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Opinião de Manuel Fúria

​O Dia do Gafanhoto

03 nov, 2021 • Opinião de Opinião


Sem ter sido mandatada para tal, e apesar de ligada à máquina pelos destroços da geringonça, a Assembleia da República prepara-se para votar a eutanásia. Parece a gozar, mas não é.

É no filme “Palombella Rossa”, de Nanni Moretti, que a páginas tantas é vociferada pelo protagonista/autor a famosa frase, para alguns com força de máxima: “As palavras são importantes, as palavras são importantes!”.

Do ponto de vista cristão esta formulação assume densidade profética – se “no princípio era o Verbo”, isto é, Deus “disse” e as coisas “foram”, as palavras, para além de nos garantirem acesso à realidade, são também, em si mesmas, coisas e elemento gerador da própria realidade. De uma perspectiva secular pós-cristã este carácter logocêntrico do mundo foi uma intuição precoce nos pensadores que parecem exercer tutela intelectual sobre os deputados da Assembleia da República que, sem terem sido mandatados por nenhum português para o efeito, voltam agora a trazer à discussão a nova proposta de lei para a legalização daquilo a que se convencionou chamar, no espaço público, “Eutanásia”.

A estratégia de domínio cultural em intelectuais como Gramsci, Deleuze ou Žižek, parte da captura da linguagem, para tomar conta, não apenas do seu legítimo lado no jogo de xadrez, mas dos quadrados do próprio tabuleiro. Especializaram-se em criar labirintos interrogativos, imperativos crípticos a cujo apertão semântico a única reacção do interlocutor possa ser o reconhecimento de um óbvio que tinha estado afinal sempre diante dos seus olhos, quando a sua finalidade é simplesmente, fugir ao significado e alicerce dos termos propostos.

Depois da declaração de inconstitucionalidade do uso de certos termos e formulações, articularam-se novas definições, mas mantêm-se os becos sem saída. Na definição de “Lesão definitiva de gravidade extrema”, por exemplo, as três primeiras palavras usadas para o definir são “lesão", "grave" e "definitiva”. O resto do texto presta-se a um bar aberto hermenêutico cuja aplicabilidade é uma coboiada ética de consequências presumivelmente desastrosas. Parece a gozar. Mas não, é assim mesmo, de maneira vaga, circular, redundante e autorreferencial, que se tenta ludibriar o constitucionalista mais incauto. É ler.

Haverá com certeza, um sentido em cada fragmento desta síntese presumivelmente judiciosa. Mas o ponto é que não há como saber o que os une uns aos outros. É nos permitido o vislumbre de curtos fogachos de sabedoria guardada num cofre, do qual só os autores possuem o segredo. O timbre elevado, que podemos interpretar como sintoma de transtorno cognitivo, revela, no entanto, certeza e confiança: “Usamos termos mais complexos, com menor carga afectiva e esperamos que a coisa passe.”

E é assim, sorrateiramente, entre os pingos da chuva mediática, numa AR ligada à máquina pelos destroços da geringonça, que se joga aos dados uma de duas hipóteses: a comunidade aberta à possibilidade do milagre ou fechada numa sinistra concepção do mundo, na qual se legitima a legalidade de morrer a pedido. Em certa passagem de “Day of The Locust” de Nathanael West (“O Dia do Gafanhoto”, na edição portuguesa da Livraria Snob), ficamos a saber que Homer Simpson (outro que não a criação animada do Matt Gröening), “(…) quando não estava a executar tarefas domésticas (…) sentava-se no quintal das traseiras, a que o agente imobiliário dava o nome de pátio, numa espreguiçadeira partida”. Os protagonistas desta proposta de lei fazem o papel do vendedor de banha da cobra e tentam enfiar-nos pela goela um “quintal com uma espreguiçadeira partida”, sob o verniz quebradiço da palavra “pátio”.

Num destes dias, noutras paragens, numa tentativa de defender a Polónia perante as investidas da União, o Cardeal Müller, entre a evocação do passado histórico de sofrimento e sacrifício pela liberdade, pelo Estado de Direito e pela Democracia dos polacos, assinalou também que essa pressão é exercida ao abrigo de “valores europeus”, como “o direito de ‘assassinar’ uma criança por nascer, ou a mudança de sexo”.

A linguagem polida e higienizada, concebida para a redefinição ontológica das linhas com que cosemos a existência, exerce um efeito de deslocalização e alheamento da realidade. As palavras mesmo – incómodas porque verdadeiras, antigas porque sólidas – revelam uma realidade bem diferente. Não é de um “pátio” que estamos a tratar, “eutanásia” não diz nada sobre o que está, de facto, em jogo. É um “quintal com uma espreguiçadeira partida”: é “assassínio”.


*Manuel Fúria é músico

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