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João Ferreira do Amaral
Opinião de João Ferreira do Amaral
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​A armadilha

04 ago, 2022 • Opinião de João Ferreira do Amaral


Recuperação rápida da economia originou efeitos de excesso de procura sobre alguns bens essenciais, nomeadamente a energia, o que fez crescer os preços de forma significativa.

O Banco Central Europeu caiu na armadilha. Mas creio que não serei considerado suspeito de simpatia pela zona euro e suas instituições ao acrescentar que não critico o BCE por ter feito o que fez. Bem pelo contrário, face à informação que se dispunha há uns meses atrás o procedimento do Banco, do meu ponto de vista, foi o mais adequado. Mas, claro, fazer prognósticos depois do jogo é sempre muito mais fácil.

De que armadilha é que estou a falar?

No ano passado a pandemia começou a ser controlada e a economia mundial, em particular a dos países ocidentais, começou a recuperar em força, como aliás tinha sido previsto pela generalidade dos economistas que assim iria suceder mal houvesse controlo sobre a pandemia. Esta recuperação, pela rapidez que a caracterizou, originou efeitos de excesso de procura sobre alguns bens essenciais, nomeadamente a energia, o que fez crescer os preços de forma significativa. O Banco Central Europeu admitiu que não se tratava de um verdadeiro processo inflacionista sustentado e por isso não aumentou a taxa de juro (que estava – é bom recordar - anormalmente baixa) em correspondência com o aumento de preços. Considerou que este era temporário e que aumentar a taxa de juro poderia provocar a reversão do processo de recuperação económica. Do meu ponto de vista, a avaliação de risco foi a mais adequada. Simplesmente surgiu o imponderável: a invasão da Ucrânia pela Rússia que veio criar as condições para a sustentação da inflação.

O BCE está agora confrontado com o seguinte situação: as taxas de juro reais (isto é, descontado o aumento de preços) são absurdamente negativas na zona euro (cerca de -8%). Isto não se pode manter pelo que, a bem do funcionamento da economia vai ser necessário aumentar rapidamente a taxa de juro nominal. Mas aumentar a taxa de juro nominal significa penalizar no imediato os muito endividados, famílias, empresas e estados e isso também provocará muitos estragos na economia. Eis a armadilha.

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