Tempo
|

Fernando Santos

Portugal sonha com o Mundial às costas do homem mais sortudo do mundo

29 mar, 2022 - 06:30 • Inês Braga Sampaio

Fernando Santos é um homem com sorte. Confirmam-no um amigo e as peripécias de uma carreira, nas seleções, com sucessos inesperados. Recorde alguns episódios de sorte do selecionador nacional.

A+ / A-

Fernando Santos é o homem mais sortudo do mundo e, frente à Macedónia do Norte, no jogo decisivo do “play-off” de apuramento para o Mundial 2022, Portugal espera contar com um pouquinho da fortuna do selecionador.

Tudo começou no Estoril Praia, no final dos anos 80, quando as equipas técnicas eram compostas por dois elementos, “o treinador principal e outro”, como conta o treinador e comentador António Fidalgo à Renascença.

Fernando Santos começou por ser convidado para treinar os estorilistas, no entanto, recusou porque era diretor do Hotel Palácio, "um dos maiores hotéis da linha de Portugal", e não pretendia abdicar disso. O agora selecionador indicou à direção o nome do antigo guarda-redes, que exigiu, no entanto, tê-lo como adjunto - ou, como prefere referir-se ao amigo, colaborador.

“Eu nunca lhe chamei adjunto, sempre lhe chamei colaborador. Foi assim que nós assumimos a equipa técnica da equipa do Estoril nesse ano, na II Divisão. Eu disse à direção que só assumiria se o Fernando ficasse a trabalhar comigo”, recorda.

Fidalgo queria alguém "mais próximo do clube" ao seu lado. Fernando Santos “não queria mesmo” fazer parte da equipa técnica do Estoril. Numa conversa pessoal, acabou por ceder.

“Entre outras coisas, ele disse-me: ‘Olha que se eu for para lá, de vez em quando não posso aparecer’. E eu: ‘OK, não há problema, Fernando’. Eu precisava do Fernando, para além das suas competências e para além do ser humano que era, e do meu amigo que já na altura era, ele tinha um conhecimento muito grande do Estoril Praia. Depois de muitas argumentações, o diretor do futebol [do Estoril] na altura, o Sr. João Lachever, amigo dos dois, também, promoveu um almoço entre os três e lá ficou decidido que o Fernando me iria acompanhar como treinador e colaborador na equipa técnica do Estoril. Assim estivemos um ano e meio, mais ou menos", conta.

O primeiro ano correu bem: António Fidalgo e Fernando Santos levaram o Estoril ao quinto lugar, numa série com equipas como Vitória de Setúbal, Estrela da Amadora ou Nacional da Madeira. Na segunda temporada, o clube passou por “muitas dificuldades económico-financeiras”, com problemas para pagar salários a jogadores e equipa técnica.

A meio da época, Fidalgo recebeu um convite do Salgueiros, que decidiu aceitar, e sugeriu ao Estoril que ficasse com Fernando Santos, que se mostrou novamente relutante.

“O Sr. Lachever lá convenceu o Fernando que mesmo na organização de treinos podia conjugar com o trabalho dele no hotel e ficou assim. Ele assumiu o Estoril e, a partir daí, é o que já se sabe, não é? Sempre a subir, sempre a subir, sempre a subir. E ainda está a subir”, destaca.

Fernando Santos pegou no Estoril em 1988/89 e subiu-o à Liga de Honra. Em 90/91, promoveu a equipa da Linha ao principal escalão, onde a manteve por mais dois anos. Em 1993/94, não resistiu aos maus resultados. Rumou ao Estrela da Amadora, que treinou durante quatro temporadas, sempre a subir: de uma manutenção à tangente ao sétimo lugar. Em 1998/99, herdou o FC Porto tetracampeão de Bobby Robson e António Oliveira e levou-o ao inédito pentacampeonato. Ficou conhecido como "Engenheiro do penta".

Ainda passou por AEK, Panathinaikos e PAOK, da Grécia, e por Sporting e Benfica, em Portugal. Foi como selecionador, no entanto, mais de dez anos depois, que a famosa sorte de Fernando Santos começou, realmente, a manifestar-se.

Reviravolta, desperdício e um tufo de relva

Fernando Santos assumiu o comando da seleção da Grécia em 2011. Conseguiu a qualificação direta para o Euro 2012 numa jornada final de grande tensão. A Croácia, que chegara à última ronda a dois pontos, adiantara-se à Polónia pouco depois da hora de jogo, com a Grécia a perder, por 1-0, diante da Geórgia. Fernando Santos estava, naquele momento, condenado ao “play-off”. Porém, selou o apuramento com uma reviravolta de cinco minutos, aos 79 e 84.

No Euro 2012, a Grécia chegou à última jornada a precisar de vencer a Rússia de Dick Advocaat para passar. Os russos desperdiçaram (25 remates, dez à baliza, contra cinco e dois, respetivamente, dos gregos, segundo as estatísticas da UEFA) e a equipa de Fernando Santos agradeceu para chegar ao segundo lugar, embora com os mesmos pontos, com um golo de Karagounis nos descontos da primeira parte. Nos quartos de final, foi eliminada pela Alemanha.

A Grécia aterrou no Mundial 2014 via “play-off” com a Roménia. Na fase final, perdeu (3-0) com a Colômbia, empatou (0-0) com o Japão e chegou, novamente, à derradeira jornada a precisar de vencer para “sobreviver”, desta vez frente à Costa do Marfim, que tinha dado mais luta aos colombianos e tinha derrotado os japoneses. O jogo chegou aos 90 minutos empatado. Nos descontos, Samaras tropeçou na relva após contacto com Giovanni Sio, na área marfinense, e o árbitro assinalou grande penalidade, uma das várias controvérsias do torneio no Brasil. O antigo avançado do Manchester City converteu o penálti e levou a Grécia aos oitavos de final, onde acabaria por ser eliminada pela Costa Rica.

Margens mínimas e vitórias nos descontos

Fernando Santos chegou, então, ao comando da seleção portuguesa. Desengane-se quem pense que a sorte só começou no Euro 2016. A qualificação foi, também, digna de filme.

O Engenheiro sucedeu a Paulo Bento após o primeiro jogo, uma derrota com a Albânia, e a estreia não foi fácil: Portugal só desfez o nulo, no terreno da Dinamarca, com um golo de Cristiano Ronaldo aos 95 minutos. Foi, aliás, uma qualificação construída à base de vitórias tangenciais.

O capitão voltou a decidir, aos 72 minutos, diante da Arménia (1-0), e Fábio Coentrão salvou Portugal, com um golo aos 63, de apuros frente à Sérvia (2-1). Na Arménia (2-3), Ronaldo deu a volta com um "hat-trick" e, na Albânia, Miguel Veloso deu corpo à sorte de Fernando Santos com um golo aos 92 minutos. João Moutinho fechou o apuramento perante a Dinamarca (1-0).

Nova regra, seis empates e "vai já daqui"

Já na fase final, Portugal ficou em terceiro num grupo com Islândia, Hungria e Áustria. Somou três empates em tantos jogos, o que teria sido uma prestação desastrosa em torneios anteriores. No entanto, calhou que, nesse ano, pela primeira vez na história, quatro dos seis terceiros classificados da fase de grupos também se apuravam para a fase a eliminar.

Perante o ceticismo dos adeptos, Fernando Santos garantiu que só regressaria a Portugal no dia 11 de julho, a seguir à final. Tornou-se o prefácio do primeiro título internacional da história da seleção portuguesa. Em sete jogos, Portugal venceu apenas um no tempo regulamentar – frente ao País de Gales, por 2-0. Ultrapassou a Croácia (vice-campeã mundial dois anos mais tarde) no prolongamento, depois de duas horas a defender (17 remates dos croatas contra cinco) e bateu a Polónia nas grandes penalidades.

Na grande final, frente à anfitriã França, e num estádio empacotado de franceses, Cristiano Ronaldo lesionou-se ainda antes da meia hora de jogo. Como poderia Portugal ganhar sem o seu melhor jogador? Os franceses dominaram (18 remates, sete à baliza, contra nove e três da equipa das quinas), mas foram esbarrando em Rui Patrício e nos postes. Aos 79 minutos, Fernando Santos tirou o menino bonito Renato Sanches e lançou o mal-amado Éder, que os adeptos portugueses tinham assobiado, até, num jogo de preparação. A sorte voltou a ser protagonista: no prolongamento, o então avançado do Lille rematou do meio da rua, rasteiro, de surpresa, e deu a taça a Portugal.

Dar a volta aos sorteios

Não é só dentro de campo que Fernando Santos tem sorte. Os sorteios têm-lhe corrido muito bem.

No Euro 2016, Portugal parecia ter a vida facilitada com Islândia, Áustria e Hungria. Na qualificação para o Mundial 2018, quando podiam calhar Itália, Países Baixos ou Croácia, Portugal ficou com equipas como Suíça e Hungria. Na fase final, Espanha e Portugal pareciam não ter rival frente a Irão e Marrocos.

Na Liga das Nações 2018/19, Itália, que acabara de falhar o Campeonato do Mundo, e Suíça eram males menores. Para a corrida ao Euro 2020, seleções como Ucrânia, que até acabou por vencer o grupo, Sérvia, Luxemburgo e Lituânia pouco assustavam à partida.

Um grupo com França e Alemanha, no Europeu, era bem menos temível com o apuramento dos terceiros classificados e a Hungria como quarta equipa.

Autogolo e recordes de Cristiano Ronaldo

A fase de qualificação para o Mundial 2022 foi acidentada e Portugal esteve várias vezes em apuros, no entanto, de uma forma ou de outra, a sorte acabava por prevalecer.

Logo na primeira jornada, só conseguiu derrotar o Azerbaijão com um autogolo. Frente à República da Irlanda, em casa, esteve quase a tropeçar, mas Cristiano Ronaldo operou a reviravolta com golos aos 89 e 96 minutos.

O mote tem sido, por diversas vezes, muito sofrimento, jogo feio e golos do capitão.

Minha querida Macedónia do Norte

Falhada a qualificação direta para o Mundial 2022, Portugal teve de se contentar com o “play-off”. Os adeptos assustaram-se quando viram que calhara no caminho da Itália. Porém, o impensável aconteceu: após 90 minutos de “massacre”, a modesta Macedónia do Norte eliminou os campeões da Europa e apurou-se para a final.

No Dragão, após muita tremideira, Portugal agradeceu a Burak Yilmaz um penálti falhado, que teria dado o empate à Turquia perto do fim, e marcou encontro com os macedónios. A velha sorte de Fernando Santos.

São os adeptos que o dizem, mas não só. António Fidalgo confirma que o amigo e antigo colega tem o fado do seu lado, contudo, dá-lhe uma volta: “É um homem que tem muita sorte, é. Mas no meu significado.”

“Normalmente, quando a competência se cruza com a oportunidade, nesse mesmo instante acontece, muitas, muitas vezes, aquilo a que as pessoas à volta chamam sorte. Eu prefiro adotar esse significado da palavra sorte para dizer que o Fernando teve sorte. Sem dúvida que teve sorte, porque foi extremamente competente, aproveitando as oportunidades que teve”, sublinha.

A seleção nacional espera que Fernando Santos tenha um pouco mais desse pozinho de fada para distribuir esta noite, a partir das 19h45, no Estádio do Dragão. O Portugal-Macedónia terá relato em direto na Renascença e acompanhamento ao minuto em rr.sapo.pt.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

Destaques V+