Tempo
|
Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
A+ / A-

Nem ateu nem fariseu

O pai Mojito: uma carta para Joana Espadinha e Diana Castro

22 abr, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Libertando a minha mulher para uma carreira exigente, sou quem fica em casa. Mas, como sou homem e como até tenho uma carreira visível, nunca ninguém me faz a pergunta “como concilia a carreira com as crianças?”. Fico numa terra de ninguém.

Minhas caras amigas, caras colegas desse belíssimo e doce sortilégio que é criar crianças nos dias que correm, quero muito agradecer-vos pela música “Ginger Ale” que apresentaram no festival da canção. Eu também penso e canto “ainda nem é quarta-feira e não sei lá chego inteiro”. Submerso no “multi tasking”, também preciso de um Ginger Ale para me voltar a lembrar de mim, qual passaporte para o que eu era, para o que eu sou. E também sinto uma certa culpa quando volto a mim nesses breves momentos, também acho o Ginger Ale “doce mas errado”, porque, se eu estou totalmente em mim, isso quer dizer que falta alguma coisa às minhas filhas. Aquilo que eu sou e aquilo que eu quero ser está – neste momento – soterrado pelo amor. E é preciso uma certa arte para aprender a respirar debaixo desse entulho provocado pela destruição criativa que são os filhos. A vossa música, cara Joana, cara Diana, tem sido uma das palhinhas que tenho usado para respirar.

Sim, sem piadas, sem nuances, sem subentendidos, quero mesmo dizer-vos, cara Joana, cara Diana, que essa canção sobre o lado sombrio da maternidade ajudou-me enquanto pai; foi uma das peças mentais que me ajudou a escrever, por exemplo, esta crónica sobre as imperfeições perfeitas de cada família, a começar na minha.

A vossa música diz “já me libertei da super-mãe” e “não me podem julgar”. Eu fiz o mesmo processo mental enquanto pai. Deixei de ser tão exigente comigo mesmo e assumi que há imperfeições na maneira como educo as minhas filhas. Aliás, se calhar, nem são imperfeições, porque andamos todos a seguir um guião que pode não ser o nosso: “Compro a expectativa / que alguém inventou”. Quem é que disse que o jantar tem sempre de ser o jantar formal à mesa a um dia da semana? É preciso fazer as coisas da forma possível e imperfeita e não sentir culpa por não estarmos a seguir um guião, que muitas vezes é uma imposição do passado e de um passado que estava longe de ser perfeito. Como é que as famílias no passado conseguiam sempre um final de dia perfeito com jantar quase à luz das velas? Porque as criadas ou as mães estavam em casa a tratar de tudo. Esse mundo acabou, e ainda bem. Ainda bem que as mães saíram para conquistar o mercado de trabalho e os seus sonhos. Ainda bem que não há as criadas internas quase escravas do passado.

A vossa canção é uma defesa da liberdade da mulher. Não se trata de um manifesto contra a maternidade, mas da defesa da liberdade da mulher para dizer coisas que ainda são tabu: sim, a gravidez pode ser penosa e as mulheres não têm de sentir culpa por sentirem esse peso durante nove meses; sim, a maternidade pode ser muito dura, até porque os outros esquecem-se de nós e só pensam nas crianças e porque nós deixamos “na cabeceira /sonhos e vontade por cumprir”. Deixamos ou já deixámos?

A canção é sobre mulheres e deve ser sobre mulheres, porque são elas que continuam a ser as grandes sacrificadas, não eles. Os dados mostram isso. Mas também por isso a minha posição às vezes é tão ingrata. Libertando a minha mulher para uma carreira exigente, sou quem fica em casa. Mas, como sou homem e como até tenho uma carreira visível, nunca ninguém me faz a pergunta “como concilia a carreira com as crianças?”. Fico numa terra de ninguém. E, nesta terra, entre trincheiras e tribos, lá vou sobrevivendo com o Ginger Ale; na verdade, é um Mojito, porque não tenho que amamentar, não é verdade?

Mais uma vez, cara Joana, cara Diana, obrigado pelo vosso momento de liberdade, que foi uma espécie de Desfolhada moderna e sobre outro assunto.

Comentários
Tem 1500 caracteres disponíveis
Todos os campos são de preenchimento obrigatório.

Termos e Condições Todos os comentários são mediados, pelo que a sua publicação pode demorar algum tempo. Os comentários enviados devem cumprir os critérios de publicação estabelecidos pela direcção de Informação da Renascença: não violar os princípios fundamentais dos Direitos do Homem; não ofender o bom nome de terceiros; não conter acusações sobre a vida privada de terceiros; não conter linguagem imprópria. Os comentários que desrespeitarem estes pontos não serão publicados.