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Euro2024

​Crónica. Foi preciso um espalha-brasas para a seleção de Vitinha começar com o pé esquerdo

18 jun, 2024 - 22:30 • Hugo Tavares da Silva

Portugal venceu a Chéquia, por 2-1, na estreia no Campeonato da Europa. Um golo na própria de Hranác e Francisco Conceição fizeram os golos portugueses.

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Entraram tão tarde que a Constituição devia torcer o nariz a estas substituições tardias. Já depois de um golo anulado a Diogo Jota, Pedro Neto pegou na bola pela esquerda e fez o que costuma fazer (deu cabo da cabeça de um pobre defesa e cruzou). Robin Hranác, que já fizera o golo na própria que deu o empate a Portugal, executou uma manobra bizarra para cortar a bola e ela sobrou para Francisco Conceição, o tal espalha-brasas.

E a brasa espalhou.

O canhoto bateu na bola, que passou por baixo do guarda-redes antes de se embrulhar com as redes, sacou a camisola, correu como quem persegue a sombra da felicidade e foi engolido pelos companheiros e pelo amor daltónico dos adeptos. O primeiro golo pela seleção com a família toda na bancada. Cristiano abraçou-o ali e quando o árbitro apitou pela derradeira vez. O miúdo tentava engolir todo o ar do mundo, para aguentar de pé este momento tão feliz e alimentar com oxigénio as gavetas da memória.

Tudo está bem quando acaba bem? Nem por isso. A história da estreia de Portugal neste Euro2024 resume-se a uma palavra: previsibilidade. O único mais imprevisível foi Roberto Martínez, que apostou em três centrais sem Palhinha e com Nuno Mendes como central pela esquerda, transformando-se em lateral esquerdo com bola, o que acontecia quase sempre. A ideia era ter João Cancelo como centrocampista (foi-o sempre), com uma liberdade ao jeito de Júnior em 1982, e isolar Rafael Leão para este massacrar Coufal, o lateral direito. O futebolista do AC Milan voltou a não ser fiável e estranhamente nem sempre estava aberto, perdendo o momento em que pode fazer a diferença.

Viram-se também alguns vícios antigos. Os cruzamentos que pingavam de qualquer jeito à procura de Cristiano Ronaldo (o primeiro com seis Europeus nas pernas), que até saiu exageradamente da zona do 9. Viram-se também poucos movimentos no espaço e poucas triangulações ou tabelas que eliminem rivais, já que o drible começa a transformar-se numa matéria rara.

A Chéquia, ou a República Checa, apresentou-se ultra defensiva, incapaz de fazer três passes seguidos. Esperava-se o melhor de Patrick Schick, o esquerdino que igualou Cristiano como melhor marcador no Euro2020, com cinco golos. Os duelos aéreos com Rúben Dias, Nuno Mendes e Pepe desatavam algum humilde interesse. O último transformou-se no mais velho a jogar um Europeu, com 41 anos e 113 dias.

Os portugueses até chegavam à frente com facilidade, mas havia pouca dinâmica, pouca genica e ideias. Os centrais jogavam à frente do meio-campo, o que denuncia a proximidade do futebol moderno ao andebol, tais são os cercos estéreis diante das balizas. Portugal mantém a dificuldade perante equipas recuadas, é o mais difícil no futebol, admita-se também.

O golaço de Lukás Provod caiu do céu, mas era um castigo para uma seleção previsível, que não encontrava os melhores espaços, ângulos e posicionamentos. A chuva e a relva pesada pareciam ter influência.

E Martínez reagiu à desvantagem. Primeiro com um berro para Bruno Fernandes, também ele anónimo, não tanto quanto Bernardo Silva, que volta a aparecer numa grande competição num nível baixo. “Bruno, tranquilos!!”, gritou o treinador espanhol. Depois, colocando Diogo Jota e Gonçalo Inácio em campo, desviando o errante Nuno Mendes finalmente para a esquerda.

O empate saiu dos pés de Vitinha, que primeiro descobriu Bernardo na área e depois cruzou para o segundo poste. Nuno Mendes ganhou de cabeça e o defesa Hranác, infeliz, meteu a bola na baliza. O médio do PSG, que disse há poucos dias que vive o melhor momento da carreira, demonstrou mais uma vez ser um futebolista extraordinário. Não tem pressa de soltar a bola, resiste, atrai para ele a atenção alheia, tenta assim soltar companheiros e escolhe os melhores caminhos. Tem coragem e uma qualidade assombrosas. E a estética do seu jogo também está muito bem.

Já com o cronómetro a preparar-se para a recta final da labuta, Bernardo, amorfo, ameaçou a baliza da Chéquia e o guarda-redes Jindrich Stanek disse “não senhor” em checo. A equipa que atuava de branco começava a aparecer mais perto da baliza de Diogo Costa (aposta no futebol direto e segundas bolas). Se não olharmos a nomes, olhando meramente para as prestações, gera alguma surpresa que Bernardo, Bruno Fernandes e Cristiano façam 90 minutos, quando existem várias opções de qualidade no banco. Gonçalo Ramos, perante tanto aperto, nem entrou, por exemplo.

Já depois da hora (com as entradas tardias de Nélson Semedo, Conceição e Neto), e depois do tal golo anulado a Diogo Jota por fora de jogo de Cristiano (discreto, muito discreto), o extremo do FC Porto fez o tal golo na Red Bull Arena e livrou Portugal do sufoco de ir jogar contra a Turquia (que venceu a Geórgia), e logo em Dortmund, sob brasas. Mas a qualidade do jogo da equipa preocupa, sobretudo porque o talento no campo é impressionante.

Chéquia ou República Checa? Nem os checos sabem
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