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Euro 2024

​Mirandinha e o amigo Gascoigne: “Levava-me para os pubs de Newcastle. Com 21 anos já fazia comícios”

10 jul, 2024 - 10:45 • Hugo Tavares da Silva

O primeiro jogador brasileiro a jogar na Liga Inglesa também teve uma breve passagem pelo Belenenses… de Chalana. Esta quarta-feira há Inglaterra-Países Baixos.

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Já no sossego caseiro, depois de mais um treino castigador naquele fresquinho de Newcastle upon Tyne, Mirandinha ouvia muitas vezes a campainha e não esperava ninguém. Era Paul Gascoigne. “Queria comer comida brasileira”, revela o primeiro brasileiro a jogar em Inglaterra. A máquina do tempo leva-nos para 1987.

“Ele fez amizade com a gente, com os meus filhos”, conta a Bola Branca este antigo avançado, agora com 65 anos. “Tornou-se um grande amigo, eu morava entre o centro de treinos e a casa dele.” Então e que rapaz era esse? “Estava sempre a colocar-me em coisas erradas”, gargalha.

“Levava-me para os pubs de Newcastle. Com 21 anos já fazia comícios”, continua, com a voz a babar satisfação, diretamente do interior de São Paulo. “O Paul fazia tudo isso instintivamente, por conta da juventude. Era um menino com um coração enorme e gigante. Deixava sempre o grupo muito descontraído com as brincadeiras dele. O Paul foi um companheiro, fizemos uma grande dupla.”

Esta conversa é motivada pelo Euro 2024, pelas meias-finais que a Inglaterra vai jogar esta quarta-feira (vs. Países Baixos), e porque é sempre bom olhar para trás, até para perceber como os debates são reciclados, até quando há resultados. Mirandinha jogou com e viu de perto ‘Gazza’, “um futebolista fantástico, de técnica apuradíssima, diferente do britânico. Tinha muita ginga, muita malandragem, como o brasileiro. Era o mais abrasileirado deles.” Seria a figura do Euro 1996, em solo britânico (cairiam nas semifinais).

Mirandinha, que também jogou com Chalana no Belenenses (já lá vamos), chegou em ano de Campeonato da Europa. Os ingleses, num debate que parece cíclico, voltaram a desiludir, com três derrotas em três jogos. “Estiveram muito mal”, recorda-se perfeitamente. “Havia um clima muito ruim dentro da seleção. Todo o povo inglês ficou chocado. Era das seleções inglesas mais fortes que vi, era uma equipa com Gary Lineker, Waddle, Tony Adams, Peter Shilton na baliza, enfim”.

Tanto ele como outros, que jogavam contra aquelas feras na Liga Inglesa que ainda não era Premier League, não compreendiam o que se passava. “Não percebemos porque uma seleção tão poderosa, que fez uma boa Copa no México, em 1986, tenha sido tão fraca e sem resultados.”

O futebol inglês ainda estava por ser apimentado pelo dedo mágico de Arsène Wenger. O ‘kick n rush’ ainda funcionava como uma bíblia. “Na verdade, você passava do meio-campo e virava cruzamento. Era bola na área. Era muito truncado, com jogadores muito truculentos. Eu não sou alto, mas tinha uma boa impulsão vertical, era muito forte. Dava para brigar com os Terry Butchers da vida, com os Tony Adams. Fiz bastante golos”, conta o homem que começou por jogar com a camisola 10 e depois com a 9.

Antes jogava no Palmeiras, onde atuou com o adolescente Kazu Miura (sim, esse – Mirandinha era amigo do pai), e chegou à seleção brasileira. Nas gavetas da mágoa estão as não convocatórias para os Mundiais de 1986 e 1990, sendo que estava sempre entre os maiores artilheiros do campeonato, sublinha. Mas fez uma coisa da qual se envaidece. “Não é fácil fazer golo em Wembley”, recorda, numa alusão a um particular com a Inglaterra, em maio de 1987. Talvez tenha aí convencido os ‘magpies’, ao lado de Ricardo Rocha, Valdo, Dunga e Raí.

“Costumo dizer que, até àquele momento, os grandes monstros sagrados do futebol brasileiro não o fizeram”, continua, encantado pela façanha. “Pelé não fez, Zico não fez, Sócrates não fez, e tantos outros craques. Eu fiz golo no Wembley e fiz um belo jogo contra a Inglaterra.”

"Foi ótimo partilhar o balneário com o Chalana"

A aventura em Portugal, fugaz como os pingos da chuva que nem molham, aconteceu nos últimos dias de dezembro de 1990. Em final de contrato com o Palmeiras, seguiu-se o Belenenses. Foi um empresário amigo que lhe falou no clube lisboeta. A estreia foi contra o Nacional da Madeira e “o professor António Lopes” colocou-o logo na equipa titular. Bisou. “Para estreia, nada mau”, graceja. A seguir, com o Famalicão, fez mais um golo.

Na viagem para Lisboa, disseram-lhe que o presidente tinha sido retirado do cargo, por problemas com a justiça. “Montaram a junta diretiva e disseram-me que não havia forma de continuar comigo por não terem como pagar o meu salário e o dinheiro ao Palmeiras”, conta. “Achei tudo muito estranho. Fiz dois jogos e três golos. A ideia era ficar muito tempo em Portugal…”

Mas não ficou. Daqueles tempos, restam o sabor dos pastéis de nata, o aroma do vinho que ia provar num certo lugar e o perfumado jeito para a bola do virtuoso Fernando Chalana. “Tinha muita qualidade. Foi ótimo partilhar o balneário com ele, foi ótimo! Nos treinos dava muito trabalho. Driblava muito fácil. Tinha uma coisa… mudava de direção a alta velocidade. Muito bom.” Chalana, um mago no Euro 1984 e no resto da vida, ainda jogaria no Estrela da Amadora antes de pendurar as botas.

Regressando a 2024, Mirandinha torce o nariz a alguns jogadores que fazem parte de seleções como Inglaterra e Brasil, pois considera que não têm condições para aquele nível. Já o futebol moderno, assume, vai lutando entre estar mais atrativo e o desaparecimento da criatividade. “Está ficando robotizado”, denuncia. “O Brasil é uma vítima disso, está tudo virado para a parte tática, não só da equipa, mas do atleta.”

Mirandinha, que já largou a carreira de treinador e agora ajuda o filho num projeto de formação de jovens atletas, nasceu e cresceu em Chaval, Ceará. “Foi uma infância difícil. O meu pai era um simples salineiro, era um trabalho muito pesado na produção do sal lá do Ceará”, relata. “Até tivemos falta de alimento. Éramos oito irmãos. Foi uma infância ‘legal’, com muitas brincadeiras, sem o que temos hoje, esta loucura da droga, da marginalidade, da prostituição infantil… (...) O futebol mudou a minha vida.”

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