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José Luís Ramos Pinheiro
Opinião de José Luís Ramos Pinheiro
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Figuras tristes

03 nov, 2021 • Opinião de José Luís Ramos Pinheiro


Com este espetáculo – impedir as eleições internas e precipitar as legislativas - Rui Rio e Rodrigues dos Santos parecem mais preocupados em derrotar Paulo Rangel e Nuno Melo na secretaria, do que em vencer António Costa nas urnas.

Triste espetáculo o de Rui Rio e de Francisco Rodrigues dos Santos, nos últimos dias.

A crise política estalou no final dos seus mandatos como líderes do PSD e do CDS. Se os mandatos estão a acabar, precisam de ser confirmados ou substituídos.

É uma regra simples e simplesmente democrática. Quem a contraria não respeita os militantes nem os eleitores e manifestamente não respeita a função que desempenha.

Só pelo facto de os líderes candidatos duvidarem de si próprios e recearem as vitórias dos candidatos a líder, se podem ler as posições dos últimos dias.

Com este espetáculo – impedir as eleições internas e precipitar as legislativas - Rui Rio e Rodrigues dos Santos parecem mais preocupados em derrotar Paulo Rangel e Nuno Melo na secretaria, do que em vencer António Costa nas urnas.

Em desespero para evitar eleições internas, Rui Rio (e o seu homólogo do CDS vai por idêntico caminho) tem dito que as legislativas se devem realizar o mais depressa possível. E já admitiu ou defendeu as datas de 9 ou 16 de janeiro.

Como explicar tamanha irracionalidade?

Se o Presidente da República fizesse a vontade a Rui Rio e convocasse eleições para 9 de janeiro, a campanha eleitoral começaria a 26 de dezembro e os debates decorreriam ainda antes do Natal.

Desconfio vagamente que Rui Rio é mesmo o primeiro aspirante a primeiro-ministro que defende uma pré-campanha e uma campanha eleitorais, misturadas no meio das celebrações da quadra natalícia.

É-lhe indiferente a confusão, desde que a emergência eleitoral lhe garanta que os militantes do PSD não possam pronunciar-se em tempo útil sobre esse pequeno detalhe: quem deve ser o candidato a primeiro-ministro, apresentado pelo PSD?

Habitualmente, um candidato a primeiro-ministro cuida das condições em que a campanha eleitoral vai decorrer. Preocupa-se com o timing dos debates. Garante que os eleitores tenham disponibilidade para refletir, participar e votar.

Neste caso, não. Nem pensar. Eleições, rapidamente e em força.

Mas como se podem apresentar a eleições legislativas estes dois dirigentes, se o país desconfiar que nem os seus próprios partidos os apoiam?

De resto, sabe o Dr. Rui Rio, e sabe todo o país, que se as eleições legislativas se realizarem, não no inicio de janeiro, mas no final ou no princípio de fevereiro, Portugal não fica melhor nem pior.

Por acaso, até pode ficar melhor, se a data das eleições legislativas permitir que a democracia interna funcione no PSD e no CDS.

Ganhe quem ganhar, os eleitores poderão escolher ou rejeitar nas urnas, dirigentes genuinamente legitimados pelos respetivos partidos.

Credibilizando-se o processo eleitoral das legislativas, credibiliza-se o próprio sistema democrático.

A democracia assenta na vontade do povo que deve poder escolher entre os programas e os candidatos, apresentados livremente pelos partidos.

Os entorses administrativos aos processos eleitorais são entorses à democracia e constituem o melhor incentivo à abstenção.

Ainda assim, numa dramática fuga em frente, Rio quer pôr todo o país a funcionar de acordo com o seu próprio calendário.

Rejeita as diretas no PSD, garantindo não querer colocar o interesse partidário acima do interesse do país. Mas faz pior: pretende impor ao país, o seu interesse pessoal, enquanto dirigente partidário.

Agora, o foco está na decisão do Presidente da República.

Se Marcelo Rebelo de Sousa escolhesse as datas de 9 ou 16 de janeiro, estaria a beneficiar objetivamente os atuais líderes do PSD e do CDS e também, já agora, o Chega e todos os partidos da ex-Geringonça que provocaram esta crise e não parecem nada interessados em enfrentar novos protagonistas à direita.

Por outro lado, se as eleições fossem marcadas para final de fevereiro, como Paulo Rangel pretendia, isso representaria uma ajuda igualmente indefensável, ao candidato a líder do PSD.

Se a escolha presidencial recair no final de janeiro ou na primeira semana de fevereiro, o Presidente estará a contribuir para que a crise política se resolva rapidamente, mas, ainda assim, sem atropelar as mais elementares regras democráticas.

O Presidente pode ainda optar por 23 de janeiro, ensaiando um compromisso frouxo que não agradará a gregos nem a troianos.

Rui Rio dirá que o Presidente está a beneficiar Rangel, porque a data não inviabiliza as diretas. E Rangel lamentar-se-á porque as eleições a 23 de janeiro nem o deixam respirar para elaborar a lista de deputados ou até para constituir uma coligação pré-eleitoral.

Com raríssimas exceções (IL e PAN), as atuais direções partidárias querem consumar eleições legislativas a contra-relógio e a todo o vapor.

Fogem de quê? Melhor: fogem de quem?

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