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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

O sexo não é o centro do cristianismo

13 mai, 2022 • Opinião de Henrique Raposo


Jesus não nos disse nada sobre sexualidade, mas disse-nos que não devemos julgar os outros.

Por vezes, é muito cansativo assistir à consagração da ideia de que o sexo – em qualquer das suas variantes ou temáticas – é o centro da moral cristã. Não é. Não há nada na Bíblia e sobretudo no Evangelho que permita dizer que a sexualidade é o alfa da ética cristã.

Se lermos o Evangelho com atenção, vamos perceber que Jesus não está nem aí para o sexo; Ele nada nos diz sobre o tema, porque o tema é secundário, não é o centro.

Aliás, até se pode dizer que Jesus é bastante irreverente e alternativo na questão. Quem é que O vê ou sente pela primeira vez após a ressurreição? Madalena, prostituta. E o que dizer dos telhados de vidro e das pedras? É bom que se saiba que, para Jesus, um fariseu (isto é, um beato de coração frio) pode estar mais perto do inferno do que uma prostituta. Sim, é certo que convém não ser nenhuma das duas opções (prostituta e fariseu), mas convém perceber que os espíritos que se julgam virtuosos e sexualmente perfeitos do ponto de vista moral e que julgam os outros considerados “impuros” estão mais fundos no inferno do que uma call girl. Jesus não nos disse nada sobre sexualidade, mas disse-nos que não devemos julgar os outros.

É por isso que concordo com absoluto com este belo artigo da Inês Teotónio Pereira. A ideia de que o sexo é o centro da ética cristã é uma confusão veiculada e mantida por boa parte dos cristãos, que perdem mais tempo com este tema do que com todos os outros juntos.

Como sair disto? Não temos aqui espaço para discutir a curva errada de Santo Agostinho, mas lá chegaremos. Por ora era importante que igreja e fiéis percebessem uma coisa: há que desenvolver uma abordagem à questão que seja realista em relação aos jovens de hoje e que seja sobretudo um eco da mensagem de Jesus. Não fazer isto é deixar os jovens cristãos num vazio.

Comentários
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  • Norberto Manso
    20 mai, 2022 Sabugal 10:14
    A questão não está no que Cristo disse ou deixou de dizer sobre a sexualidade… A questão está no que é que a Igreja Católica tem vindo desde sempre a dizer sobre a sexualidade. O baptismo marca o ingresso na Igreja, mas só a aceitação e a prática das regras mantém as pessoas na Igreja. E, porque depois do concílio vaticano II alguns espíritos, ditos mais livres, tolerantes e progressistas começaram a fazer interpretações da Doutrina da Igreja, esta sentiu-se na necessidade de elaborar um novo “Catecismo da Igreja Católica”, de modo a não deixar margens a outras interpretações, práticas e regras. Desta forma, cada católico não pode fazer, por exemplo, a sua interpretação do pecado. A igreja define e regulamenta as situações para acabar de vez com, “para mim não é pecado”. O “Catecismo da Igreja Católica”, cuja publicação João Paulo II ordenou no dia 11 de Outubro de 1992, (publicado em Portugal, em 1993, pela Gráfica de Coimbra, não nos deixa margens interpretativas! Norberto Manso
  • Abilio Vasconcelos
    16 mai, 2022 Porto 19:43
    Em nenhum dos 4 Evangelhos é dito que Maria Madalena é prostituta! O Evangelho de Lucas (Lc 8,2) diz "dela saíram sete demónios". E no de João ela é apresentada como a Apóstola (Enviada) dos Discípulos, depois do encontro com Jesus Ressuscitado! Henrique Raposo não podemos acreditar cegamente em todas as tradições populares da cristandade! Ainda assim, muito aprecio os seus artigos. Obrigado!
  • Desabafo Assim
    16 mai, 2022 Porto 16:34
    Se a ideia fosse que todos atingissem o transcendente o mundo seria diferente, se terminarmos com a obrigatoriedade do estudante estudar de contra vontade acabamos com a enorme satisfação de o ter feito. Continuou a ser prostituta ou uma vez sendo é para sempre? Devemo- nos reservar de tirar ilações sobre determinados assuntos. Sendo a minha única função provar que os humanos não são dignos, como os levar a pecar? Que de mais saboroso tem como prazer a espécie? Os jovens não são crianças, não são os naturais do reino de Deus, são simplesmente o que querem ser, nada a ambicionar para encher igrejas. Voluntariosos mas muito vulneráveis. Se o assunto não fosse tão bem colocado pela besta provavelmente não ficaria riscando no chão, a lei fora ditada por um profeta, era para respeitar, e era lei sagrada antes da sua vinda, passou a ser relativa só depois da sua "ida", substituída por duas únicas, Deus acima de tudo e aos outros com a ti mesmo. Não sensurou nem aprovou, limitou se a exemplificar a segunda lei do profeta. Mal sempre haverá, o mal que é praticado contra nós é ouro, o morno não sabe este significado. Quem, independentemente da sua orientação sexual, perdoar o outro, contra a sua natureza, sabe o significado.
  • João
    14 mai, 2022 Porto 20:46
    Já costumo ler estas opiniões do Henrique, mas por vezes não tenho temo de cá vir e outras vezes esqueço-me com os afazeres que tenho. Será que é possível, subscrever somente esta parte do Henrique? Enviar por email sempre que tem uma nova opinião? Obrigado João