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Henrique Raposo
Opinião de Henrique Raposo
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Nem ateu nem fariseu

O argumento “o corpo é meu” só se aplica às causas da esquerda fracturante?

05 nov, 2021 • Opinião de Henrique Raposo


Ao colocar a questão do aborto apenas no campo dos “direitos da mulher”, a narrativa “o corpo é meu” é um factor óbvio de desresponsabilização dos rapazes e dos homens, que andam pelo mundo como se os seus actos sexuais não tivessem consequências. As consequências são apenas femininas, o resultado óbvio da tese “o corpo da mulher é só da mulher”: são elas que passam pelo trauma do aborto, são elas as mães solteiras. Eles não aparecem no filme.

Algumas pessoas que recusam a vacina anti-covid apresentam algumas dúvidas legítimas. Por exemplo, não percebo a pressa da vacinação anti-covid de crianças e adolescentes. No entanto, a esmagadora maioria das pessoas do chamado movimento anti-vacinas não apresenta argumentos, apresenta slogans irracionais que cabem num tweet. Um dos slogans é este: “o corpo é meu, sou quem decide se alguém me injecta com isto ou aquilo”.

Esta tese é espúria a partir do momento em que estamos a falar de outras pessoas além daquela pessoa. Se vivesse numa gruta como eremita, o indivíduo anti-vacinas podia dizer isto, porque a sua ação não teria consequências nos outros. Mas, como vive em sociedade, o indivíduo tem um dever social perante os outros. Quando não vacinam os filhos contra o sarampo com uma vacina com décadas e décadas de eficácia comprovada, os pais da criança x ou y estão a colocar as outras crianças em risco, porque abrem uma porta na blindagem da imunidade através da vacina. Antes da pandemia, os surtos de sarampo estavam a recuperar por causa desta tese espúria que diz “no meu corpo mando eu, no corpo do meu filho mando eu”.

Ora, se o argumento “no meu corpo mando eu” é espúrio no caso dos anti-vacinas, porque é que passa a ser legítimo nas causas da esquerda fracturante como o aborto? No aborto, não estamos a falar do corpo da mulher, mas do corpo que está a nascer dentro da mulher. A tese “no meu corpo mando eu” cai logo por terra, não só porque esquece o corpo do bebé, mas também o corpo do pai, que é sempre desresponsabilizado. A tese alegadamente feminista “o corpo é meu” dá muito jeito à desresponsabilização masculina na questão do aborto.

Os defensores do aborto enquanto direito ou prática médica corrente têm do seu lado alguns argumentos que devemos ouvir, mesmo que não concordemos com eles. São legítimos. Têm o seu sentido. Este argumento não é um deles. "O corpo é meu" esquece que não estamos a falar do corpo da mulher, mas do corpo que cresce dentro da mulher. E, além disso, esta tese teve e tem o efeito perverso de tirar o pai da criança da equação. Ao colocar a questão do aborto apenas no campo dos “direitos da mulher”, a narrativa “o corpo é meu” é um factor óbvio de desresponsabilização dos rapazes e dos homens, que andam pelo mundo como se os seus actos sexuais não tivessem consequências.

As consequências são apenas femininas, o resultado óbvio da tese “o corpo da mulher é só da mulher”: são elas que passam pelo trauma do aborto, são elas as mães solteiras. Eles não aparecem no filme. Se isto é feminismo, então o machismo marialva tem neste “feminismo” o seu grande aliado. Ainda vamos a tempo de reconhecer que a alegada revolução sexual e dos costumes dos anos 60 foi, na verdade, a maior legitimação de sempre do marialvismo.

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