Ferreira disse não ser melhor nem pior, apenas diferente. Rui Quinta subscreve.

“A resposta é à moda dele. Somos de Penafiel e respondemos à nossa moda. Ele tem as suas ideias e pensa pela sua cabeça. Gosta de falar, ouvir e cruzar ideias, mas tem os seus pilares de pessoa e de caráter. É isso que o diferencia. O Abel reconhece o mérito ao Jorge Jesus, mas não tem nada a ver com ele ao nível da personalidade e das ideias. A única coisa que podem ter em comum é a vontade de vencer, serem rigorosos na forma como preparam as suas equipas e como desafiam os seus jogadores para grandes desempenhos. Fora isso são duas personalidades completamente distintas com ideias diferentes sobre o jogo, mas ambos com uma vontade muito grande de vencer”, sublinha Rui Quinta.

Neste sábado, em Montevideu, Palmeiras e Flamengo procuram a terceira vitória do palmarés de ambos os clubes na Taça Libertadores. O Palmeiras ganhou a prova em 1999 e 2020. O Flamengo venceu em 1981 e 2019. O Independiente da Argentina é o clube com mais troféus conquistados. Ganhou a Libertadores em sete ocasiões (1964, 1965, 1972, 1973, 1974, 1975 e 1984).

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