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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

​As mulheres abortam porque se sentem abandonadas pelos homens

27 mai, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Quando se fala em diferenças ao nível do salário, não estamos perante uma "gender gap", mas de uma "motherhood gap": as mulheres são punidas por serem mães. As mulheres pobres ficam mais pobres. As outras não sobem na carreira como sonhavam. E é aqui que nascem os abortos.

Ser pró-vida é defender a igualdade entre homens e mulheres, dando às mulheres as oportunidades laborais que só costumam ser dadas aos homens; ser pró-vida é permitir que o género feminino não fique preso a deveres e funções que alegadamente o género masculino não consegue fazer, coitadinhos dos homens que não conseguem educar e cuidar de crianças e velhos. Não.

Tudo é partilhável na vida pública e doméstica. Ser pró-vida é ser feminista, porque uma mulher mais independente e mais segura de si, da carteira à emoção, vai fazer menos abortos, porque os abortos não são uma escolha exclusiva da mulher, o homem/pai também escolhe, tal como a família e o meio que pressionam e censuram a "mãe solteira". Ou seja, a defesa da vida não passa por acantonar a mulher no papel de mãe, porque ela vai sentir que o papel de mãe bloqueia todas as outras identidades e ambições.

E bloqueia, de facto. Quando se fala em diferenças ao nível do salário, não estamos perante uma "gender gap", mas de uma "motherhood gap": as mulheres são punidas por serem mães. As mulheres pobres ficam mais pobres. As outras não sobem na carreira como sonhavam. E é aqui que nascem os abortos. As mulheres pobres sentem que vão ficar ainda mais miseráveis. Uma miúda de classe mais alta sente que vai ficar presa, porque ele, o pai, não está e, se está, não partilhará com ela o fardo que é criar o bebé. Lamento, mas as mulheres abortam porque se sentem abandonadas pelos homens. Na pobreza sentem que o bebé é ainda mais miséria. Na classe média sentem que o bebé é o fim dos sonhos. Nada disto aconteceria se o rapaz/homem estivesse presente de corpo e alma.

Portanto, mudar leis não muda nada, porque os abortos vão continuar a existir em larga escala enquanto não educarmos os homens de outra forma, enquanto não educarmos os homens a ficar em casa lado a lado com a mulher, 50%, 50%, hoje ficou eu, amanhã ficas tu. E os homens que são pró-vida e que lutam contra o aborto também deviam ser pais mais presentes em casa; deviam partilhar o fardo doméstico que é criar filhos, libertando assim as suas mulheres para uma carreira, libertando as mulheres da ideia de que a “mãe” é um peso que lhes arruína a carreira e sonhos. Se os homens fizessem isto, as mulheres sentirão a maternidade com outra leveza e ficariam coletivamente mais longe da decisão radical que é o aborto.

Comentários
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  • Filipe
    28 mai, 2022 Ovar 18:42
    Um dos slogans ouvidos durante o referendo sobre a legalização do aborto era "no meu corpo mando eu" e "o corpo é a última fronteira da liberdade". O autor deste artigo continua a achar que afinal as mulheres não mandam no seu corpo e que tudo o que elas fazem é por culpa dos homens. Caríssimo autor, tratar as mulheres como seres sem vontade própria, que se comportam em função dos condicionalismos dos homens, é maior prova de machismo que existe.
  • Bruno
    28 mai, 2022 Ali ao lado 18:28
    Este senhor tem uma estratégia bem montada. Escreve artigos feministas e diaboliza os homens num meio de comunicação conservador, pertencente à Igreja Católica. A intenção é clara. Visa provocar as pessoas ideologicamente à direita de forma a extremar a sua posição. Desta forma, pretende-se que este eleitorado transfira o seu voto para o CHEGA. Espero que os leitores consigam desconstruir as intenções deste senhor.