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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Catar? Prefiro criticar os Catares que temos dentro de portas

25 nov, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Fazer declarações sobre o trabalho desumano no Catar é fácil e dá medalhas moralistas, as pessoas sentem-se virtuosas quando se olham ao espelho (isto é, facebook). Mas denunciar casos concretos de trabalho desumano e escravo aqui em Portugal dá trabalho, implica sujar as mãos e fazer inimigos. É por isso que em breve teremos nova onda de indignação sobre outro Catar qualquer, mas ao lado uma série de Catares continuarão a prosperar no Alentejo ou na Grande Lisboa debaixo deste comodismo de hashtag.

Desconfio sempre de declarações grandiloquentes e moralistas sobre assuntos abstratos ou muito distantes. É muito fácil e barato vestir a pele da indignação sobre o Catar. É fácil, basta um post num mural ou uma declaração ou uma opinião. Só que esta falsa virtude esconde uma série de hipocrisias e silêncios comodistas.

Porquê o Catar e porquê agora? Há uns anos, o Mundial foi na Rússia de Putin. Acham que os direitos humanos têm um registo mais tolerante na Rússia do que no Catar? Há uns anos, os Jogos Olímpicos foram na China. Acham que a China é mais humanista do que o Catar?

Se a causa da indignação é a condição das mulheres no Catar, então deixem-me dizer duas coisas. Esta onda de indignação vem na pior altura possível, porque há neste momento uma evolução na liberdade das mulheres nos estados do Golfo Pérsico. O Catar e a própria Arábia dão hoje liberdades às mulheres que não davam há 5 ou 10 anos. Segundo os nossos padrões, elas ainda vivem numa prisão? Claro. Mas em 2022 vivem com mais liberdade do que em 2012. Por outro lado, tenho de repetir a suprema falta de coragem: se a indignação vem do machismo e da homofobia sofrida por mulheres e homens muçulmanos em países como o Catar, então porque é que não há uma campanha séria e sistemática contra esse machismo e essa homofobia que afeta aqui as comunidades muçulmanas da Europa? Se criticar o machismo e a homofobia da cultura muçulmana no Catar é “direitos humanos”, como é que criticar o machismo e a homofobia da cultura muçulmana aqui dos bairros de Paris, Londres ou Bruxelas passa a ser “racismo” ou “islamofobia”?

Para terminar, vale a pena comentar a situação dos trabalhadores. Se a causa da indignação é a condição iníqua dos trabalhadores asiáticos no Catar, então que tal manter essa indignação sobre o que se passa aqui em Portugal e noutros países europeus? Há um anos, em Odemira, vimos que há condições sub-humanas de trabalho em Portugal que são suportadas quase sempre por asiáticos, os mesmos que construíram os estádios do Catar. E ainda ontem voltámos a conhecer casos de trabalho escravo no Portugal de 2022. Percebem a hipocrisia disto tudo?

Fazer declarações sobre o trabalho desumano no Catar é fácil e dá medalhas moralistas, as pessoas sentem-se virtuosas quando se olham ao espelho (isto é, facebook). Mas denunciar casos concretos de trabalho desumano e escravo aqui em Portugal dá trabalho, implica sujar as mãos e fazer inimigos. É por isso que em breve teremos nova onda de indignação sobre outro Catar qualquer, mas ao lado uma série de Catares continuarão a prosperar no Alentejo ou na Grande Lisboa debaixo deste comodismo de hashtag.

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  • Maria Josefa A
    25 nov, 2022 Paços de Ferreira 13:34
    Estou em Portugal a 22 anos apesar de ser fluente em inglês e português nunca consigo arranjar emprego antes era por não saber portugues e não ser português. Agora sou portuguesa mas tenho idade a mais. Pesar de ter ensino superior nao tendo cunhas só arranjei trabalno na Ikea carregar componentes de móveis a fazer e desfazer paletas inteiras
  • Digo
    25 nov, 2022 Eu 11:42
    Um excelente artigo que toca em vários pontos que certas virgens ofendidas tentam passar pelo esquecimento