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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

Deus e a ciência: três equívocos

10 dez, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Os ateus ‘cientificistas’ dizem-nos, e bem, que o universo é regulado por leis universais e racionais, por padrões que se repetem e que por isso são observáveis. Mas, depois, quando se pergunta pela origem desta imensa racionalidade cósmica, estes ateus cientificistas, para evitarem a palavra “Deus”, dizem-nos que tudo resultou de um mero acaso, de um mero acidente, de um mero choque fortuito de matéria. Não faz sentido.

Primeiro equívoco: ouve-se muitas vezes o discurso ‘Não se pode negar a ciência’. O termo 'negacionista' vem daqui e tem sido aplicado sem qualquer critério. Este equívoco resulta da transformação da ciência numa teologia fechada cheia de dogmas. Eu, para ser católico, tenho de acreditar que Jesus ressuscitou no terceiro dia. A crença religiosa é afirmativa, contempla uma verdade absoluta e inquestionável. Eu, para ser ou ter um espírito científico, tenho de fazer exatamente o oposto: tenho de desafiar as teorias ou teses que têm validade no momento. Einstein montou as suas teses contra as ‘certezas’ científicas do seu tempo. Ou seja, um espírito científico tem de procurar invalidar, por exemplo, a tese do aquecimento global antropocêntrico. Se permanecer de pé após dezenas de tentativas de invalidação, então é porque a tese é sólida. Mas acham mesmo que há nos meios científicos de hoje liberdade para se questionar este mantra absoluto que politizou a ciência? Quando politizamos a ciência, deixamos de ser científicos e comprometemos a liberdade dos cientistas.

Segundo: ouvimos todos os dias que 'temos de seguir a ciência’, ‘temos de seguir os especialistas’. Mas quais especialistas? A ciência não é uma ideologia fechada; a ciência é um conjunto pluralista de especialistas e de respostas. Durante a pandemia, tem existido sempre uma enorme divergência de posições dos especialistas. O problema é que os políticos, apertados pelos média e pelas redes sociais, acabam sempre por seguir os especialistas mais pessimistas, mais apocalípticos. Vários virologistas, cá e lá fora, já afirmaram que neste momento já não temos uma pandemia, temos uma doença endémica que infelizmente matará sempre milhares de pessoas nos invernos – tal como a gripe e competindo com a gripe. Esta visão é científica e está ancorada nos números: se mantivermos uma média diária de 10 a 20 óbitos covid, isto quer dizer que vamos ter menos mortos de covid no inverno 21/22 do que mortos de gripe num inverno normal do passado recente. Só que esta certeza objectivamente verdadeira não triunfa porque emocionalmente as sociedades, os média e os governos não querem largar a atmosfera do estado de emergência e do #ficaremcasa.

O terceiro equívoco é ainda mais profundo e tem que ver com os próprios limites da ciência, que não pode ser vista como a única fonte válida de saber. A ciência só responde ao “como”, não ao “porquê”. A ciência consegue descrever como é que as coisas se processam, mas não explica a sua origem. A ciência responde à questão “como é que o universo funciona?”, mas não responde à pergunta “porque é que o universo foi criado?”. E aqui, lamento, Deus continua a ser fundamental. Quando procuramos o porquê, a ciência é inútil; precisamos de Deus, da teologia, da pintura, da literatura. Portanto, o ‘cientificismo’, isto é, a perversão da ciência, a ideia errada de que apenas a ciência pode falar no espaço público não é só perigosa na sua intolerância, também é insuficiente na sua abrangência. Repare-se só nesta incoerência mortal do discurso 'cientificista' que recusa Deus à partida: os ateus ‘cientificistas’ dizem-nos, e bem, que o universo é regulado por leis universais e racionais, por padrões que se repetem e que por isso são observáveis; mas, depois, quando se pergunta pela origem desta imensa racionalidade cósmica, estes ateus cientificistas, para evitarem a palavra “Deus”, dizem-nos que tudo resultou de um mero acaso, de um mero acidente, de um mero choque fortuito de matéria. Não faz sentido. Como é que o acaso arbitrário pode explicar padrões de uma racionalidade absoluta e marcada por padrões observáveis? Não pode. Precisamos de Deus para entrar no porquê.

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