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Euro2024

Podemos voltar a falar daquele golo de Poborsky? "Parecia em slow motion. Aquilo foi tão bem feito, foi tão suave”

18 jun, 2024 - 15:10 • Hugo Tavares da Silva

Bola Branca regressa aos primeiros minutos da segunda parte do Portugal-República Checa do Euro96. A seleção portuguesa estreia-se no Euro2024 esta noite, às 20h00, em Leipzig, contra a Chéquia.

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Domingos Paciência, com o orgulho saciado pelo golo à Croácia, entrou por Sá Pinto ao intervalo. O apito de Hellmut Krug soou para a segunda parte no Villa Park, em Birmingham. Secretário apostou logo numa cavalgada rasgando os terrenos baldios interiores. Paulo Sousa comportava-se como se tivesse as chaves do estádio (e do mundo). Orientava tudo e jogava à velocidade de quem sabe o que faz.

Hélder Cristóvão fez um grande passe para a esquerda. O toque de bola de Rui Costa era sublime. Que estranho é ver Figo com a camisola 20. Vivemos os primeiros segundos da segunda parte do Portugal-República Checa no Euro96. Kuka era forte como um touro, Radek Bejbl também gostava de morder as pernas dos que vestiam outra farda. Paulo Sousa continuava a dar indicações aos companheiros. Vítor Baía berrava a dar orientações à barreira.

Poborsky tocava pela primeira vez na bola naquele segundo tempo, quase aos cinco minutos. Estava tudo calmo. O narrador da televisão inglesa até dizia que o jogo não parecia de quartos de final de um Europeu. Domingos tentou fintar Jan Suchopárek, mas por baixo da camisola checa estava um bisonte intransponível, que o deixou de ser para ganhar uma falta daquelas que irritam os avançados. O narrador queixa-se da falta de inspiração, esperando-a dos portugueses, confessou.

João Pinto de cabeça. Por cima. Tão João Pinto ganhar nos ares a checos altos e espadaúdos…

Pouco depois, por volta dos 52’, o mesmo João Pinto, já com o seu querido n.º8 nas costas, foi desarmado no meio-campo. A jogada continuou pela esquerda, até que um passe interior encontra Karel Poborsky. Rui Costa manda-se para o chão, num carrinho inútil e inofensivo. Paulo Sousa cortou a bola contra Oceano, então, por algum milagre incompreensível, a bola manteve-se nos pés de Karel Poborsky. Sousa, o tal senhor das chaves, girou sobre si com um ataque de fúria.

O capricho da bola enganou Fernando Couto e aquela melena insuperável. O defesa do Parma ia atrás do craque do Viktoria Zizkov, mas o esgar no rosto já antecipava um desfecho desavindo. “Poborsky brilhante!”, berrava o narrador inglês, olvidando os perversos ressaltos.

E, como se tivesse uma pá, Poborsky picou a bola…

Durante longos e eternos três segundos, a bola mudou a morada fiscal para o céu e confundiu-se com a brisa de Birmingham. “Parecia em slow motion”, recorda Miguel Prates, numa conversa com Bola Branca. O jornalista que representou a RTP, acompanhado pelo comentador e ex-futebolista e futuro selecionador Humberto Coelho, insiste na ideia. “Mesmo no lance original, parecia uma repetição."

O voo de Hélder para a frente do mago checo de nada valeu. Nem a mirada de Vítor Baía. “Aquilo foi tão bem feito, foi tão suave”, continua Prates. “O contacto do pé direito com o Poborsky na bola, depois o olhar do Baía para o céu, a bola a entrar… pronto, onde não devia ter entrado. Parecia uma repetição”, lembra o jornalista, agora na SportTV, entre risos.

Karel cerrou os punhos e foi engolido pelos colegas, celebrou-se assim o primeiro golo pela seleção do cidadão de Jindřichův Hradec. O selecionador Dusan Uhrin sorria. Os britânicos da TV lá se regozijavam com a genialidade do futebolista. “Contra todas as probabilidades”, “que golo clássico!”, ouviu-se ainda.

O estádio estava completamente cheio e o favoritismo pertencia à língua portuguesa, depois de superar um grupo com a Dinamarca dos Laudrup, a Croácia e a Turquia. “A partir do golo foi um bocado desespero, a meter jogadores de ataque, e eles fecharam-se lá atrás”, resume Prates. O jovem Pavel Nedved não saiu do banco.

Já Jorge Cadete e António Folha, sim, pela mão de António Oliveira. Nada feito. O momento artístico de Karel Poborsky, que seria jogador do Manchester United nesse verão e mais tarde do Benfica, ditaria o adeus de Portugal ao Campeonato da Europa de Inglaterra.

“O Poborsky era o mais especial deles”, continua Miguel Prates. “Mas era um jogador um bocado intermitente, como são praticamente os grandes génios. Não estão sempre virados para aquilo. Ele aparecia, desaparecia, era um jogador de rasgos, de picos. Não era muito regular, mas era de eleição.”

Há muito tempo, este que vos escreve entrevistou Vítor Paneira, um dos futebolistas nesse Euro96, e perguntou-lhe quantos nomes chamou a Poborsky. Paneira riu-se. "Foi um golo fabuloso, cheio de intenção, só ao nível dos grandes jogadores. Ficámos frustrados por termos sido eliminados como fomos. Não lhe chamei nomes, muito pelo contrário. Reconhecemos todos: é um golo digno dos predestinados."

Como não chegava essa heresia ao povo português, Poborsky versão 2024 voltou a morder a alma coletiva do país. “[Se o Cristiano Ronaldo for titular], há muito tempo que ando a dizer, será um dos elos mais fracos de Portugal”, admitiu em entrevista à agência de notícias checa CTK, lançando o segundo jogo do Grupo F. “Não é tão válido para a construção de jogo e para a pressão com os companheiros mais jovens. Ajudaria mais a nossa equipa”.

E continuou: “Tiro o chapéu pelo que fez, graças à sua confiança, mas não se pode parar a idade e ele tem 39 anos. Não sabemos como é com o treinador Roberto Martínez, mas foi escrito que o seu antecessor, Fernando Santos, teve este problema no Campeonato do Mundo do Catar”.

Portugal estreia-se esta terça-feira no Euro2024, em Leipzig, contra a Chéquia.

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