Tempo
|
José Miguel Sardica
Opinião de José Miguel Sardica
A+ / A-

O roubo das almas

13 jul, 2022 • Opinião de José Miguel Sardica


É um título de um livro de Valentim Alexandre sobre a inserção internacional do Estado Novo nos tempos da Guerra Civil de Espanha. Mas lembrei-me da expressão, e invoco-a, a propósito do caso mediático da família Mesquita Guimarães.

Durante a Guerra Civil de Espanha, após a tomada do País Basco pelas forças nacionalistas de Franco, a resistência republicana, com auxílio britânico e soviético, começou a retirar crianças e jovens das cidades e aldeias daquela região ocupada, e a enviá-las para Inglaterra e para a URSS, para ali serem educadas, longe da influência clérigo-fascizante (assim se denunciava) do nascente franquismo. Em Portugal, a imprensa salazarista, alinhada com a causa do general Franco, apressou-se a denunciar essa debandada, referindo-se-lhe com a expressão “roubo das almas” – entenda-se, as “almas” infantis estavam a ser “roubadas” à cruzada moralizadora franquista, e iriam ser educadas no credo da democracia ou no credo do comunismo, dois desvios que o autoritarismo salazarista condenava como identicamente maus.

«O roubo das almas» é um título de um livro de Valentim Alexandre sobre a inserção internacional do Estado Novo nos tempos da Guerra Civil de Espanha. Mas não é sobre isso que versa o meu argumento. Lembrei-me da expressão, e invoco-a, a propósito do caso mediático da família Mesquita Guimarães.

O enredo é conhecido. Os pais de dois jovens, alunos de mérito de uma escola pública de Famalicão, não querem que os filhos frequentem a disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. A dita disciplina, que, a existir, deveria ser facultativa (como o é a Educação Moral e Religiosa Católica), parece ser uma “salada mista” das modas fraturantes das esquerdas, com temas que vão da educação ambiental e democrática à literacia financeira e segurança rodoviária, passando pela interculturalidade, igualdade de género e sexualidade. A direção da escola percebeu e aceitou a reserva e a decisão dos pais; mas o Secretário de Estado João Costa, hoje Ministro da Educação, interveio para abrir um processo contra os pais. E, agora, foi o Ministério Público que, com uma argumentação delirante e violentadora da esfera privada da família, veio decretar que a vontade dos pais nada vale, que a vontade dos filhos, sintonizados com os pais, nada vale, e que os jovens, bons alunos, gentis e sociáveis devem ser retirados da “situação de perigo existencial em que vivem” e entregues à tutela da escola durante o período em que a frequentam – para, claro, na escola se sujeitarem, queiram ou não, a barrela ideológica que colide com os valores (repito, valores, e não matérias de conhecimento) que os pais, livre e responsavelmente, lhes transmitem em casa.

O caso é alarmante pelo que demonstra de prepotência e de despotismo. Argumenta-se que a disciplina é obrigatória e que os pais não podem decidir o currículo dos filhos. Pois deveria ser facultativa, pela exata natureza dos temas que aborda, e que melhor seriam dados noutras disciplinas (os que o possam ser), ou deixados à liberdade educativa da família (os que não devem ser doutrina impositiva). Alguns pais querem veicular aos seus filhos a ideologia de género: é a sua opção. Outros veiculam outras visões sobre os indivíduos, o sexo e a família: é a opção querida pelos Mesquita Guimarães. O Ministério Público – portanto, o Estado português – considera que estes pais ameaçam o “equilíbrio emocional” dos dois jovens, embora toda a gente os ache, justamente, muito equilibrados pela educação recebida em casa.

O Ministério Público atropela, assim, grosseiramente, o art.º 43.º da Constituição da República Portuguesa, onde se lê que “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”. Em suma, o Ministério Público parece esquecer-se que vivemos em democracia e, pior, parece apostado em cometer, sob fachada democrática, um outro “roubo das almas”.

Tópicos
Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.

  • João Lopes
    24 jul, 2022 Porto 18:34
    Concordo: «O Ministério Público atropela, assim, grosseiramente, o art.º 43.º da Constituição da República Portuguesa, onde se lê que “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas». Este governo socialista julga-se dono disto tudo!